Segunda-feira, 17 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Perdedor as baratas (Ao)

Fiquem sabendo que acabo de ganhar o prêmio acumulado da Sena. Minha primeira providência, acreditem, foi comprar o CD do Jorge Veiga, aquele do Etelvina! Acertei no milhar. Sempre é bom saber o que fez alguém que passou pela mesma experiência nossa.

O Jorge diz que comprou um bungalow no outeiro da Glória. Minha providência será ir, não à agência da Caixa, mas ao dicionário saber o que eu deverei comprar e onde. Bangalô? Que é isso? Ou pedir ao Abílio Neto que me informe, pois ele é chegado a essas músicas menos novas. Vou pensar nisso.

Segunda providência será mudar-me para um bairro mais tranquilo. O Morumbi, por exemplo. Com aquelas subidas e descidas, minha mulher vai adorar, logo agora que ela resolveu levar a sério aquelas caminhadas que o outro Jorge, o Mattar, vem insistindo com ela nos últimos anos. Vi um sobrado maravilhoso no alto de um daqueles morros. Já vejo a pobrezinha chegando a bufar, molhada em bicas, dizendo, com a maior dificuldade, "eu mato o Jorge". Culpa dele. Quem mandou ter esse sobrenome? Lá do alto teremos a grande vantagem de vermos uma enorme favela, que se derrama pela encosta abaixo. Ou acima, conforme sejam as convicções e o ponto de vista do sociólogo de plantão. Eu ficaria na sacada, exibindo minha riqueza e apontando com um dos dedos da mão direita para a nuvem que passa sobre a minha cabeça. Não sei se o mano lá embaixo vai entender o meu gesto poético. Mas, por cautela, estarei usando colete de malha de lorigão, tal como me aconselharia o Eça de Queiroz, à maneira dos guerreiros medievais. E atrás de um vidro de uns três ou quatro milímetros de espessura, preciso me certificar do poder de fogo dos meus vizinhos.

Na parte de baixo do quintal está o canil, onde dois belos rottweilers me olham com seus olhinhos lânguidos. O problema é que a minha esposa sofre de cinofobia. Se você sabe que um cinófobo não é quem tem medo do Joaquim Lavado, pai da imorredoura Mafalda, aquela menina argentina que conhece mais a história universal do que muito presidente da República, você sabe muito bem de quem eu estou falando. Ela não pode ver cachorro, nem que seja da raça daquele que o maestro Xavier Cugat carregava no bolso, enquanto sua orquestra tocava aqueles sambas marotos que faziam as delícias dos teus pais, caro leitor. Samba com bailarinos usando sombreros e roçando maracas. E tocava uns mambos que nem chegavam aos sapatos do Perez Prado, como lhe dirão seus pais. Vá ao YouTube e veja o que você perdeu.

Mas, como a minha consorte não suporta cachorros, terei de optar entre ela e eles. O sorriso deles e o dela me encantam, mas ela tem a vantagem de não babar pela borda dos beiços como os cães. Os olhos dela são maravilhosamente verdes, enquanto os olhos deles. Sabem que nunca tive coragem de chegar perto deles para ver a cor dos olhos? Eles balançam o rabinho quando me veem, enquanto que a minha esposa tudo o que me conseguia agitar era o rabo de cavalo, antes do corte que fez naquele coiffeur ali da place Pigalle, sabe quando a gente sai do Trocadero, passando pela Maison Gucci? Pois é bem ali.

Resolvido: vendo os cachorros e contrato um guarda-costas, como aquela amiga norte-americana, que mora sozinha ali mesmo no Morumbi, um casarão que vou te contar, com sala disto e mais daquilo, piscina de água fria, outra de água quente e acho que tem uma de água morna, não fui até lá. Você ali tomando sol ou uísque e lá vem o bonitão marchando por dentro da casa, vendo se não tem algum suspeito no telhado, dentro da água da piscina ou do chafariz que tem uma réplica do manequinho famoso. Em ouro, queridinho, em ouro, como diz ela. "O manequinho ou teu guarda-costas e guarda o resto?" Ela finge que não entende português.

Ela cobra em dólares. Coitadinha, com essa desvalorização!, e faz mapa anual, mapa mensal, mapa semanal e mapa diário. "Mas, com tanto mapa assim, você precisa de guarda-costas?" Você está sabendo que eu cobro US$ 40,00 por pergunta, não é? "Tudo isso?" digo eu. Com essa pergunta são mais US$ 40,00 na minha conta, pois meu computador está programado para identificar essa elevação da voz que vocês brasileiros colocam no final da frase interrogativa, diz ela com seu delicioso sotaque.

"O que eu queria dizer é que se você sabe que ali naquela esquina há um trombadinha à tua espera, segundo diz o teu mapa astral de hoje, seria mais lógico dispensar o dinheiro gasto com o guarda-costas e não sair de casa" esclareço, com um cuidado extremo para não acessar o computador. What a piece of shit like you knows about love? Hein? diz ela. "Quem, eu?", espanto-me. Mais US$ 40,00 dólares para a conta dela.

Acontece, meus caros telespectadores, que, tal qual como ocorre na música do Jorge Veiga, inventor do samba de breque, como lhes explicará o Abílio, acabo de ouvir algo como "como é que é? Não vai levantar hoje?" e minha casa do Morumbi voltou a ser um quarto num apartamento de classe média. Em lugar do mordomo, minha mulher abrindo a janela do nosso minúsculo quarto, aquele sol das dez horas batendo no meu rosto.

Dormir ouvindo esses discos da Revivendo acaba dando nisso.

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.