Segunda-feira, 21 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 27 de março de 2009

Homens e números

 

O velho Marx dizia que ele jamais aceitaria pertencer a um clube que tivesse o mau gosto de aceitá-lo como sócio. Isso, que o Marotta Rangel chamaria de boutade, tem uma profundidade que poderíamos dizer filosófica, se soubéssemos o que quer dizer exatamente isso. Aliás, qual a diferença entre humorista e filósofo?

Reconheço que o humor do Groucho era mais fino do que o meu, o que Zepo chamaria de pun, nome que, em inglês, significa o que jeux-de-mots significa em francês. Ou seja, trocadilho, palavra idiota que não diz coisa nenhuma e só serve mesmo para o Saramago mudar-se de Cabo Verde para as Canárias, quando dirá que fez uma troca d'ilhas. Criar uma palavra só para aproveitá-la em um trocadilho desses, faça-me o favor! Já em inglês, a coisa é muito diferente: imagino o Groucho perguntando a um dos irmãos: "Did you make some pun?" e o Zepo, o trocadilhista do quarteto, tapando o nariz: "not me, my bro. Not me!".

Registre-se que a biografia dos Irmãos Marx diz que os comediantes eram cinco: Chico (Adolph Arthur), Groucho (Julius Henry), Gummo (Milton), Zeppo (Herbert) e Manfred. O último não teve apelido porque morreu ainda criança. Como talvez dissesse um dos sobreviventes: os quatro filhos de Adão eram três, Isaó e Jacu.

O ancestral deles, que gostava tanto da vida interiorana que escreveu contra o capital, dizia que a revolução industrial havia acabado com o lado erótico do trabalho. O que ele queria dizer era que o operário e a operária tinham orgulho daquilo que produziam, tal como o pai e a mãe olham para o filho com aqueles olhos que exclamam: fui eu quem fez! A toalhinha de crochê sobre a mesa da sala, a carriola de vender verduras pelas ruazinhas da cidade, o telhado da casinha do vizinho, tudo isso o operário olhava e dizia lá para dentro de si: eis-me projetado. Isso se ele fosse filósofo. Ou humorista. Graças ao avanço tecnológico, porém, esse prazer, também esse, foi roubado dos trabalhadores, no dizer do avô dos irmãos Marx. E não me perguntem Karl, porque eu detesto puns. Inda mais com as janelas da sala fechadas.

Pois o que o humanista alemão queria dizer era que o homem acabou sendo instrumentalizado. Aquela separação entre ele e o martelo, ele e o serrote ou ele e a colher de pedreiro que havia até então, foi cancelada. A partir da automação da indústria, o homem passou a ser apenas mais uma peça dentro de uma engrenagem composta de peças. E não me peças mais explicações, diria o Zepo. O ser humano agora é uma peça tão descartável quanto as demais que giram, tanto quanto o operário, dentro da fábrica do filme Tempos Modernos, de autoria e com o filósofo Sir Charles Spencer Chaplin, não sei se conheces?

Pois graças à denúncia do capitalismo, como coisificador do ser humano, feita naquele filme e à gozação que ele faz da mentalidade narrow mind dos norte-americanos numa gag impagável (Carlitos, que encontrara um pano vermelho que havia caído de um caminhão, corre atrás do veículo para devolvê-lo, mas se vê à frente de um grupo de operários em greve, agitando a bandeira vermelha), Chaplin precisou de muitos anos para poder entrar novamente na pátria da tolerância, embora nunca tivesse sido comunista. Ver a estátua dita da liberdade, só em cartões postais, meu caro. Não é para rir?

O que me espanta, entretanto, é essa vocação que o ser humano tem para ser apenas uma peça, uma coisa, um número. Vejo rapazes e moças bem vestidos, carregando no pescoço uma tabuleta com uma indicação semelhante à indicação dos móveis do escritório em que trabalham. E saem para almoçar todo pimpões, com aquela plaqueta ao pescoço, orgulhosos de sua condição de não-humanos. E é com aquela extensão de seu corpo que ele abre portas e catracas, tudo mecanicamente, como impõe o avanço tecnológico.

Pois há coisa pior do que isso. Recebo diariamente um monte de "mensagens". Que dizem elas? Nada. São anexos e mais anexos, contendo bobagens que nada me significam, pois ou são falsos textos do Veríssimo ou do Jabor, ou são fotos de lugares exóticos, ou são coisa pior. Até aí, pode parecer que aquilo foi enviado por alguma pessoa, meu conhecido ou minha conhecida, interessados em manter contato comigo. Que bom! Ingenuamente, eu aproveito a mensagem recebida e respondo de volta, indagando a respeito da saúde do remetente e dos seus familiares. Ele ou ela, na maioria dos casos, jamais me responde. Simplesmente, parece que esse tipo de contato está proibido na internet. O ser humano, como uma máquina, recebe e repassa blocos de informações neutras, impessoais, que, no limite, transformam um instrumento de comunicação num veículo que se utiliza dos seres humanos para fazerem circular inutilidades e mais inutilidades, num prazer auto-erótico, se eu puder assim dizer.

É o mesmo Carlitos saindo à rua, após o expediente, movendo o braço como se ainda tivesse na mão a chave de parafuso que havia usado o dia inteiro para fazer sempre o mesmo movimento, como se ainda apertasse parafusos invisíveis (clique aqui).

Recentemente, comentei com um desses meus conhecidos a respeito de certa mensagem que ele me havia enviado. Ele não sabia do que eu estava falando. "Sabe que por vezes eu passo adiante mensagens que recebo sem mesmo abri-las. Eu lá tenho tempo para isso?"

Como o Kubrick mostrou no filme 2001, no futuro próximo não será o computador que servirá o homem, mas o homem é que será escravo do computador. E esse futuro está ali adiante. Aliás, o computador do filme chamava-se, se estão lembrados, HAL. Por quê? Substitua cada letra do nome pela letra seguinte e descubra a sutileza do homem.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

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