Quinta-feira, 22 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Convir

quarta-feira, 28 de junho de 2006

dúvida do leitor

Em tempos de Copa do Mundo, em que as atenções estão voltadas mais para os pés do que para o cérebro, deu-se que, no Migalhas 1.436 (20/6/06), assim estava escrito: "A frase que hoje descortina este informativo vai desde o futebol até a política. Cada um faça o uso que melhor lhe convir."

O atento leitor Paulo Penteado de Faria e Silva Junior enviou-nos a seguinte mensagem:

"La première bêtise... Vossências hão de convir que trocar convier por convir habilita o integérrimo corpo redacional desse Sodalício a uma nova e exemplar rodada de velha chibata! (Migalhas 1.436 - 20/6/06 - "Todos os gostos") Saudações ludopédicas."

A Redação, a esse respeito, assim se pronunciou:

Nota da Redação - Infalível migalheiro. Alega a divisão revisional que a troca foi adrede, esperando para ver o que faria o leitor atento. No entanto, pelo estralado que se ouviu nesta madrugada, as milongas pelas gralhas nas migalhas não colaram. Nosso inexorável amantíssimo Diretor estreou sua nova chibata de cordas de caroá. E como canta bonito a danada...

envie sua dúvida

1) Composto de vir, num primeiro aspecto, convir é verbo que traz problemas quanto à acentuação gráfica, já que, assim como aquele primitivo, é grafado, na terceira pessoa do plural do presente do indicativo com um acento circunflexo, para diferenciar da terceira pessoa do singular: eles vêm, eles convêm.

2) Contrariamente ao verbo de que deriva, além disso, recebe, na terceira pessoa do singular, um acento agudo, em razão de regra específica das oxítonas: ele vem, ele convém, eles vêm, eles convêm.

3) Atente-se a que nem vir nem seus compostos apresentam dois ee na terceira pessoa do plural do presente do indicativo, encontro vocálico esse próprio de crer, dar, ler e ver.

4) Quanto à conjugação verbal, importante é observar-lhe as formas do presente do indicativo e tempos derivados: convenho, convéns, convém, convimos, convindes, convêm (presente do indicativo); convenha, convenhas, convenha, convenhamos, convenhais, convenham (presente do subjuntivo); convém, convenha, convenhamos, convinde, convenham (imperativo afirmativo); não convenhas, não convenha, não convenhamos, não convenhais, não convenham (imperativo negativo).

5) "As pessoas menos cultas manifestam a tendência para dizer viemos (e, por conseguinte, conviemos)em vez de vimos (e, assim, de convimos)na primeira pessoa do plural do presente do indicativo"1, forma aquela pertencente ao pretérito perfeito do indicativo, falha essa de emprego da forma do pretérito perfeito pelo presente do indicativo que Júlio Nogueira atribui à "falta de uso" da forma correta.2

6) Para que não haja erros, são as seguintes as formas do pretérito perfeito: convim, convieste, conveio, conviemos, conviestes, convieram.

7) Cuidado, assim, com os tempos derivados do pretérito do perfeito do indicativo: conviera, convieras, conviera, conviéramos, conviéreis, convieram (pretérito mais-que-perfeito do indicativo); convier, convieres, convier, conviermos, convierdes, convierem (futuro do subjuntivo); conviesse, conviesses, conviesse, conviéssemos, conviésseis, conviessem (imperfeito do subjuntivo).

8) Observe-se que o gerúndio e o particípio são iguais (convindo).

9) Cuidado com a conjugação dele e de outros compostos de vir no pretérito perfeito e tempos derivados:

a) "Terceiros intervieram no processo"(e não interviram);

b) "O réu não apenas contestou, mas também reconveio" (e não reconviu);

c) "Quando sobrevier sentença..."(e não Quando sobrevir...).

10) Grafias equivocadas, como interviu em lugar de interveio, lembra Luiz Antônio Sacconi que são barbarismos morfológicos.3

11) De Geraldo Amaral Arruda é a lembrança de que "lamentavelmente muitos se confundem e escrevem eu intervi, ele intervia, eles interviram", acrescentando tal autor que esse verbo nada tem com o verbo ver e que, em sua conjugação, não se deve fazer tal confusão.4

12) Quanto às pessoas em que pode ser conjugado, Otelo Reis traz importante observação:

a) – no sentido de ser conveniente, ser útil, é impessoal;

b) – em outro sentido, é conjugado em todas as pessoas.5

13) Das considerações feitas, vê-se que assiste integral razão ao atento leitor:

a) "Cada um faça o uso que melhor lhe convir" (errado);

b) "Cada um faça o uso que melhor lhe convier" (correto).

______________

1Cf. Reis, Otelo. Breviário da Conjugação dos Verbos da Língua Portuguesa. 34. ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1971. p. 123.

2Cf. Nogueira, Júlio. O Exame de Português. 4. ed. Rio de Janeiro: Livraria Editora Freitas Bastos, 1930. p. 201.

3Cf. Sacconi, Luiz Antônio. Nossa Gramática. 1. ed. São Paulo: Editora Moderna, 1979. p. 268.

4Cf. Arruda, Geraldo Amaral. A Linguagem do Juiz. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 67.

5Cf. Reis, Otelo. Breviário da Conjugação dos Verbos da Língua Portuguesa. 34. ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1971. p. 146.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.