Domingo, 26 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Alerta – Existe no plural?

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

dúvida do leitor

A leitora Maria Rita S. Dias envia a seguinte mensagem ao autor de Gramatigalhas:

"Minha dúvida é se existe o plural da palavra 'alerta'. A frase 'Estamos todos alertas." está correta?"

envie sua dúvida

1) Tradicionalmente se tem considerado alerta apenas um advérbio e, assim, tem-se preconizado seu emprego invariável. Ex.: "Estamos todos alerta".

2) Reforçando esse ensino, observa Evanildo Bechara que "há uma tendência para se usar deste vocábulo como adjetivo, mas a língua padrão recomenda se evite tal prática".

3) Assim também é a lição de Luiz Antônio Sacconi: "fica invariável, porque não é adjetivo, mas advérbio", muito embora anote tal autor, na língua popular, "uma forte inclinação para a flexão da palavra".

4) E Luís A. P. Vitória: "Quando alerta for advérbio, manter-se-á invariável: 'As sentinelas mantinham-se alerta' (e não alertas)".

5) Reiterando a lição de que "não tem cabimento a flexão alertas", apenas excepcionando tal possibilidade quanto se trata de substantivo – "soaram dois alertas" – Sousa e Silva colheu exemplo de erronia em um vespertino: "Os observatórios de todo o mundo estão alertas, e os canhões telescópicos, apontados contra o infinito, aguardam a noite".

6) Repetindo esse ensino tradicional da Gramática, observam José de Nicola e Ernani Terra , por um lado, que "alerta é advérbio, portanto não deve variar"; por outro lado, atestando o que vem ocorrendo na linguagem coloquial, com os efeitos sendo espraiados para a própria linguagem literária, acrescentam que é "comum, no entanto, mesmo em bons autores, encontrar o emprego dessa palavra como adjetivo, variando, portanto".

7) E Domingos Paschoal Cegalla anota que "na língua de hoje é mais empregado como adjetivo, portanto variável, no sentido de vigilante, atento". Exs.: a) "Temos de estar alertas..." (Oto Lara Resende); b) "Fingia-se absorvida, porém seus ouvidos estavam alertas" (Menotti Del Picchia); c) "Todos os seus sentidos estão alertas" (Adonias Filho).

8) Ora, apesar de considerado um advérbio pelo ensino tradicional, o certo é que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, órgão incumbido oficialmente de determinar a natureza dos vocábulos em nosso idioma, a par de advérbio, também permite, de modo expresso, seu emprego como adjetivo.

9) Disso resulta a obrigatoriedade de também ser aceita sua flexão como tal. Exs.: a) "Estamos todos alerta" (correto); b) "Estamos todos alertas" (correto); c) "As sentinelas mantinham-se alerta" (correto); d) "As sentinelas mantinham-se alertas" (correto); e) "Os observatórios de todo o mundo estão alerta" (correto); f) "Os observatórios de todo o mundo estão alertas" (correto); g) "Temos de estar alerta" (correto); h) "Temos de estar alertas" (correto); i) "Fingia-se absorvida, porém seus ouvidos estavam alerta" (correto); j) "Fingia-se absorvida, porém seus ouvidos estavam alertas".

10) No plano da regência, Celso Pedro Luft vê a possibilidade de construção com uma de três preposições, a saber, a, contra e para: a) "Sensibilidade muito alerta ao sofrimento humano"; b) "Pessoa alerta contra imprevistos"; c) "No olhar a expressão de quem está alerta para aquele chamamento".

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.