Quinta-feira, 18 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Decifra$

por Francisco Petros

O samba do Estado Louco e a utopia necessária

terça-feira, 31 de março de 2015

O carnaval de fato ultrapassou a quaresma e o samba continua a tocar. Destaca-se a nota alta do zabumba dos escândalos nacionais. A política continua a evoluir na avenida ao som do "samba do Estado louco", enredo conhecido no Brasil, mas agora se trata de algo sem registro histórico equivalente em forma e intensidade. A nota de "evolução" da Escola de Samba chamada Brasil é sofrível para os que esperam um país melhor.

A crise política brasileira jogará para baixo o PIB brasileiro entre 1% e 2% além do que a "lógica" econômica sugeriria. Como sempre afirmei neste espaço a situação da economia brasileira é delicada, mas não é calamitosa. Não fosse assim teria sido diferente a avaliação da agência classificadora de riscos Standard & Poor's, aquela que manteve o grau de investimento do país.

Os ajustes econômicos (fiscais e monetários) promovidos pelo governo são, no seu conjunto, necessários, mas não suficientes para promover o desenvolvimento nacional. Tenta corrigir o governo os erros grosseiros de política econômica no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Deve conseguir o intento, já na questão de fundo do desenvolvimento...

Afora o ajuste das contas públicas, entre 1% e 1,2% do PIB, algo como R$ 130 bilhões, o "a esência serviço" parece concretizado restando a espera: a taxa de juros mais alta conterá a inflação por meio da redução da demanda e o câmbio depreciado está contendo os enormes déficits de transações correntes dos anos passados. Será uma espera longa, entre 10 e 15 meses a partir de agora. Talvez mais se os políticos se empenharem na sua tarefa de cuidar apenas de si próprios.

Quanto ao ajuste fiscal, este se tornou "brincadeira" liderada pelos investigados pelo MPF Renan Calheiros e Eduardo Cunha, os quais alguns setores sociais e da mídia tentam imputar-lhes a imagem de “políticos do momento”. As contrapropostas aos ajustes econômicos dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e de alguns outros visam desarmar o governo já fraco e dar umas mordidas na Viúva para aliciar seus apaniguados em Alagoas, no Rio de Janeiro e outros tantos lugares.

O governo faz por merecer tantos atropelos. A presidente Dilma Rousseff ainda não conseguiu dar mínimo sentido e rumo à administração federal. Recusa-se, inclusive, a convocar a nação para explicar suas políticas. Com o cheiro de "estelionato" eleitoral no ar, a presidente está refém não apenas de seus presumidos aliados, mas de si mesma – quando sai de seu palácio é desastre atrás de desastre. Veja-se a inexplicável nomeação de seu tesoureiro de campanha para liderar a comunicação do governo, ali do ladinho da sala presidencial, no Palácio do Planalto. Realmente...

Enquanto isso, as empresas se convencem de que a recessão vem aí. Resultado: nas rodas de empresários da FIESP e das associações ligadas a setores econômicos relevantes o que se ouve diz respeito a cortes de pessoal e custos e adiamento de investimentos quando não cancelamento. Os empresários mais jovens, pouco antes de irem se bronzear no que resta do sol de verão no sudeste, ameaçam "ir embora do país". Já as multidões das passeatas ficaram felizes com suas demonstrações, mas a pauta de reivindicações / soluções / propostas / ou "seja lá o que for" permanece trancada na gaveta de algum cidadão sem nenhuma veiculação. É incrível como se acredita que é possível fazer política sem programa e sem liderança. Risível não fosse trágico. Se alguém não sabia o que era niilismo, agora pode se esbaldar de conhecimento. Basta dar uma voltinha na Av. Paulista em meio às manifestações populares.

Creio que falta à sociedade brasileira certa capacidade de produzir utopias que possam romper com a realidade presente de descaso e/ou desinteresse para com os destinos do país. Há os que temem que o país caminhe para as trilhas perigosas de um governo bolivariano. Parece-me erro grosseiro fazer uma avaliação desta cepa. Isso porque imagina-se algo ativo e com sentido ideológico. O que se vê é apatia em relação à política enquanto o país tropeça em vazios imensos que são preenchidos por segmentos cujos interesses são inconfessáveis. A corrupção é uma destas manifestações da anomia social representada pela ausência de soluções sérias, construtivas e modernizantes. O conjunto de escândalos divulgados na mídia demonstram isso. Semana passada tivemos as revelações de como funciona o CARF, o tal conselho dos contribuintes para se defender de eventuais injustiças cometidas pelo fisco. O que se vê é que a mistura entre o público e o privado persiste cheia de nuances bem particulares e problemas, entre os quais a vasta corrupção.

O Brasil precisa mesmo de utopias para romper com este aparente "destino" de ser o eterno país do futuro. Se misturarmos a esperança utópica ao necessário realismo econômico, estaremos a mudar o atual caminho do "samba do Estado louco". Ou, na linguagem cifrada do ministro Joaquim Levy, estaremos sendo mais "efetivos" contra a "genuína" vontade nacional de deixar tudo como está para ver como é que fica.

Francisco Petros

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).