Terça-feira, 22 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Gerúndio abusivo

quarta-feira, 17 de novembro de 2004

dúvida do leitor

O leitor Josué A. Maranhão assim nos escreve:

"Espero que o MIGALHAS não seja contaminado pela praga que se tornou o uso do gerúndio, que nada mais é do que mais uma demonstração de macaquice, que consiste em imitar em tudo o americano."

envie sua dúvida

1) Atente-se à lição de Júlio Nogueira no sentido de emprego inadequado do gerúndio em diversas situações: “É comum nos jornais: ‘Aluga-se uma casa tendo tantos quartos, tendo gás, luz etc.’ Na linguagem vulgar: ‘Fulano é homem viajado falando muitas línguas etc.’. A verdade, porém, é que alguns dicionários portugueses incidem nesse hábito: ‘Dicionário da língua portuguesa, contendo...’ Ultimamente se tem procurado restaurar o particípio presente na expressão água fervente, em vez de água fervendo.”1

2) Veja-se também a lição de José Oiticica nas seguintes frases:

a) “Entregou-me um copo contendo vinho branco”;

b) “Comprei uma casa tendo quatro quartos”.

3) Tal autor, que as registra em sua obra, aponta tais casos como sendo hipóteses de galicismos de sintaxe dos mais comuns.

4) Para ele, não é difícil a correção desses exemplos:

a) “Entregou-me um copo com vinho branco”;

b) “Comprei uma casa com quatro quartos”.

5) Complementa tal autor, em mesma obra e local, que “só é legítimo, nesse caso, o gerúndio, quando equivale a uma expressão progressiva”. Ex.: “Vi um boi passando a ponte”, exemplo esse que equivale a “Vi um boi que estava passando a ponte”ou “Vi um boi que estava a passar a ponte”.2

6) Reafirmando o princípio de que, “quando o gerúndio não indica uma continuidade de ação, seu uso é condenável, pois constitui galicismo”, Edmundo Dantès Nascimento estabelece valiosa regra de cunho prático no sentido de que, quando indicar continuidade de ação, pode tal gerúndio ser substituído pelo infinitivo regido da preposição a. Exs.:

a) “Vi o carro passando a curva do estádio”(correto, pois se pode dizer: “Vi o carro a passar a curva do estádio”);

b) “Estava o usuário contando o dinheiro”(correto, pois se pode dizer: “Estava o usuário a contar o dinheiro”);

c) “Livro contendo estórias”(errado, pois não pode ser substituído por “Livro a conter estórias”).3

7) Registre-se, por fim, a observação de Artur de Almeida Torres, para quem, embora os puristas condenem por galicismo o emprego de gerúndio com valor de oração adjetiva, “tal prática é defendida por ilustres filólogos e gramáticos”, dentre os quais Eduardo Carlos Pereira, Said Ali, Afonso Costa, Rodrigues Lapa e Sílvio Elia.4

8) Acrescente-se queGeraldo Amaral Arruda, citando lição de Matoso Câmara Júnior, observa que defeito de redação muito freqüente no foro é “o encadeamento de gerúndios, quando um se subordina ao outro”, tal como se vê no seguinte exemplo: “O pesado caminhão, após parar no cruzamento, pôs-se em marcha, desenvolvendo baixa velocidade, levando a vítima a tentar a ultrapassagem, acelerando sua motocicleta, a fim de passar pela frente do caminhão, esperando que ele parasse”.

9) O mau uso do gerúndio em encadeamentos dessa espécie se desfaz exatamente com a alteração da estrutura e, se for o caso, com o emprego do verbo em outro tempo. Ex.: “O pesado caminhão, após parar no cruzamento, pôs-se em marcha, em baixa velocidade, o que levou a vítima a tentar a ultrapassagem, acelerando sua motocicleta, na expectativa de que ele parasse”.5
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1 Cf. NOGUEIRA, Júlio. A Linguagem Usual e a Composição. 13. ed. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1959. p. 69.

2 Cf. OITICICA, José. Manual de Estilo. 7. ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1954. p. 22.

3 Cf. NASCIMENTO, Edmundo Dantès. Linguagem Forense. 5. ed. São Paulo: Saraiva,

1982. p. 144.

4 Cf. TORRES, Artur de Almeida. Moderna Gramática Expositiva. 18. ed. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1966. p. 202.

5 Cf. ARRUDA, Geraldo Amaral.Como Aperfeiçoar Frases. São Paulo: edição interna do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, 1987. p. 22-23.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.