Terça-feira, 23 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Questão de prova - Como resolver

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

dúvida do leitor

O leitor Wilker Machado envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Eis uma questão de prova:

'Observe o texto a seguir: 'Se meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles' - A. Stevenson. Sobre ele é correto declarar que:

A) A vírgula foi utilizada para separar a oração principal da coordenada.
B) Em "a meu respeito" e "a respeito deles", a inexistência da crase se justifica, uma vez que só existe a presença da preposição "a".
C) Se o termo "eu" fosse substituído por "nós", seria correto afirmar: Se nós paremos de dizer verdades a respeito deles.
D) O termo sublinhado "Se" no trecho se classifica como conjunção que encerra idéia de temporalidade.
E) O termo "deles" faz referencia ao termo "mentiras".

1) Peço por gentileza informar qual das alternativas é a correta. 2) Favor fazer uma análise das alternativas 'B' e 'D'. 3) Favor esclarecer ainda se o pronome 'meu' é uma palavra masculina ou feminina. Desde já agradeço. Atenciosamente"

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Questão de prova - Como resolver

1) Um leitor narra que, em uma questão de prova, encontrou o seguinte texto: "Se meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles". (A. Stevenson)

2) Também relata que, na questão, indagou-se qual a afirmação correta: A) A vírgula foi utilizada para separar a oração principal da coordenada. B) Em "a meu respeito" e "a respeito deles", a inexistência da crase se justifica, uma vez que só existe a presença da preposição "a". C) Se o termo "eu" fosse substituído por "nós", seria correto afirmar: Se nós paremos de dizer verdades a respeito deles. D) O termo sublinhado "se" no trecho se classifica como conjunção que encerra idéia de temporalidade. E) O termo "deles" faz referência ao termo "mentiras".

3) Com tais premissas, o leitor faz os seguintes pedidos: 1) Que se aponte qual das alternativas é a correta; 2) Que se analisem as alternativas "B" e "D". 3) Que se esclareça se o pronome "meu" é palavra masculina ou feminina.

4) Para melhor compreensão, faz-se a análise de todas as alternativas.

5) Primeira alternativa: "Se meus inimigos pararem..." é uma oração subordinada adverbial condicional, e "eu paro de dizer verdades..." é a oração principal. A vírgula, assim, separa uma oração principal de uma oração subordinada, e não de uma oração coordenada. Portanto, alternativa errada.

6) Segunda alternativa: Não basta a presença de uma preposição para existir a crase, já que esta é a fusão de uma preposição e de um outro a (artigo, pronome ou mesmo inicial de outro pronome). No caso, tanto meu respeito como respeito deles são expressões do masculino, e diante deste não há artigo feminino nem, portanto, crase. Assim, pode-se afirmar que a inexistência da crase, no contexto, se justifica, uma vez que só existe a presença da preposição "a". Alternativa correta.

7) Terceira alternativa: Pararem está no futuro do subjuntivo. É a terceira pessoa do plural (tem por sujeito meus inimigos). Se o sujeito for eu, a expressão será "Se eu parar"; se o sujeito for nós, a expressão será "Se nós pararmos". Não existe variação alguma de que resulte a conjugação: "Se nós paremos de dizer verdades a respeito deles". Mais uma vez, alternativa errada.

8) Quarta alternativa: "Se" é uma conjunção que indica a idéia de condição, e não de temporalidade. Para um sentido de tempo, deveria ser usada outra preposição (quando, por exemplo). Alternativa errada, portanto.

9) Quinta alternativa: Fazer referência significa indicar relação. Uma análise do sentido do texto revela que deles quer dizer dos meus inimigos. Além disso, no plano sintático, a respeito deles é expressão preposicionada que se vincula a verdades, e não mentiras. Mais uma alternativa errada.

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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.