Sexta-feira, 18 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Mais bem

quarta-feira, 22 de abril de 2009

dúvida do leitor

O leitor Igor Nunes Mesquita envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Prezados amigos do Migalhas, gostaria que o ilustre professor José Maria da Costa esclarecesse a seguinte dúvida: é muito comum a mídia televisiva utilizar a seguinte expressão: 'fulano está mais bem preparado que sicrano'. Daí pergunto: não seria correto 'fulano está melhor preparado que sicrano'? Abraço a todos."

envie sua dúvida


Mais bem

1) Quando se diz "Ele é um bom advogado", o vocábulo bom, por modificar um substantivo, é um adjetivo e pode ter regularmente seu plural ("Eles são bons advogados").

2) Já quando se diz "Ele é bem intencionado", por modificar um adjetivo (a tanto equivalendo a forma verbal adjetivada), a palavra bem é um advérbio.

3) A partir de tais observações, esclarece-se que a dúvida que surge entre os gramáticos concerne à possibilidade de emprego ou não de melhor como comparativo de superioridade de bom (adjetivo) e de bem (advérbio).

4) Não há, por primeiro, problemas acerca da possibilidade de uso da forma comparativa do adjetivo. Ex.: "Estes são melhores advogados do que aqueles".

5) O que se discute entre os gramáticos, sem uniformidade de entendimento, é se é possível usar o comparativo melhor para o advérbio.

6) Para uns, se o advérbio modifica um adjetivo ou forma verbal adjetivada, diz-se mais bem, e não melhor. Exs.: a) "A testemunha mais bem informada não depôs nos autos"; b) "Ele é o candidato mais bem indicado para o cargo".

7) Para tais autores, estaria equivocado o emprego da forma sintética melhor nos seguintes exemplos: a) "As suas ações são bem vistas e melhor imitadas"; b) "Outros mais confiados e melhor aconselhados".

8) Cândido de Figueiredo, por exemplo, opõe-se ao emprego indiscriminado das duas expressões — melhor informados e mais bem informados — ressaltando haver "um equívoco, muito vulgar, a este respeito", e defende que "em boa linguagem diz- se: mais bem informados, mais bem procedido, mais bem intencionados...".

9) De acordo com ensinamento de Luís A. P Vitória, "toda a vez que os advérbios bem ou mal precederem um particípio passado, ainda que adjetivado, empregar- se-á o comparativo analítico e não o sintético; dir-se-á, portanto: exercício mais bem feito, e não melhor feito".

10) Indagado sobre qual a melhor construção — mais bem classificado ou melhor classificado — Cândido de Figueiredo, em outro volume de obra já citada, realçando não ser ociosa a dúvida, observa que a primeira aparência é de que "seria indiferente o uso de qualquer das formas".

11) Em seguida, justifica tal gramático seu posicionamento: "entretanto, da índole da língua e da prática dos mestres não se infere essa indiferença; e, embora se descubram alguns exemplos clássicos, que talvez autorizassem melhor classificado, o caminho seguro é outro".

12) Para Edmundo Dantès Nascimento, "com particípio passado, principalmente quando este é irregular, o correto são as formas: 'mais bem', 'mais mal'", pois "ninguém diz: 'melhor feito', 'pior colocado'".

13) Já na consonância com lição de Eduardo Carlos Pereira, "são geralmente preferidas as formas analíticas mais bem e mais mal às sintéticas melhor, pior, diante de um particípio passivo: — mais bem feito, mais bem informado, mais mal escrito. Todavia, não faltam autorizados exemplos das formas sintéticas": a) "... a demonstração... seja melhor confirmada pelos fatos" (Alexandre Herculano); b) "Santarém é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada" (Almeida Garrett).

14) Também realçando ser mais recomendável o uso do superlativo analítico mais bem ou mais mal, em vez do sintético melhor ou pior, antes do particípio passado, Vitório Bergo observa que, "uma ou outra vez se encontra em bons escritores aquela forma sintética".

15) Vasco Botelho de Amaral, todavia, doutrina que, "quando bem não é parte integrante de adjetivo composto, pode usar-se indiferentemente mais bem ou melhor, antes de particípio adjetivo".

16) Também para Sousa e Silva, "pode usar-se, indiferentemente, qualquer das duas formas com o particípio passado: melhor informado e mais bem informado".

17) E lembra tal gramático que "há quem não admita a forma sintética (melhor), mas a impugnação está em desacordo com os fatos da língua".

18) Nessa esteira, em oportuna análise de autores insuspeitos, Cândido jucá Filho assevera que o Padre Manuel Bernardes escreveu "Levou seu prêmio melhor logrado", e que José de Alencar fez registrar "mais decidida, senão melhor armada".

19) Complementa, contudo, o referido gramático: "o melhor, porém, é o que praticou o Rui: 'não foi mais bem sucedido'".

20) Ante a divergência entre os gramáticos, pelo princípio de que, na dúvida, existe liberdade para o usuário (in dubiis, libertas), é óbvio que estão autorizadas ambas as construções na linguagem que deva submeter-se ao padrão culto.

21) Tais observações valem para mal, mau, mais mal e pior.

______

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.