Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

BRICS – Singular ou plural?

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

dúvida do leitor

O leitor Roger Artur Buratto envia a seguinte dúvida ao Gramatigalhas:

"Tenho visto a imprensa em geral tratar o grupo denominado BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) no plural, como se o 's' fosse indicativo de número. Do mesmo modo, tratam os seus componentes como os BRICS. Entendo que não há razão para isso, pois BRICS é uma sigla, e não uma pluralização de algo, e seus componentes não são BRICS, mas meros componentes do BRICS. Imagino como seria se o tratamento se a South Africa não fizesse parte da entidade. Mudaria? Por quê?"

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1) Um leitor indaga se BRICS é singular ou plural e como se deve fazer a concordância com ele.

2) Em 2001, o economista inglês Jim O’Neill cunhou a sigla BRIC para indicar um bloco econômico que seria representado por Brasil, Rússia, Índia e China, conceito esse que somente em 2006 viria a dar origem a um efetivo agrupamento de políticas externas desses quatro países. Em 2011, formalmente convidada, a África do Sul passou a fazer parte do grupo, oportunidade em que o S (de South Africa – seu nome em inglês) passou a integrar a sigla em seu formato atual (BRICS).

3) Num primeiro aspecto introdutório, importa observar que, tecnicamente, BRICS é um acrônimo, vale dizer, é uma nova palavra formada pela inicial de cada um de seus países integrantes (Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa).

4) Num segundo aspecto, realce-se que o s significa a presença da África do Sul, de modo que ele não é um indicador de pluralização, e, assim, não se deve grafá-lo com letra minúscula, como fazem alguns (BRICs), e sim com maiúscula (BRICS).

5) Uma cuidadosa análise de seu uso mostra dois significados bem distintos em que a palavra BRICS é empregada: a) às vezes, para indicar o bloco em consideração conjunta e atuação como um todo; b) outras vezes, no sentido da individualidade de cada um de seus países, embora considerados como partes do bloco.

6) Ora, quando se quer pôr em relevo o sentido de bloco e de consideração e atuação conjunta, a harmonização dos termos em concordância (verbo, artigo, adjetivo, etc.) se faz no singular: a) "O que faz o BRICS?"; b) "Desde sua criação, o BRICS tem expandido suas atividades"; c) "O BRICS defende a reforma das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança"; d) "... VI Cúpula do BRICS..."; e) "... entre as vertentes mais promissoras do BRICS..."; f) "... membros do BRICS..."; g) "... a coordenação política entre os membros do BRICS..."; h) "O BRICS está aberto à cooperação e ao engajamento"; i) "Este é o histórico do BRICS"; j) "O BRICS passou a constituir uma nova entidade político-diplomática"; k) "Foram aprofundados os dois pilares de atuação do BRICS"; l) "... primeiro ciclo de Cúpulas do BRICS..."; m) "... estabelecimento do Conselho Empresarial do BRICS..."; n) "... garantias às exportações do BRICS..."; o) "Os mandatários do BRICS encontraram-se com lideranças africanas...".

7) Já quando se quer destacar a individualidade de seus países integrantes, mas sempre na acepção de partícipes do bloco, a concordância dos termos referentes ao mencionado acrônimo se faz no plural: a) "... com relação à coordenação dos BRICS em foros e organismos internacionais..."; b) "Os BRICS aprofundam seu diálogo sobre as principais questões da agenda internacional"; c) "Desde 2009, os Chefes de Estado e de Governo dos BRICS procuram uma saída para esse desafio"; d) "... os Bancos de Desenvolvimento dos BRICS...".


8) Em síntese, respondendo de modo mais direto à indagação do leitor, pode-se dizer: a) BRICS é um acrônimo que às vezes representa o bloco em sua atuação conjunta, e outras vezes quer significar a presença individualizada de cada qual desses integrantes, mas sempre em relação ao todo formado pelo bloco; b) se o que se quer é destacar a atuação do bloco, então se faz a concordância do verbo e dos outros termos relacionados a tal palavra no singular; c) já quando se quer pôr em relevo a atuação de cada país, embora no contexto do bloco, então se faz a concordância do verbo e desses outros termos no plural; d) e ambas as concordâncias são sintaticamente corretas, de modo que a distinção fica para o plano do conteúdo semântico.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.