Sábado, 19 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Sic

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

dúvida do leitor

O leitor Fernando Antônio Araújo Oliveira envia à seção Gramatigalhas a seguinte mensagem:

"Peço o seguinte esclarecimento: Depois que transcrevi um texto de outra pessoa, além das aspas, acrescentei a expressão (sic) ao final dele. Pergunto: o uso da expressão acima é só para eu chamar a atenção para algum erro no texto, cuja autoria não é minha? Obrigado."

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1) Trata-se de advérbio latino, que significa assim.

2) De acordo com ensinamento de Vitório Bergo, é latinismo que, geralmente, se encontra entre parênteses, "para indicar que um trecho transcrito não foi alterado, mas se apresenta textualmente, ainda que com ele não concorde o transcritor".1

3) Para Luiz Antônio Sacconi, tal vocábulo tem por função "demonstrar a fidelidade de algum trecho transcrito". Ex.: "A república, este sim, é o melhor regime" (sic).2

4) No conceito de Domingos Paschoal Cegalla, constitui "latinismo que se coloca entre parênteses, após uma palavra ou citação, para indicar que são autênticas, embora erradas ou estranhas".3

5) Não destoa desse ensino Napoleão Mendes de Almeida: "Palavra latina que significa assim. Emprega-se entre parênteses, antes ou depois de uma citação, para indicar que o original vai ser ou foi reproduzido fielmente, com as mesmas palavras, como foram proferidas ou escritas".4

6) Em termos técnicos, usa-se com muita freqüência antes, no meio ou depois de uma citação, para indicar que houve fiel reprodução do original, com as mesmas palavras, conforme foram escritas (geralmente para eximir a quem cita da responsabilidade atinente a algum erro de grafia ou de sintaxe). Ex.:

a) "Registrava textualmente a sentença que 'as testemunhas, talvez por medo ou coação, não deporam ("sic") nos termos previstos pela legislação civil em vigor'" (o correto é depuseram);

b) "Qualquer mudança deve vigir ("sic") apenas a partir de 2002" (o correto é viger).

7) O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, que é o veículo oficial indicador das palavras existentes em nosso idioma, registra-o com a especificação de se tratar de advérbio latino.5

8) Assim, por se tratar de palavra pertencente a outro idioma, há de vir entre aspas, em negrito, itálico, com sublinha ou grifo equivalente, indicador de tal circunstância.

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1Cf. BERGO, Vitório. Erros e Dúvidas de Linguagem. Rio de Janeiro: Livraria Editora Freitas Bastos, 1944. vol. II, p. 217-218.

2Cf. SACCONI, Luiz Antônio. Nossa Gramática. 1. ed. São Paulo: Editora Moderna, 1979. p. 246.

3Cf. CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 374.

4Cf. ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. São Paulo: Editora Caminho Suave Ltda., 1981. p. 298.

5Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 2. ed., reimpressão de 1998. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1999. p. 682.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.