Sexta-feira, 18 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Só – Adjetivo ou advérbio?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

dúvida do leitor

O leitor Felipe M. Crivelatti envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Na frase 'Exército de um homem só', 'só' se comporta como adjetivo (equivalendo a solitário), como o advérbio (correspondendo a apenas) ou como ambos?"

E o leitor Geovane Lopes de Oliveira também envia a seguinte mensagem:

"Qual das construções a seguir é gramaticalmente correta: 'Causas que, por si SÓ, produziriam o resultado...' ou 'Causas que, por si SÓS, produziriam o resultado...' Obrigado pela atenção."

envie sua dúvida

1) Um leitor indaga se, na frase "Exército de um homem ", "" se comporta como adjetivo (equivalendo a solitário), como o advérbio (correspondendo a apenas) ou como ambos?" E outro leitor pergunta qual a frase correta entre as seguintes: a) "Causas que, por si , produziriam o resultado..."; b) "Causas que, por si sós, produziriam o resultado".

2) Ora, a palavra ora funciona como advérbio, ora, como adjetivo.

3) Por um lado, tem ela valor de advérbio: a) quando modifica um verbo ou um adjetivo; b) nesse caso, equivale a somente, unicamente, apenas; c) nessa situação, é invariável. Exs.: i) "O réu queria protelar o andamento do feito"; ii) "Os réus queriam protelar o andamento do feito".

4) Por outro lado, tem valor de adjetivo: a) quando modifica um substantivo; b) nesse caso equivale a sozinho, desacompanhado, solitário; c) nessa situação, é variável. Exs.: i) "O réu ficou "; ii) "Os réus ficaram sós".

5) Por oportuno, acresce dizer que a expressão a sós é invariável. Exs.: a) "O réu ficou a sós"; b) "O réu e seu patrono ficaram a sós".

6) Feitas essas considerações, passa-se a responder, de modo prático, ao primeiro leitor: a) deixando de lado a teoria, quer porque nem sempre é de fácil entendimento, quer porque dispensável na análise do caso concreto, pode-se afirmar que é advérbio quando significa somente ou apenas; b) nesse caso, é invariável; c) por outro lado, é adjetivo quando significa sozinho ou solitário; d) nessa hipótese, é variável; e) na expressão trazida para análise – "Exército de um homem ", o sentido permite que a substituição se dê por qualquer dos vocábulos referidos como sinônimos (somente ou apenas e sozinho ou solitário); f) é de fácil percepção que a função de será diferente, conforme o sentido que se dê ao vocábulo no caso prático; g) quando o sentido for somente ou apenas, então será um advérbio; h) quando, porém, se quiser conferir a tal palavra o sentido de sozinho ou solitário, então se estará diante de um adjetivo; i) com os exemplos no plural, a expressão mostra com mais clareza a diferença de sentidos e de funções de tal palavra – "Exército de homens" e "Exército de homens sós".

7) Observadas as mesmas premissas para o segundo leitor, fazem-se as seguintes ponderações: a) se o exemplo for "... causas que, por si", então o pode ser substituído por somente; b) nesse caso, é um advérbio e, portanto, invariável; c) o resultado correto é "... causas que, por si..."; d) se o exemplo é "... causa que, por si ", a substituição dá-se por sozinha; e) então tal palavra é adjetivo e é variável; f) no plural, então, fica "... causas que, por si sós..."

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.