Quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Legehjelp

 

Dizem que os erros médicos são cobertos pela terra. Na Noruega isso não ocorre. Ali, tais erros são cobertos pela neve. O que sempre nos enche de coragem toda vez que precisamos ir a um consultório médico ou mesmo a um hospital de lá. Saber se alguém morreu de pneumonia dupla ou de mera pneumonia simples pode interessar a algum estatístico, não à família e aos amigos do morto. Menos ainda ao morto. Logo, não saindo vivo de uma cirurgia, que me transformem em cinza e façam dela um bom adubo para minhas orquídeas, eis meu último desejo. Pelo menos se lembrarão de mim cada vez que ela florir, sem terem o trabalho de ir até o cemitério conferir se ainda estou lá bem guardado.

É o que as pessoas geralmente fazem, pois levar flores para quem não pode cheirá-las é perda de tempo e de dinheiro. Igual aos japoneses, que levam arroz para o morto, que teima em permanecer deitado e sem apetite. E saber que ainda serei útil depois de morto me dá uma certa tranqüilidade que compensará eventual erro médico que me tenha tirado de cena antes do tempo previsto.

Aliás, os cemitérios da Noruega são tão simpáticos que não me parece que seus habitantes tenham do que reclamar. Eles não chegam a ser magníficos hotéis cinco estrelas, com espaço cultural e biblioteca circulante como os hospitais de lá, mesmo porque é discutível que os mortos queiram ler alguma coisa. Mas é até prazeroso visitar as campas, todas muito discretas, como convém à igualdade das caveiras que lá estão guardadas, pois não podemos esquecer que aquilo é uma sociedade socialista, uma espécie de Cuba, mas de primeira classe. E aquelas inscrições tão simpáticas, dizendo coisas que talvez faltou dizer em vida. E às vezes há uma igrejinha medieval ao lado, para fazermos nossas orações pelos que se foram.

Isso é algo que sempre me intriga: ou bem acreditamos que haja alma ou não acreditamos. Se acreditamos, sabemos que ela certamente não estará confinada às quatro paredes da sepultura. Se não acreditamos, sabemos que tudo o que há ali embaixo é um corpo em decomposição ou um esqueleto. Logo, para que ir ao cemitério?

Nos Estados Unidos, como é bastante sabido, o pavor de serem obrigados a pagar indenizações astronômicas tem afastado bons cirurgiões das salas de cirurgia. Eles preferem fazer pesquisa ou ministrar medicamentos do que correr o risco de serem chamados à Corte para explicar a morte do paciente ou algum dano sobrevindo da cirurgia. "O paciente queixa-se de que a cicatriz deixada no abdômen dele está um centímetro maior do que o necessário. E pede um milhão de dólares de indenização. O senhor é inocente ou culpado?" E tome acordo, patrocinado pela companhia de seguros, cujo prêmio o médico paga o ano todo.

Antes os médicos inventaram a alergia para diagnosticar tudo aquilo cuja causa desconheciam. Hoje falam em virose, um novo nome para a mesma ignorância. Em compensação, os advogados inventaram a palavra iatrogenia. Esta é utilizável contra os médicos. "Efeito secundário danoso ao paciente, decorrente da atividade médica" segundo qualquer dicionário médico. Previsível e evitável, segundo se diz na petição inicial. E tome pedido de indenização por dano moral.

Amigo meu que passeava nos States, sentiu-se mal e foi levado às pressas a um daqueles hospitais de nome famoso. Feito o diagnóstico, o médico indicou cirurgia de urgência. Meu amigo ficou apavorado, pois não conhecia o tal médico. Foi acalmado pela delicada esposa: "Veja o lado positivo da coisa, querido. Vamos imaginar que ele cometa um erro e você morra. Já imaginou o valor da indenização que eles vão me pagar?" Ele deve ter ficado muito feliz com essa possibilidade! Eu, acontecesse isso comigo, chamaria o escrivão e faria um testamento, deixando meus bens para o taxista que me levou ao hospital!

Os países latinos têm uma atração pela especialização, que consiste em alguém saber cada vez mais sobre cada vez menos, até o dia em que saberá praticamente tudo sobre praticamente nada, no dizer de um humorista, o nosso professor de Medicina Legal, o Almeidinha, lá vão alguns anos. E isso tem produzido situações curiosas, como a daquela senhora que, estando no banho preparando-se para ir a uma festa importante, deparou-se com um caroço no seio esquerdo. Terminou o banho, arrumou-se para a festa, mas a idéia de um câncer de mama não lhe saía da cabeça, o que foi percebido por uma amiga. "Ora", diz a tal amiga, "tenho um cancerologista extraordinário, ali na Avenida Paulista. Vá ao consultório dele no prédio número 47 e fale com o doutor Xavier". No dia seguinte, a ainda nervosa senhora lá se foi para a Paulista, mas seu estado de ânimo a fez confundir-se e entrou no prédio número 74, onde funcionava um escritório de advocacia, talvez o do Approbato Machado, insigne corinthiano e juiz desportivo. A aflita mulher foi-se logo dirigindo à secretária: "Eu tenho um câncer no seio esquerdo e quero um doutor que me atenda com urgência". A secretária, sem entender nada, foi logo dizendo: "Mas a senhora está enganada. O doutor Approbato é especialista em Direito". E a mulher, surpresa: "Mas isso é especialização demasiada!"

Tal situação certamente jamais ocorreria na Noruega, onde os médicos têm uma visão holística do organismo humano. É como mecânico de automóvel: ou entende de tudo ou não nos serve. Modestamente, um desses mecânicos, num país da América do Sul, colocou uma placa na frente da oficina: "Especializado em carros nacionais e importados". Ou seja, especializado em tudo, como muitos médicos noruegueses.

Imagine a cena: alguém chega ao consultório do médico, que eles chamam de lege, e informa: "Doutor, eu senti uma vertigem, caí sobre o braço, que se partiu, e, com isso, perdi o apetite." Fosse no Brasil, seriam três, pelo menos, os médicos a serem consultados: o tomografista, para verificar a origem da vertigem, talvez um tumor no cérebro; o radiologista, para ver se a lesão no braço não seria uma fratura cominutiva; e o nutricionista, para elaborar uma dieta alimentar para o paciente readquirir o prazer de comer. Além do clínico geral que atendera inicialmente o paciente, é claro. Sendo na Noruega, a secretária do médico retira sangue de teu braço, faz os exames ali mesmo, na salinha contígua, e ele, em seguida, diagnostica, pelo exame de sangue, que a vertigem foi devida à brusca mudança do tempo, o braço deve ser engessado e o paciente deve tomar óleo de fígado de bacalhau para suprir as deficiências alimentares decorrentes da inapetência. "E volte daqui a três meses."

Em outros países, a coleta de material para exame é feita no laboratório, com toda assepsia possível. Imagino-me indo fazer um exame de urina aqui no Brasil e sendo orientado pela enfermeira. "Com este gaze úmido o senhor lava o seu como-direi? Com este outro, seco, o senhor enxuga o como-direi? e colhe o material com todo cuidado para não haver contaminação. Depois de colhido o material, o senhor o coloca neste frasco sem tocar na parte interna, pois ele está esterilizado. Depois, o senhor fecha o frasco com esta tampa, tomando cuidado para não tocar na parte interna, porque ela também está esterilizada. Feito isso, o senhor me traz o frasco fechado para fazermos o exame".

Já na Noruega o procedimento é diferente. "O senhor compra na farmácia um frasquinho, urina dentro e me traz tudo aqui". Eu compro o tal frasquinho, abro, colho o material, fecho o frasquinho e levo ao consultório. Ali mesmo o material é examinado e se conclui que eu tenho sabonete na urina. "Se o senhor me disser a marca do sabonete talvez eu confira se não seria aquele com que lavei a mão antes de iniciar o tal procedimento. Vai ver não enxagüei devidamente o como-direi."

Imagino como deve ser uma curetagem. Ou uma operação cardíaca. Nesta, talvez o cirurgião abra o peito do paciente, retira o órgão a ser operado e pede ao próprio paciente: "O senhor segure um instante enquanto eu pego a tesoura". Essa integração entre paciente e médico é muito valiosa para a recuperação do operado. Feita a cirurgia e costurado o peito do paciente, uma surpresa. "Doutor, que faço com este pedaço de safena que o senhor me pediu para segurar?" "Xii! Vai ver que eu usei o caninho plástico da bolsa d'água destilada para fazer a ponte cardíaca!"

Legehjelp: tratamento médico, em norueguês

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* Adauto Suannes desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.

Lançamento


Uma sequência de histórias de ácida criticidade é o que apresenta Adauto Suannes em sua mais nova obra. O realismo e o bom-humor característicos do autor também se fazem presentes em cada um dos 28 capítulos de "Menas Verdades – causos forenses ou quase".

Como pontua o jornalista Juca Kfouri na apresentação do livro, os casos contados são deliciosos e exemplares, tanto para o bem quanto para o mal.

E, em cada linha, o autor transpira personalidade, seja na fluida linguagem, seja na criativa construção da narrativa: garantias de uma prazerosa leitura.

Cada exemplar da obra custa apenas R$ 35,00.