Sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Muitas coisas ou muitas das coisas?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

dúvida do leitor

A leitora Marisa Galvão Klemm envia-nos a seguinte mensagem:

"Gostaria de saber a opinião do mestre Dr. José Maria da Costa quanto à grafia das seguintes expressões: - 'Começava a rever muitas das coisas que havia vivido até então.' – 'Muitas das coisas que aconteceram não se justificam.' – 'Descobri logo que muitas das coisas que eu admirava em...' – 'Partilhei muitas das coisas que vivi por aqui.' É correta a utilização do termo 'muitas das coisas’? Estariam corretas as expressões caso se utiliza-se apenas 'muitas coisas'? Ou as duas formas são corretas?"

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Muitas coisas
ou muitas das coisas?

1) Uma leitora indaga qual a forma correta: I – "Muitas coisas que aconteceram não se justificam"; II – "Muitas das coisas que aconteceram não se justificam".

2) Em síntese, o que se quer saber é o que está correto entre estas duas expressões: muitas coisas ou muitas das coisas.

3) Como, em decorrência do uso sem contestação, não parece haver dúvidas sobre a correção da primeira forma – muitas coisas – resta considerar o exemplo em que se apresenta a expressão muitas das coisas.

4) Ora, em francês, se alguém disser algo como "Eu comi pão"ou "Eu comi o pão", o ouvinte entenderá que se comeu o pão inteiro, e não apenas uma ou duas fatias.

5) Naquele idioma, se alguém quiser dizer que comeu uma ou algumas fatias de um pão, deverá dizer algo como "Eu comi do pão". De igual modo, se tomar uma ou duas taças de uma jarra de vinho, deverá dizer "Eu bebi do vinho".

6) Esse elemento indicador de parte de um todo denomina-se artigo partitivo. Apenas para ilustrar, veja-se que uma propaganda francesa, contrariando a estrutura da língua conclama a população a beber Coca Cola ("Buvez Coca Cola"), e não usa o partitivo. Embora o fato tenha causado inquietação aos puristas da língua, constituiu um caso isolado, que não mudou – nem poderia mudar – a sintaxe do idioma daquele país, e, assim, o povo francês, embora continue bebendo tal refrigerante, mantém intacto o emprego do partitivo.

7) Em português, embora não obrigatório, é muito comum, sobretudo entre os autores mais clássicos, o uso do partitivo como recurso de estilo.

8) Em termos práticos, no caso da consulta, pode-se ver exatamente um partitivo no segundo exemplo. Como já se observou, seu emprego é tão correto como a outra forma que não o utiliza.

9) Vejam-se outros exemplos em que ambas as maneiras de dizer são corretas: I) – "Começava a rever muitas coisas que havia vivido até então"; II) – "Começava a rever muitas das coisas que havia vivido até então"; III) – "Descobri que muitas coisas que eu admirava em você..."; IV) – "Descobri que muitas das coisas que eu admirava em você..."; V) – "Partilhei muitas coisas que vivi por aqui"; VI) – "Partilhei muitas das coisas que vivi por aqui".

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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.