Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Em + gerúndio – É correto?

quarta-feira, 29 de maio de 2019

dúvida do leitor

O leitor Wladimir Bezerra Cordeiro envia a seguinte mensagem para a seção Gramatigalhas:

"Prezado Prof. José Maria da Costa: Muito se utiliza a preposição 'em' antes de alguns verbos no gerúndio, no início de frases, para estabelecer uma condição. Por exemplo: 'em ocorrendo...', 'em havendo...' Essa construção não me soa bem, até porque este 'em', se suprimido, não faria falta. Este uso está correto? Não ficaria melhor dizer 'se houver...', 'quando ocorrer...' ? Obrigado pela atenção."

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1) Um leitor observa que é muito utilizada a preposição em antes de verbos no gerúndio, no início de frases, para estabelecer uma condição: em ocorrendo, em havendo... E faz duas indagações: a) é correta uma construção como essa?; b) não ficaria melhor dizer "se ocorrer" ou "quando houver"?

2) Num primeiro aspecto, afirme-se a correção dessas construções em que o gerúndio se faz preceder da preposição em. Exs. a) "Em se levantando, saía"; b) "Em ocorrendo a condição prevista, o negócio estará automaticamente desfeito".

3) Carlos Henrique Rocha Lima anota que uma das funções da preposição em é exatamente preceder o gerúndio, "exprimindo, sobretudo, tempo e condição". E exemplifica com excerto de Rui Barbosa: "A vida não tem mais que duas portas: uma de entrar, pelo nascimento; outra de sair, pela morte. Ninguém, cabendo-lhe a vez, se poderá furtar à entrada. Ninguém, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguirá evadir à saída".

4) Cândido Jucá Filho, por sua vez, leciona que, nesses casos, a referida preposição "introduz gerúndios, para insistir na ideia de concomitância". E exemplifica: "Em me vendo, ele logo se lembrará do prometido".

5) E Celso Cunha assim justifica a referida construção: "Precedido da preposição em, o gerúndio marca enfaticamente a anterioridade imediata da ação com referência à do verbo principal".

6) Napoleão Mendes de Almeida ainda faz três observações: a) o gerúndio "invade, nesse caso, a esfera do particípio presente latino"; b) "não se vá julgar necessária a preposição em em tal caso"; c) "limita-se seu uso à língua culta".

7) Também interessante a ponderação de Domingos Paschoal Cegalla: "É simplesmente enfática, portanto não necessária, a preposição em antes de gerúndio, em orações que exprimem tempo ou condição, como as frases: 'Em aparecendo febre, ela chama a vizinha'. / 'Em se tratando de casos graves, ele atende prontamente.' / 'Em se removendo a causa, cessarão os efeitos.' / 'Em chegando a hora, saberei como agir.' (Aurélio) / 'Ande, aparente calma, mas, em chegando à esquina, chispe.' (Ciro dos Anjos, O Amanuense Belmiro, p. 80)".

8) Gladstone Chaves de Melo chega a afirmar que uma das funções da preposição em é exatamente reger o gerúndio em determinadas circunstâncias. E traz exemplos de abalizados escritores para abonar seu ensino: a) "Ninguém, desde que entrou [neste mundo], em lhe chegando o turno, se conseguirá evadir à saída" (Rui Barbosa); b) "... ele, em se tratando da própria consideração, mentia sem dificuldade" (Machado de Assis).

9) Por fim, respondendo diretamente à indagação do leitor: a) em casos como os trazidos para análise, tanto é correto dizer o verbo no gerúndio precedido pela preposição em (em ocorrendo, em havendo), como é correta a supressão da preposição em antes do gerúndio, ou a extensão do verbo, com o surgimento da conjunção e o desaparecimento da preposição e do gerúndio (se ocorrer, quando ocorrer, se houver, quando houver); b) como não é difícil perceber, nesses casos de um gerúndio precedido pela preposição em, indica-se uma condição (se) ou um tempo (quando); c) sintaticamente, as três construções se equivalem quanto à correção gramatical, muito embora a construção com a preposição em seja quase que exclusiva da norma culta; d) a escolha, assim, fica ao talante do usuário; e) por fim, com o verbo no gerúndio e manutenção ou não da preposição, estará correto qualquer desses exemplos: (Em me levantando ou Levantando-me, Em ocorrendo ou Ocorrendo, Em lhe chegando ou Chegando-lhe, Em me vendo ou Vendo-me, Em aparecendo ou Aparecendo, Em se tratando ou Tratando-se, Em se removendo ou Removendo-se, Em chegando ou Chegando).

 

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.