Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

As nossas crianças e as outras

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Dias atrás, estava observando, durante uma reunião familiar, o carinho, a ternura, as preocupações que cercam as crianças, aquelas que já integram a grei e às que vão chegando. Então passei a meditar na absurda diferença existente entre as nossas crianças e as outras. As outras são as pobres, as desvalidas, as carentes de tudo, a começar de uma família estruturada, passando por alimentação, saúde, estudo, lazer e terminando com o afeto, os cuidados e as atenções que toda criança merece e que lhe preserva a inocência e lhe incute auto estima e estima pelos outros.

Verdadeira vergonha nacional, as crianças carentes e as abandonadas denotam a insensibilidade de uma parte considerável de nossa sociedade. Com certeza a questão da criança é o reflexo mais cruel do trágico desequilíbrio social existente no país.

Há alguns anos, um motorista, que com extraordinária perícia evitou atropelar um menino de rua, exclamou em seguida: "não há nada melhor do que criança, o Sr. não acha?" Pois é, eu acho, no entanto, parece que nem todos compartilham de tal opinião. A existência por si só de uma infância abandonada demonstra o pouco caso, o egoísmo, a indiferença de governos e da sociedade como um todo.

A questão não se circunscreve, no entanto, ao abandono material. Falta, na verdade, o afeto, o amor pela criança alheia, que dedicamos às nossas. Não me refiro, evidentemente, na mesma graduação e intensidade, falo sim, do afeto, do amor que um ser humano deve a outro e se exterioriza na forma de um afago, de um carinho, de uma atenção que seja.

A respeito, lembro-me de um episódio que muito me marcou. Perto de casa, diariamente, a menina se postava no mesmo farol. Vendia sempre os mesmos doces, enquanto carregava no colo o pequeno irmão. Minha mulher, também, diariamente, a cumprimentava e ambas conversavam durante o tempo em que o farol permanecia vermelho. Esses pouco instantes diários despertaram a afeição da motorista e a confiança da menina. Quando se encontravam, ela abria um largo e simpático sorriso, como querendo demonstrar a sua alegria por estar sendo alvo do interesse e da atenção de alguém. Parece pouco diante do muito a fazer, mas é muito diante do pouco que se tem feito.

As crianças das classes menos favorecidas, desde sempre, estão crescendo mal: desnutridas, abandonadas, sem afeto, sem saúde, sem educação, exploradas e convivendo com a violência dentro e fora do lar, quando há lar. Cresceram assim diante dos nossos olhos, e nós nada fizemos, a não ser clamar por punição para aqueles que se tornaram trombadinhas e precoces criminosos.

A verdade é que a sociedade, de um modo geral, só se preocupa com o menor porque ele está assaltando. Estivesse ele quieto debaixo das pontes e dos viadutos amargando as suas carências e os seus sofrimentos, continuariam esquecidos e excluídos.

E, essa preocupação com os menores que cometem infrações, ao invés de ser direcionada para as causas dessa conduta, procurando eliminá-las, limita-se à grita generalizada por punição, por castigo, de preferência por uma ação que os coloque longe dos nossos olhos.

Lembro-me que há alguns anos os jornais deram destaque à notícia de que a Praça da Sé estava voltando a ser o local aprazível de outrora. A providência tomada para isso foi afastar do marco zero da cidade todas as crianças que por lá perambulavam. As crianças estavam fora e isso bastava para que a Praça voltasse a ser nossa. Ela estava salva. Pouco importava a permanência dos marreteiros; dos pregadores da bíblia; dos comedores de faca e fogo; dos ciganos, especuladores do futuro; dos poetas repentistas; dos vendedores das saudáveis guloseimas. Até os trombadões permaneceram. Aliás, deve ter sido mais fácil remover os menores do que deter os parrudos trombadões. Apesar da freqüência garantida de todos esses habitues, o problema da Praça estava resolvido, pois os incômodos menores estavam fora.

Recorda-se que em determinada ocasião uma competente e zelosa autoridade embarcou dezenas de menores em vários ônibus e os levou para fora das fronteiras do Estado.

No Rio de Janeiro, a providência adotada teve caráter definitivo: as crianças foram mortas na Candelária.

Em Belo Horizonte, também há algum tempo, uma operação militar foi montada para tirar das ruas cerca de quinhentos menores. A imprensa exibiu fotos de crianças de até quatro anos, muitas com chupeta na boca, sendo colocadas em camburões pelos soldados da milícia mineira, que souberam respeitar as crianças deixando-as com as suas chupetas...

Parece que atualmente o objetivo de riscar as crianças carentes dos mapas urbanos já não está mais nos planos dos defensores das nossas urbes e da nossa incolumidade física. Chegou-se à conclusão que essa é uma providência inócua. As crianças retiradas daqui ou dali, passam a habitar lá ou acolá. Saem da Sé, vão para a Praça Ramos ou para a Praça República. Mortas na Candelária, renascem em Copacabana. Presas em Belo Horizonte, ressurgem em Confins. Lamentavelmente, em substituição a essas providências migratórias, nada absolutamente nada se tem feito, salvo uma ou outra ação isolada. Não há uma grande mobilização social, um plano governamental e nem mesmo promessas são ouvidas, sendo certo que as crianças não são mais lembradas sequer como instrumento de demagogia e de mentiras eleitorais.

Crônicas Absolvidas
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado.