Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Colocação de pronomes – atração remota?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

dúvida do leitor

O leitor Carlos César de Souza envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Bom dia! Aprendi que certas palavras atraem a próclise, como advérbios, pronomes, conjunções, e que, depois de uma pausa, usa-se a ênclise. Contudo tenho dúvidas quando deslocamos um termo da oração. Essas regras têm que ser obedecidas ou não ? Seguem exemplos:

1 - Contou-nos que o amava ainda depois de tudo.

2 - Contou-nos que, depois de tudo, o amava ainda.

3 - Contou-nos que, depois de tudo, amava-o ainda.

No 1º exemplo, usou-se a próclise por atração. No segundo exemplo, também se usou a próclise por atração, embora entre a palavra atrativa e o pronome existisse um termo deslocado. Está certo esse emprego ? No exemplo de nº 3, o emprego do pronome estaria errado ou certo ? Desde já agradeço a colaboração deste site."

envie sua dúvida

1) Um leitor alinha três exemplos: a) "Contou-nos que o amava ainda depois de tudo"; b) "Contou-nos que, depois de tudo, o amava ainda"; c) "Contou-nos que, depois de tudo, amava-o ainda". Fundamenta que, no primeiro exemplo, a próclise foi usada por existência de uma daquelas palavras que atraem o pronome átono para antes do verbo. Refere, ao depois, que, no segundo exemplo, também se usou a próclise por atração, embora entre a palavra atrativa e o pronome exista um termo intercalado. Anota, por fim, que, no terceiro exemplo, não houve atração. E indaga se, neste último, a colocação pronominal está correta ou errada.

2) Verificada a premissa de que, em razão da eufonia, há palavras que atraem o pronome pessoal oblíquo átono para antes do verbo (palavras negativas, advérbios, pronomes relativos, pronomes indefinidos, conjunções subordinativas), a indagação (que, no caso, diz respeito apenas aos dois últimos exemplos) pode ser resumida do seguinte modo: quando se intercala, após palavra atrativa, outra palavra, ou expressão, ou mesmo oração (no caso, a expressão intercalada é "depois de tudo"), continua aquela primeira exercendo sua normal força de atração?

3) Carlos Góis, em estudo sobre os casos de próclise, observa que, se entre a palavra atrativa e o verbo "mediar outra oração, que os afaste e distancie, dá-se então a ênclise (a distância ou afastamento fez cessar a atração)", buscando tal autor corroboração em exemplo de Machado de Assis: "Poderá fazer crer ao leitor que, durante aqueles dias em que a perdemos de vista, tornara-se Guiomar uma criatura desditosa".

4) Para Cândido de Figueiredo, em tais casos, "o pronome pessoal atônico, que deveria ser proclítico, por o atrair uma partícula anterior, nos aparece muitas vezes enclítico, por ficar longe da referida partícula". Ex.: "... cordas que, se acaso tremem e vibram apagam-se, fundem-se" (João Ribeiro).

5) Buscando uma explicação plausível para essa ocorrência, justifica tal autor: "a inobservância rigorosa da construção é atenuada sensivelmente pela distância entre as partículas que normalmente se atraem".

6) Falando dos itens de exceção das regras de colocação de pronomes e enfocando, de modo específico, "as principais causas que perturbam a colocação normal dos pronomes oblíquos", refere Artur de Almeida Torres, entre estas, "a distância em que o pronome se acha das palavras acima mencionadas (palavras atrativas), que ficam como que esquecidas", o que, pelos exemplos por ele coligidos acarreta o emprego da ênclise. Exs.: a) "Vozes humanas que, apelidando-se pela calada das horas mortas, levantam-se..." (Júlio Ribeiro); b) "... cuja substância vai-se por qualquer rasgão" (Rui Barbosa); c) "Durante uns dois meses, que o general demorou-se na província" (Camilo Castelo Branco); d) "Asseguro-vos que, se me falece ambição para aceitar os vossos votos contradizendo as minhas opiniões, sobeja-me avareza" (Alexandre Herculano).

7) Na conformidade com lição de Evanildo Bechara, no caso de vocábulos ou de uma oração que se intercalem na subordinada, "exigindo uma pausa antes do verbo, o pronome átono pode vir enclítico", mesmo em havendo, distante, palavra normalmente atrativa, para o que se observa a regra genérica de que não se põe pronome oblíquo átono logo após vírgula. Ex.: "Mas a primeira parte se trocou por intervenção do Tio Cosme, que, ao ver a criança, disse-lhe entre outros carinhos..."

8) De acordo com o próprio verbo auxiliar da locução, empregado pelo gramático por último referido ("pode vir"), e pelo que se verifica do uso normal em textos que se subordinam ao padrão culto da língua, referendado por exemplos de autores abalizados e insuspeitos, o mais adequado é considerar que, em situações desse jaez, o pronome pode vir em uma de duas posições: ou em próclise, por observância da atração da palavra respectiva, ainda que remota, ou em ênclise, com base na realidade mais direta e palpável de que, objetivamente, não há, próxima, palavra alguma atrativa.

9) Bem por isso, o exemplo citado de Machado de Assis também poderia ter sido escrito na estrita conformidade com as normas das palavras atrativas — no caso um pronome relativo com ligação direta de sentido com o verbo e o pronome átono — em atração pronominal remota.

10) Assim, no caso, será também correto dizer: "Mas a primeira parte se trocou por intervenção do Tio Cosme, que, ao ver a criança, lhe disse entre outros carinhos..."

11) E, de modo bem prático, no caso da consulta que motivou estas considerações, estão corretos ambos os exemplos: a) "Contou-nos que, depois de tudo, o amava ainda"; b) "Contou-nos que, depois de tudo, amava-o ainda".

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Publicado originalmente em 30/09/2009.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.