Sábado, 24 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Pessoas vêm dizerem...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

dúvida do leitor

O leitor José Celso de Camargo Sampaio, do escritório Demarest e Almeida Advogados envia-nos a seguinte mensagem:

"Prezados: Muito apreciaria se o professor José Maria, de Gramatigalhas, pudesse nos esclarecer sobre o infinito pessoal usado neste trecho de Migalhas 1.303 (30/11/05 – 'Dívida'), a saber: 'Terminando o ano com o pífio crescimento e sem nenhum investimento em infra-estrutura, vêm agora os econopetistas dizerem que, infelizmente, a dívida do Brasil aumentou'. Não ficou meio estranho: vêm dizerem...? Com um abraço".

envie sua dúvida

1) O infinitivo de um verbo (ou seja, o verbo quando o chamamos pelo nome: amar, vender, partir...) pode apresentar-se em sua forma não flexionada (o próprio nome do verbo – amar)ou em sua feição flexionada (ou seja conjugado – amar eu, amares tu, amar ele, amarmos nós, amardes vós, amarem eles).

2) Quanto ao infinitivo, de um modo geral, nem sempre é fácil escolher a forma a ser empregada (flexionada ou não flexionada), e o assunto muitas vezes situa-se mais no terreno da Estilística do que da Gramática.

3) No caso da consulta, porém, a questão não é tão complexa e pode ser resolvida até com certa facilidade, apenas exigindo atenção ao texto na hora da revisão. O problema, aliás, é corriqueiro na redação profissional de nossas petições, decisões e pareceres de todos os dias: como empregar o infinitivo numa locução verbal (dois verbos desempenhando o papel de um só – no caso, vêm dizerem), quando postos tais verbos ou em ordem inversa, ou entremeados com outras palavras ("vêm agora os econopetistas dizerem...).

4) O leitor que remeteu a consulta já se incumbiu do primeiro passo para a resolução do problema, ao estruturar o exemplo na ordem direta: "Os econopetistas vêm dizerem..."

5) Ora, a regra que aqui se aplica é de fácil entendimento: emprega-se o infinitivo impessoal nas locuções verbais, e nelas "não é lícito flexionar o infinitivo".1 Exs.:

a) "Os magistrados não podem fazer sozinhos o trabalho de administrar a justiça" (correto);

b) "Os magistrados não podem fazerem sozinhos o trabalho de administrar a justiça" (errado).

6) O erro mais comum, nesses casos, é a utilização do infinitivo flexionado nesses casos, sobretudo quando, entre o verbo auxiliar e o verbo principal, existem outras palavras, ou mesmo quando o exemplo está na ordem inversa. Ex.:

a) "Os magistrados não podem, sozinhos, sem a participação de todos os segmentos envolvidos, fazerem o trabalho de administrar a justiça" (errado);

b) "Os magistrados não podem, sozinhos, sem a participação de todos os segmentos envolvidos, fazer o trabalho de administrar a justiça" (correto).

7) Cândido de Figueiredo, exatamente a esse respeito, lembra o seguinte exemplo, encontrado "num livro moderno, premiado oficialmente": "Podem entretanto esses serviços serem estabelecidos..."; e complementa: "Podem serem... não é linguagem de cá".2 Acrescente-se: nem de cá, nem de lá, nem de lugar algum.

8) Reitere-se que, nesse caso, quando os verbos componentes da locução estão próximos e o auxiliar é normalmente flexionado, é menos corriqueiro o equívoco de flexão, sendo, assim, incomum um erro como o seguinte: "As certidões deverão acompanharem o traslado da escritura".

9) Todavia, quando os verbos da locução se distanciam, a possibilidade de erro se acentua, como se dá no seguinte emprego equivocado, modelo de outros tantos: "As certidões deverão, sob pena de invalidade do ato e impedimento para o registro, acompanharem o traslado da escritura" (corrija-se: deverão... acompanhar).

10) Após essas reflexões, no caso da consulta, veja-se a ordem direta e a forma adequada:

a) "Os econopetistas vêm dizerem..." (errado);

b) "Os econopetistas vêm dizer..." (correto).

11) Por conseqüência, veja-se como deve ficar o exemplo na ordem em que apareceu no texto da consulta:

a) "Vêm agora os econopetistas dizer..." (correto);

b) "Vêm agora os econopetistas dizerem..." (errado).

___________

1Cf. MACHADO FILHO, Aires da Mata. "Análise, Concordância e Regência". In: Grande Coleção da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: co-edição Gráfica Urupês S/A e Edinal – Editora e Distribuidora Nacional de Livros Ltda., 1969. vol. 2, p. 705.

2Cf. FIGUEIREDO, Cândido de. Falar e Escrever. 4 ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1941. vol. II, p. 168.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.