Sábado, 24 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

À baila

quarta-feira, 20 de abril de 2005

dúvida do leitor

A leitora Amália Freitas, advogada do escritório José Pascoal Pires Maciel Advogados Associados, envia a seguinte mensagem ao autor de Gramatigalhas:

"Recentemente, na leitura de algumas sentenças e acórdãos, pude notar a concorrência das expressões "trazer à baila", "trazer à balha" e "trazer à bailha". Pelo que andei pesquisando, aparentemente todas as expressões são corretas, mas não tive minha dúvida solucionada, razão pela qual gostaria que fosse esclarecida pelo Prof. Dr. José Maria da Costa, apresentando, se possível, as origens da expressão e seu primitivo significado."

envie sua dúvida

1) Mário Barreto emprega à balha sem problema algum ou explicação adicional, também não fazendo referência nenhuma à locução à baila: “Os exemplos, porém, que do nosso admirável Rui Barbosa, trouxe à balhao meu colega, não merecem o mínimo crédito por não serem limpas e puras as fontes donde os tirou”.1

2) Cândido de Figueiredo, por seu lado, opõe-se à expressão à baila, e assevera que o correto é à balha.

3) Heráclito Graça, por fim, que transcreve a lição do gramático por último citado, após alongadas considerações e com exemplos de autores abalizados, dá por corretas ambas as expressões, e conclui: “Vir à baila ou vir à balha são, portanto, formas idênticas, equivalem-se”.2

4) Também nessa esteira, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, órgão incumbido oficialmente de determinar a existência dos vocábulos em nosso idioma, além de sua grafia oficial, registra baila e balha como formas variantes uma da outra. E ainda registra bailha como terceira forma para significar a mesma realidade.3

5) E Napoleão Mendes de Almeida traz alongada explicação: baila “é mais usada, mas é corruptela de balha, designação da divisão de madeira, de uns cinco palmos de altura, que rijamente se cravava no chão, no centro da liça, e que servia para impedir que os combatentes fossem de encontro um do outro e para facultar-lhes que se ferissem unicamente com as armas. O mantenedor (cavaleiro que combatia com a lança) vinha à balha ou para quebrar novas lanças com o mesmo aventureiro ou para acudir ao desafio de outro”.4

6) Ante as dúvidas e discussões entre os gramáticos e a própria posição oficial sobre o assunto, o melhor é concluir que há liberdade ao usuário para escolher, indistintamente, entre as três formas de expressão, usadas com freqüência na locução vir à balha, ou vir à baila, ou vir à bailha, que significa vir a propósito (in dubiis, libertas).

7) Cândido Jucá Filho, nesse sentido, vê como mera questão de opção o emprego de baila ou balha em casos que tais.5

8) Corrobora esse entendimento de facultatividade de uso a lição de Cândido de Figueiredo - que Heráclito Graça havia citado como contrário a tanto -, o qual manifesta visível preferência por à balha: “vir à baila é corruptela de vir à balha”, e, “quando as corruptelas se vulgarizam,... não é indecoroso subscrevê-las”.6

9) Resumindo a questão: são igualmente corretas as expressões “trazer à baila”, “trazer à balha” e “trazer à bailha”, todas com o mesmo sentido de trazer à discussão ou vir a propósito.
_________

1 Cf. BARRETO, Mário. De Gramática e de Linguagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1995. p. 39.

2 Cf. GRAÇA, Heráclito. Fatos da Linguagem. Rio de Janeiro: Livraria de Viúva Azevedo & Cia. . Editores, 1904. p. 68-71.

3 Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 2. ed., reimpressão de 1998. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1999. p. 91-92.

4 Cf. ALMEIDA. Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. São Paulo: Editora Caminho Suave Ltda., 1981. p. 37.

5 Cf. JUCÁ FILHO, Cândido. Dicionário Escolar das Dificuldades da Língua Portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: FENAME . Fundação Nacional de Material Escolar, 1963. p. 93.

6 Cf. FIGUEIREDO, Cândido de. Falar e Escrever. 4. ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1941. v. II, p. 277-278.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.