Quarta-feira, 17 de outubro de 2018

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Viva os brasileiros! Ou Vivam os brasileiros!?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

dúvida do leitor

A leitora Tânia Lise envia a seguinte mensagem ao autor de Gramatigalhas:

"Olá professor! Gostaria de saber quando 'Viva!' é interjeição e quando é verbo. Por exemplo: Viva nós! Somos tetracampeões! Está correto se optar por verbo?"

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Viva os brasileiros! Ou Vivam os brasileiros!?

1) Em expressões como "Viva o rei!", surgem problemas, quando o substantivo está no plural: "Viva os reis!" ou "Vivam os reis!"?

2) Para Antenor Nascentes, trata-se de interjeição: "Viva os Estados Unidos!"1, do que decorreria a conclusão de que se trataria de palavra invariável.

3) Para Domingos Paschoal Cegalla, que acaba por não se posicionar acerca da correção ou erronia do modo de expressão, mas parecendo inclinar-se para a tese da invariabilidade, "o povo sente a palavra viva como interjeição de aclamação, portanto, invariável"; e complementa tal autor que, "aliás, em francês se usa de preferência o singular: Vive les vacances!".2

4) Após observar que alguns gramáticos classificam esse vocábulo como interjeição, hipótese em que é invariável, enquanto outros a inserem na categoria dos verbos, caso em que a fazem variar de acordo com o respectivo sujeito, leciona Luís A. P. Vitória que "fica, pois, ao arbítrio de cada um escolher a forma que mais lhe aprouver".3

5) Não parece defensável, todavia, classificar viva como interjeição nesses casos, quer porque lhe falta o sentido vago e extragramatical próprio de tal categoria de palavras, quer porque a força exclamativa reside na oração como um todo, e não na palavra isoladamente.

6) Em realidade, o mais adequado é concluir que o sentido da expressão é optativo, indicador de uma vontade expressa por quem diz a frase: "Eu desejo que o rei viva", ou, simplesmente, "Que viva o rei!"4; do que decorre o plural "Eu desejo que os reis vivam", ou, simplesmente, "Que vivam os reis!".

7) Alfredo Gomes equipara o exemplo "Viva a República Brasileira!", sem qualquer complementação, simplesmente a "Viva meu pai longos anos", observando apenas que ambos os exemplos constituem hipóteses em que o sujeito substantivo vem depois do verbo5, assertiva essa de que se extrai a conclusão de que tais frases, com o sujeito no plural, assim ficariam: "Vivam as Repúblicas sul-americanas!" e "Vivam nossos pais longos anos".

8) De Arnaldo Niskier é a seguinte síntese: "Os verbos viver e morrer nas frases exclamativas devem concordar normalmente com o sujeito; são verbos e não interjeições". Exs.: a) "Viva o Sol!"; b) "Vivam as férias!"; c) "Morram os nazistas!".6

9) Para Silveira Bueno, no exemplo "Vivam os índios!" – que equivale à frase optativa (ou desiderativa) "Que os índios vivam" – , sendo vivam um verbo, deve ele ir para o plural".7

10) No entendimento de Laudelino Freire, "nas orações optativas assim construídas – 'Viva o Brasil', 'Morra a anarquia' – os sujeitos são respectivamente o Brasil, a anarquia".8

11) Sousa e Silva, sem comentários outros, afirma que tal vocábulo "concorda com o nome a que precede: 'Vivam nossos pais!'".9

12) Ante tais considerações, o mais adequado, então, é dizer "Vivam os reis!", harmonizando-se regularmente o sujeito com o seu verbo, como determinam as normas de concordância verbal, sendo tão flagrante a natureza verbal da palavra, que até lhe podemos encontrar, no caso, o antônimo morra. Exs.: a) "Viva o rei!"; b) "Vivam os reis!"; c) "Morra o rei!"; d) "Morram os reis!".

13) Quanto à expressão "Viva às férias", presente no Ateneu, de Raul Pompéia, anota Aires da Mata Machado Filho que tal autor "sentiu a natureza verbal da palavra viva. Mas, como lhe repugnou o plural, que o verbo exige, tratou de reduzir o sujeito a objeto direto, perpetrando, assim, um assassínio gramatical".10

14) Resuma-se o problema com lição do mesmo gramático citado, presente em outra obra: "A falta de costume de ver o verbo no plural é que induz à procura de explicações para o singular, onde só o plural é possível, em face das regras gramaticais".11

15) E se complemente com lição de José de Sá Nunes, o qual, a um consulente que lhe indagava se estava correta a expressão "Viva as férias!", respondeu de modo categórico: "Certa não está, pois o sujeito é as férias, com que deve concordar o verbo vivam. Quem diz 'viva as férias' perpetra solecismo".

16) Para confirmar seu ponto de vista, alinha tal autor significativos exemplos de abalizados escritores no sentido da lição por ele proferida: a) "Vivam as musas!" (Machado de Assis); b) "Vivam os bons e morram os maus" (Ernesto Carneiro Ribeiro); c) "Vivam todos esses intrépidos jacobinos da literatura" (Castilho).12

17) Em precisa lição – após observar que, em francês, o termo é verbo ("Vive la liberté!" – "Vivent les braves!"), mas em italiano, interjeição ("Viva i nostri benefattori!" – "Viva le donne oneste!"), acrescentando que "cada língua tem sua índole e quer-se respeitada" – anota o Padre José F. Stringari que, em orações desse jaez, no vernáculo, "o termo viva não é interjeição, mas sim verbo e, como tal, deve concordar com o sujeito: Viva o Brasil! Vivam os brasileiros!"

18) E exemplifica o padre gramático com textos de autores os mais abalizados: a) "Viva a minha amiga corça gentil!" (Machado de Assis); b) "Vivam os vivos!...Vivam as flores!... Vivam as musas!... Vivam os sineiros de outros anos!" (Machado de Assis).13

19) Para rematar, em lição que pode ser tomada como verdadeira síntese do assunto, de Silveira Bueno é o seguinte ensinamento para estruturas desse jaez: "Não devemos perder mais tanto tempo com cousas já decididas. Perante todos os luminares da filologia portuguesa está liquidado o caso: trata-se de orações optativas, em que o verbo viva deve concordar com o sujeito que se lhe segue imediatamente. Donde: Viva Tiradentes! Vivam os Inconfidentes!".14

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1 Apud STRINGARI, Padre José F. Canhenho de Português. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961. p. 72.

2 Cf. CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999. p. 414.

3 Cf. VITÓRIA, Luís A. P. Dicionário de Dificuldades, Erros e Definições de Português. 4. ed. Rio de Janeiro: Tridente, 1969. p. 243-244.

4 Cf. SACCONI, Luiz Antônio. Nossa Gramática. São Paulo: Editora Moderna, 1979. p. 209.

5 Cf. GOMES, Alfredo. Gramática Portuguesa. 19. ed. Livraria Francisco Alves, 1924. p. 328.

6 Cf. NISKIER, Arnaldo. Questões Práticas da Língua Portuguesa: 700 Respostas. Rio de Janeiro: Consultor, Assessoria de Planejamento Ltda., 1992. p. 96.

7 Cf. BUENO, Francisco da Silveira. Questões de Português. São Paulo: Saraiva, 1957. 2. vol., p. 483.

8 Cf. FREIRE, Laudelino. Sintaxe da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Empresa Editora ABC Ltda., 1937. p. 40.

9 Cf. SILVA, A. M. de Sousa e. Dificuldades Sintáticas e Flexionais. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1958. p. 314.

10 Cf. MACHADO FILHO, Aires da Mata. "Principais Dificuldades". In: Grande Coleção da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: co-edição Gráfica Urupês S/A e EDINAL – Editora e Distribuidora Nacional de Livros Ltda., 1969. vol. 1, p. 69.

11 Ibid., vol. 2, p. 718.

12 Cf. NUNES, José de Sá. Aprendei a Língua Nacional (Consultório Filológico). São Paulo: Saraiva, 1938. vol. I, p. 88.

13 Cf. STRINGARI, Padre José F. Canhenho de Português. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961. p. 71-72.

14 Cf. BUENO, Silveira. Português pelo Rádio. São Paulo: Saraiva & Cia., 1938. p. 216.

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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.