Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Arguir – Como fica sem o trema?

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

dúvida do leitor

O leitor Conrado de Paulo envia a seguinte mensagem para a seção Gramatigalhas:

"Caro Prof. José Maria: na frase 'Como argui bem, não', a arguição foi de quem? Minha, ou de uma terceira pessoa? O verbo está no tempo presente, ou no tempo passado? Deixando o contexto de lado..."

envie sua dúvida

1) Um leitor parte da seguinte frase: "Como argui bem, não?" E aduz que, com a eliminação do trema e do acento que direcionavam determinados aspectos da conjugação desse verbo, levada a efeito pelo Acordo Ortográfico de 2008, não mais se sabe de quem foi a arguição: a) se minha no passado, b) ou de terceira pessoa no presente. E pergunta como resolver, sem que se precise recorrer ao contexto.

2) Ora, quanto à pronúncia e à grafia desse verbo, um primeiro ponto precisa ser observado: o u soa em todas as formas, seja átona ou tônica a referida vogal.

3) Também um segundo aspecto carece de realce: o trema, que era empregado sobre o u, quando átono, foi abolido pelo Acordo Ortográfico de 2008 (arguimos, arguistes e arguiram, e não mais argüimos, argüistes, argüiram).

4) Por fim, um terceiro item exige anotação específica: o acento agudo, que era usado nas formas rizotônicas seguidas de e ou de i, também foi abolido pelo mesmo acordo (arguis, argui e arguem, e não mais argúis, argúi e argúem).

5) Com isso se confirma a base de onde partiu o leitor para sua dúvida, no que concerne à existência de pronúncias e tempos diversos, mas de forma gráfica idêntica: a) "Como eu argui (üí) bem no debate que ontem tivemos!"; b) "Como ele argui (úi) bem nos debates de que agora participa!"

6) E, assim, forçoso é dar-lhe inteira razão: quando se diz Como argui bem, não?, não se sabe se: a) eu debati ontem, b) ou se ele está debatendo agora.

7) É que, com a eliminação do trema no primeiro caso (argüi) e do acento agudo no segundo (argúi), o Acordo Ortográfico acabou por criar uma possibilidade de confusão, já que duas pronúncias diferentes e tempos diversos de um mesmo verbo acabam por corresponder a uma só e mesma escrita.

8) A solução, assim, será verificar a existência de outras palavras ou elementos indicadores no contexto, pelos quais se possa identificar em que tempo e pessoa está o verbo. E, se o contexto não ajudar, ou o leitor não quiser valer-se do contexto, não há como realmente saber.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.