Sábado, 7 de dezembro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Que concorre ou A que concorre?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

dúvida do leitor

O leitor A. Cerviño, de São Paulo, envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas :

"Deu no Migalhas: 'Clique aqui e confira as obras que você pode concorrer'. Será que o prof. José Maria da Costa aprovaria essa regência verbal ?"

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Que concorre ou A que concorre?

1) Um leitor indaga, em suma, se está correta a seguinte frase: "Clique aqui e confira as obras que você pode concorrer".

2) O problema todo reside na expressão que você pode concorrer, onde o que é pronome relativo (e, assim, pode ser substituído por quais).

3) Ora, se, como no caso, funciona como complemento, o pronome relativo depende totalmente da regência do verbo ao qual se liga.

4) Assim, se vai ou não haver preposição antes do pronome, ou qual vai ser essa preposição, tudo depende do verbo que está sendo completado por ele.

5) Vejam-se os seguintes exemplos: a) "Editou-se uma lei em que acreditamos, com que simpatizamos e por que lutamos" (assim se diz, porque o correto é acreditar em, simpatizar com e lutar por); b) "Fazer da aplicação da lei a arte de distribuir justiça é o ideal a que aspiramos, com que simpatizamos e em que nos comprazemos" (e isso porque se diz aspirar a, simpatizar com e comprazer-se em).

6) Sobre esse assunto, assim é a lição de Sousa e Silva: "Nas orações adjetivas cujo pronome relativo não funcione como sujeito, se o verbo exigir alguma preposição, coloca-se esta antes do relativo". Exs.: a) "Atualmente, os meios de que dispomos..."; b) "Fui traído pelos amigos em quem mais confiava"; c) "... em relação àquele a quem devia respeito e admiração"; d) "É um monumento de que todos os brasileiros se orgulham" (dispor de, confiar em, dever respeito e admiração a, orgular-se de).

7) Num segundo aspecto, lembra o mesmo autor que, "se o relativo for o adjetivo (atualmente pronome adjetivo) cujo, a construção gramatical é idêntica". Ex.: "... eram R S e um pretinho de cujo nome não se lembra" (lembrar-se de).1

8) Com essas observações, de modo específico para o caso da consulta, anota-se que quem concorre, concorre a. Se há um auxiliar, não varia a regência do verbo: quem pode concorrer, pode concorrer a.

9) Desse raciocínio, conclui-se que procede a dúvida do leitor, conforme se nota pela seguinte especificação: I) "Clique aqui e confira as obras que você pode concorrer" (errado); II) "Clique aqui e confira as obras a que você pode concorrer" (correto).

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1 Cf. SILVA, A. M. de Sousa e. Dificuldades Sintáticas e Flexionais. Rio de Janeiro: Organizações Simões Editora, 1958, p. 230-233.

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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.