Domingo, 13 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Mas se esqueceu ou Mas esqueceu-se?

quarta-feira, 9 de julho de 2008

dúvida do leitor

O leitor Carlos Cruz envia-nos a seguinte mensagem:  

"Segue trecho do 'Migalhas' de 12.9.07: "... mas esqueceu-se das autoridades modernas, que ampliaram a significação desse verbo (deparar)'. Pergunta-se: No trecho mencionado, o 'mas' não seria um 'fator de próclise'? Nesses casos, opto por redigir usando a próclise. Qual é o certo?" 

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Mas se esqueceu ou Mas esqueceu-se?

1) Indaga um leitor qual o correto:

I) "... mas se esqueceu das autoridades modernas...";

II) "... mas esqueceu-se das autoridades modernas".

E se pergunta se o mas não seria um "fator de próclise".

2) Em termos gerais, quando átono (ou seja, sem autonomia sonora), o pronome (no caso, o se) se "pendura", quanto à pronúncia, no verbo, conforme o melhor som (eufonia):

I) Se vem antes do verbo, há próclise. Ex.: "O advogado não se conteve em audiência";

II) Se vem no meio do verbo, há mesóclise. Ex.: "Realizar-se-á o júri na data prevista";

III) Se vem depois do verbo, há ênclise. Ex.: "Conteve-se o advogado, apesar das ofensas do causídico adversário".

3) Costuma-se dizer que a regra geral é a ênclise, o que significa dizer que o lugar normal para o pronome átono é depois do verbo, a não ser que algo especial aconteça.

4) E esse algo especial que pode acontecer são algumas palavras que, em razão da eufonia, atraem o pronome para antes do verbo:

a) as de valor negativo;

b) os advérbios;

c) os pronomes relativos;

d) os pronomes indefinidos;

e) as conjunções subordinativas.

5) Confiram-se os seguintes exemplos:

I) "Não lhe importavam as calúnias assacadas" (palavra negativa);

II) "Hoje a encontrei de novo" (advérbio);

III) "O argumento que o convenceu foi o último mencionado" (pronome relativo);

IV) "Alguém o convenceu" (pronome indefinido);

V) "Quando o encontrou, fugiu" (conjunção subordinativa).

6) No exemplo da consulta, tem-se um mas, que é uma conjunção coordenativa, e não uma conjunção subordinativa. Luiz Antônio Sacconi, a esse respeito, anota que as conjunções e, mas, porém, todavia, contudo, logo e portanto não exigem necessariamente a próclise, exatamente porque são conjunções coordenativas, e não subordinativas.1

7) Feitas essas observações, acrescenta-se que, quando se tem uma conjunção coordenativa (e não subordinativa), a colocação do pronome é optativa, em próclise ou em ênclise. Ou seja, pode-se fazer o uso indistinto de uma ou de outra colocação.

8) Por isso, de modo específico para o caso da consulta, são corretas ambas as formas:

I) "... mas se esqueceu das autoridades modernas..." (conjunção coordenativa e pronome em próclise);

II) "... mas esqueceu-se das autoridades modernas" (conjunção coordenativa e pronome em ênclise).

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1Cf. SACCONI, Luiz Antônio. Nossa Gramática. 1. ed. São Paulo: Editora Moderna, 1979. p. 231.

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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.