Domingo, 16 de dezembro de 2018

ISSN 1983-392X

Conversa Constitucional

por Saul Tourinho Leal

Shimon Peres: do kibutz para a história

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Foi publicada pouco antes do seu falecimento, que se deu em setembro de 2016, a autobiografia do líder israelense Shimon Peres, cuja tradução livre é "Sem espaço para sonhos pequenos". O subtítulo não deixa de ser uma descrição da personalidade do biografado: "Coragem, imaginação e a construção de uma Israel moderna". Coube à Weidenfeld & Nicolson, da Grã-Bretanha, a publicação. Vale cada página.

Tudo na obra é real, profundo e dotado de uma força poderosa capaz de nos chacoalhar. A começar pela dedicatória: "Para a próxima geração de líderes, em Israel e ao redor do mundo". De líder para líderes. Fala com a autoridade de 70 anos de uma vida pública repleta dos mais delicados desafios, a começar por ajudar a fundar um país que receberia as vítimas do Holocausto e do anti-semitismo espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Coisa de gente grande.

Shimon Peres faz parte de uma geração de ouro que criou o Estado de Israel nos moldes contemporâneos. Sua trajetória foi construída a partir de um alinhamento irrepetível dos astros. As guerras que enfrentou não o isentaram de cicatrizes, mas Shimon morreu coberto de glória porque foi, antes de tudo, um sobrevivente e, no espelho de sua caminhada, muitos judeus veem a si mesmo.

Nascido em Vishneva, em 2 de agosto de 1923, na fronteira entre a Polônia e a Rússia, o líder descreve sua vila como "um pedaço de terra, cercado por uma floresta e constantemente imerso no inverno". Uma geografia fria recebeu uma alma de fogo.

É a partir dessa deixa que recorda a imagem de quando era um garoto precoce de 11 anos. Levado até a casa de um amigo da família que acabara de regressar de Jaffa, em Israel, Shimon viu o senhor abrindo caixas para mostrar – num ritual que se repetia a cada ida ao país – os tesouros que trazia da Terra Sagrada: laranjas.

"Eu segurei a laranja sobre a ponta do meu nariz, sentindo pela primeira vez o perfume das frutas cítricas. Era verdadeiramente extraordinário – em cor, em fragrância, em sabor. Muito mais do que um pedaço de fruta, era o símbolo das minhas aspirações e esperanças". A vida não mais do garoto, mas do grande Shimon Peres, se inicia.

Shimon cita Theodor Herzl, o fundador do Zionismo, que defendia que a existência do povo judeu dependia da constituição de um Estado judeu, unido não somente pela religião, mas também pela língua e pela nacionalidade. "Deixem eles nos darem soberania sobre um pedaço de chão na Terra, apenas o suficiente para as necessidades da nossa gente. Nós faremos o resto", repetia Herzl, numa profecia que se realizaria depois, como todos podem ver.

Filho de Sara Meltzer, uma bibliotecária, Shimon lembra do amor e amizade que nutria pela mãe. "Havia apenas uma coisa na vida que me trazia mais alegria do que ler, era a alegria de estar na companhia dela". A conexão que tinha com os livros aparece muitas vezes na autobiografia: "Eu cresci para me tornar um homem dos livros, mas eu comecei como um garoto dos livros, lendo ao lado da minha mãe". Em seguida, arremata: "Eu amava os livros com grande fervor e interesse". Ele entregou o seu coração para os livros e estes o conduziram para os mais honrosos palcos da geopolítica global.

Além dos livros, um outro ingrediente forjou aquele jovem garoto num homem repleto de imaginação. Era a liberdade. "Meus pais me criaram sem muitos limites ou fronteiras, jamais me dizendo o que fazer, sempre confiando que a minha curiosidade me levaria ao caminho certo", anota. Para quem não sabe, Shimon era poeta e chegou a escrever letras de músicas, uma delas, inclusive, cantada por Andrea Bocelli.

Shimon Peres lembra que, muito jovem, fazia discursos para adultos sobre a natureza do Zionismo ou quanto às virtudes dos seus escritores preferidos. Mas todo jovem que se entrega com amor ao que é incomum à sua idade, paga um preço.

"Para os adultos, isso me fazia um garoto precoce com um futuro brilhante pela frente. Para mim, me fazia sentir que eu estava no começo de algo maior. Mas para os meus colegas de escola, isso me tornou um estranho, aquele que claramente não gostava dos outros colegas", desabafa. Natural. Aquele que ouvir com sensibilidade e sabedoria o chamado de sua própria vocação encontrará, em quem não ouviu tal convocação, resistência e incompreensão. Shimon aprendeu a lição. Fechou os ouvidos para a barulheira cética, abriu os olhos para o que realmente importava e seguiu adiante.

No começo da década de 1930, o negócio do seu pai, Yitzhak Perski, foi destruído pela majoração abusiva e proposital de impostos contra os negócios de judeus. O pai faliu e toda a família sentiu o fardo pesado do anti-semitismo. Era apenas o começo.

Outra figura central em sua vida foi seu avô, o Rabino Zvi Meltzer. Shimon lembra que, no Yom Kipur, o importantíssimo Dia do Perdão judaico, ele se deliciava ouvindo o avô cantar. Certo dia, olhando para o neto, o avô pediu: "Prometa-me que você será sempre um judeu". Shimon respondeu: "Eu prometo, Zaydeh". Fê-lo com uma fé infinita, celebrando um compromisso que jamais seria quebrado.

As lembranças carinhosas de um avô que lhe servia de inspiração genuína, contudo, foram irreversivelmente feridas pelo mal absoluto.

Zvi Meltzer morreu em Visheva. Os Nazistas marcharam pela floresta e entraram na pacata vila anos depois que Shimon partiu para Israel, ao tempo, o Mandato Britânico da Palestina. O Rabino foi colocado dentro da modesta sinagoga de madeira, junto com quase toda a congregação. Os Nazistas fecharam as portas e atearam fogo. Enquanto as labaredas engoliam o local, seu avô cantava, repetindo a mesma oração que encantava o pequeno Shimon durante o Yom Kipur. "Foi o último momento de uma dignidade estóica antes que o fogo roubasse suas palavras, sua respiração e sua vida, ao lado dos outros membros da nossa congregação". Perdeu a vida. Ganhou a dignidade.

A obra prossegue retratando com imagens que tocam os nossos olhos inúmeros episódios da vida de um homem que viveu a verdade percorrendo o caminho.

Recorda, por exemplo, que na busca do sonho Zionista, os pioneiros em Israel tentaram construir uma nova forma de sociedade, erguida sobre igualdade e cooperação, justiça e equanimidade, propriedade coletiva e vida em comunidade. O laboratório primeiro de todo esse ideal era o kibutz. "O kibutz era o lugar que transformava crianças em líderes", resume Shimon. Líderes. De verdade.

Tendo passando pela monumental Tel Aviv, foi no kibutz Ben-Shemen que Shimon se encontrou. "Em Tel Aviv eu era um estranho. Em Ben-Shemen, eu era um garoto popular".

Durante o seu segundo verão em Ben-Shemen, ele se juntou ao movimento "HaNoar HaOved" ou Juventude Trabalhadora – que o elegeu delegado para a convenção nacional. "Eu fui avisado de que detinha uma habilidade que os outros achavam poderosa: a habilidade de persuadir".

Em maio de 1947, já sabendo da iminente declaração de independência e fundação do Estado de Israel, o pai-fundador, Ben-Gurion, que se tornaria o primeiro-ministro do país, enviou uma correspondência para Shimon Peres exortando-o a servir o exército judeu clandestino Haganah, que posteriormente se tornaria a Israel Defense Force (IDF). "O que eu devo fazer?", perguntou Shimon, depois de ter aceito o desafio, no que Ben-Gurion responde: "Simples. Ache as armas para nós o mais rápido que possa".

Sabia-se que um general havia abandonado o posto de chefe do staff, então preenchido por Shimon. "Eu não desejo ser chefe do staff por seis dias", deixara registrado, num pedaço de papel, o General, desapontado.

Preocupado com o tamanho do desafio, Shimon Peres pergunta ao colega que o recebeu a razão da desistência do General. "Foi o estoque de balas. Tínhamos seis milhões". No que Shimon comenta, inocente: "Parece um monte". É quando o colega mostra que por trás de cada convite honroso há uma responsabilidade monumental: "Quando a guerra começar, precisaremos de um milhão de balas por dia. Não é um emprego fácil". Ao ouvir o colega, Shimon divide o seu sentimento: "Eu podia ouvir meu avô dizendo: 'Seja sempre um judeu'". E ele foi. Até o fim.

"Ele não mente. Não fica falando mal das pessoas por aí. E quando bate a minha porta, normalmente traz uma nova ideia". Foi essa a resposta que Ben-Gurion deu a uma pessoa que lhe perguntou a razão da confiança inabalável em Shimon.

A nova realidade de Shimon Peres, que sequer trinta anos tinha, o impactou. "Eu deixei de tirar leite de vaca no kibutz para construir amizade com negociantes de armas e montar parcerias com contrabandistas de armamentos. Assumi missões secretas com passaportes falsos, trabalhando nas sombras para adquirir o máximo que eu pudesse".

Em seis meses ele tinha conseguido armamento suficiente para enfrentar a guerra.

A criação do Estado de Israel pela ONU não se deu sem a gratidão de Shimon por um brasileiro. "Nós podíamos ouvir Oswaldo Aranha, o presidente da Assembleia Geral, chamando para a votação da resolução. Nós ouvíamos com toda a atenção, ao lado de comunidades judaicas de todo o mundo"1.

Após a aprovação da Resolução, abrindo espaço normativo no Direito Internacional para a criação do Estado de Israel, Ben-Gurion acelerou a declaração de independência. "Cantaram espontaneamente Hatikvah, o hino Zionista que havia sido banido pelos britânicos". Na tarde de 14 de maio de 1948, horas antes do Shabbat, no Museu de Arte de Tel Aviv, a independência foi formalmente anunciada.

Shimon Peres enfrentou, em seguida, uma guerra iniciada pelos vizinhos árabes. Mesmo assim, viu ali a chance de estabelecer uma relação de confiança com quem esteve ao seu lado naquela sangrenta batalha. "Os laços formados durante tempos de crise são normalmente fortes". Foi vitorioso em seus imensos desafios porque soube constituir bons times de trabalho, valorizá-los e deixá-los saber que eles jamais seriam abandonados no meio do caminho. Funcionou.

Na primavera de 1949, com a independência assegurada, Shimon Peres entendeu que era hora de superar algo que o afligia: a falta de formação acadêmica de qualidade. Ele sabia que, nos mares que ambicionava navegar – e já navegava –, era preciso densidade intelectual formal. Decidiu fazer o dever de casa.

"Eu procurei Ben-Gurion e expliquei as minhas preocupações. Eu queria ir para Nova Iorque terminar a minha educação e ao mesmo tempo representar Israel como integrante do Ministério da Defesa israelense nos Estados Unidos". Em 14 de junho de 1949, a esposa Sonia, a filha Tsvia e Shimon partiram. Ele não falava uma única palavra em inglês.

Como muita gente vivia no apartamento onde eles moravam, deram-no o nome de Kibutz. Shimon assistia aulas na New School for Social Research, um centro de excelência onde lecionavam personagens como Felix Frankfurther e Hannah Arendt.

Shimon Peres era um homem de ação. Mas, ao mesmo tempo, guiado por uma privilegiada imaginação. Razão e sentimento. Realidade e utopia. Veio dessa combinação poderosa os elementos que dotaram o jovem garoto do kibutz da capacidade de se projetar rumo aos mais elevados acontecimentos históricos do seu tempo. "Eu aprendi sobre a virtude da imaginação e o poder de um processo decisório criativo".

Num desses lampejos de criatividade, ele anteviu a necessidade de Israel ter uma indústria de aviação moderna e globalmente competitiva. Ao levar a ideia a potenciais investidores, ouviu que Israel não conseguia fazer direito sequer bicicletas, imagine aviões. 'Eles estavam convencidos que o mundo olharia com olhos céticos para qualquer produto 'made in Israel'", anotou. "Mas eu sabia que nós jamais alcançaríamos grandes feitos se deixássemos a austeridade ser um obstáculo para a audácia". Para Shimon, "o medo de assumir riscos pode ser o maior risco de todos".

Ele liderou uma frutífera aproximação com a França. Chegou ao país sem nada. Saiu com acordos celebrados que dotariam Israel de extraordinária capacidade de competir globalmente em fronteiras relevantes como a da aviação. Em algum tempo, já falava francês. O jovem que tirava leite de vacas se tornou um poliglota sofisticado.

Ele esteve à frente da fantástica e bem-sucedida operação de resgate de judeus feitos reféns por militantes revolucionários que queriam a libertação de terroristas em diversos lugares do mundo. Em 27 de junho de 1976, os militantes sequestraram um Airbus A300 da Air France, que fazia a ligação Tel Aviv-Paris, com escala em Atenas (Grécia), levando 258 pessoas a bordo. A aeronave terminou em Entebbe, Uganda.

Uma das reféns, sobrevivente do Holocausto, entrou em colapso nervoso ao, mais uma vez, se ver diante de alemães armados gritando em alemão contra a vida de judeus. Os sequestradores passaram a separar judeus e não-judeus para decidir quem matariam. Quando Shimon soube, decidiu que não haveria negociação. Era hora de agir. E agiu.

Numa operação cinematográfica, todos os reféns, exceto um - morto acidentalmente -, voltaram salvos para casa. O tenente-coronel Yonatan Netanyahu (irmão do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu) morreu em combate. Nenhum terrorista presente escapou. Há tempos de guerra e tempos de paz. Nos de guerra, Shimon ganhou. Nos de paz, também.

Já idoso, decidiu empenhar os seus esforços na ideia de construir uma nação start-up. "Nós criamos um sistema onde os investidores vinham até nós esperando um pioneirismo tecnológico. Para mantê-los vindo, tínhamos de estar na mais longínqua fronteira da ciência. Não era suficiente estar atualizados. Precisávamos ser o amanhã".

Incansável, apostou no futuro mais uma vez. "Nanoteclologia não era destrutiva, mas construtiva – realinhando átomos para produzir novos materiais e novas formas de armazenar e gerar energia. Lembrava-me Israel: de algum modo, tão pequeno, mas com um poder milagroso".

A história de Shimon Peres se confunde com a própria história de Israel. "Eu vi o povo judeu lutar por um pequeno pedaço de terra no deserto, então, transformá-lo num país que ultrapassou os nossos mais grandiosos sonhos".

Terminando como começou, Shimon deixa uma mensagem imortal: "Você precisa de uma geração que busque a liderança como uma causa nobre, definida não pela ambição pessoal, mas pela moralidade e um chamamento para missões". E mais. "Nós precisamos de líderes que acreditem que o mundo pode ser mudado não por assassinatos ou tiros, mas pela criatividade e competição, líderes que prefiram ser controversos pelas razões certas do que populares pelas erradas, líderes que usem sua imaginação mais do que sua memória".

Em 13 de setembro de 2016, Shimon Peres esteve com milhares de empreendedores de todo o mundo. Ele os encorajou a investir nas tecnologias israelenses. Quando o dia acabou, foi para o hospital. Dia 28 de setembro, aos 93 anos, faleceu. Na primeira reunião que fez após o falecimento, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, comentou: "Hoje é o primeiro dia do Estado de Israel sem Shimon Peres".

Partiu o homem que um dia, garoto, sentiu o perfume de uma laranja pela primeira vez e tirou dali a inspiração que precisava para, de um pedaço do deserto no Oriente Médio, construir os mais grandiosos sonhos de prosperidade, reconstrução e triunfo.

Nobel da Paz, Primeiro-ministro, Presidente, Ministro de diversas pastas, membro do Knesset – o Parlamento Israelense -, Shimon Peres viveu uma vida de desafios, mas superou todos eles, com trabalho e, acima de tudo, imaginação.

Ele foi fiel à promessa que fez ao avô. "Eu serei sempre um judeu". É um exemplo. Começou no kibutz. Terminou na história. Mostra que, onde quer que comecemos, ponto de partida algum é capaz de nos impedir de chegarmos o mais longe que desejarmos. Isso porque, como Shimon Peres, podemos ser a realização dos sonhos mais elevados dos nossos ancestrais. Temos apenas que dar o primeiro passo. E não parar mais.

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1 Essa semana, depois de ler o livro que serviu a essa coluna, num café em Jerusalém, passei, voltando para casa, no centro da cidade, pela Praça Oswaldo Aranha. Senti-me orgulhoso por ser brasileiro.
Saul Tourinho Leal

Saul Tourinho Leal é advogado em Brasília e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP. Foi premiado com a bolsa Vice-Chancellor Fellowship pela Universidade de Pretória, para realizar estudos de pós-doutoramento junto ao ICLA, Institute of Comparative Law in Africa. Saul foi clerk do juiz Edwin Cameron, na Corte Constitucional sul-africana e presidiu o Comitê para Relações com a África do Sul, do Conselho Federal da OAB, que lhe outorgou o Troféu de Mérito da Advocacia Raymundo Faoro. É tradutor das obras do jurista Albie Sachs, indicado por Nelson Mandela para a Corte Constitucional.