Domingo, 15 de dezembro de 2019

ISSN 1983-392X

A amada rebelde

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Seu amor à vida era extraordinário. Doente cardíaca desde os dezoito anos, jamais se considerou incapacitada para atividades que normalmente não eram desempenhadas por cardíacos, algumas até especialmente proibidas pelos médicos. Estamos falando dos anos quarenta, cinquenta, época de escassos recursos cardiológicos. Ela possuía a válvula mitral obstruída, em razão de uma infecção das amídalas. Consta das crônicas familiares que minha avó, viúva e mãe de três filhos, não permitiu que ela fosse operada. A infecção causou-lhe uma estenose mitral, que, no entanto, não a impedia de fazer nada, absolutamente nada.

Tocava com perfeição violão e cantava, cantava muito bem. Meu irmão José Eduardo herdou o dom musical de mamãe. Eu, ao contrário, recebi o legado da desafinação de meu pai. Mamãe não se conformava com a minha limitação musical. Insistiu com o violão, com a sanfona e por fim como derradeira tentativa, tentou ensinar-me pandeiro. Tentativa também frustrada.

Os médicos lhe impuseram, no correr dos anos, várias proibições: tocar sanfona; guiar automóvel durante muito tempo; subir escada com frequência, enfim deveria evitar maiores esforços. Até bala de coco ela ficou impedida de fazer. E como eram maravilhosas as suas balas, tanto as de coco quanto as de café. Para quem não sabe, há esforço físico na confecção de balas de coco. Quando o doce fica pronto e no ponto, deve-se esticar ao máximo a massa para que ela se transforme em tiras, que depois serão cortadas para surgirem as balas. Ela teimava e não cumpria os preceitos proibitórios. Todos nós em casa, especialmente duas irmãs, Juracy e Judite, que durante anos e anos se revezaram trabalhando conosco, éramos seus cúmplices, co-autores de suas peraltices. Até o engraxate de uma barbearia de nossa rua colaborava com as extravagâncias de minha mãe. Ele entrava nos botequins das imediações e como se fosse para o seu consumo, comprava torresmo e sardinha frita, "iguarias" que ela adorava. Percebe-se que também em relação à alimentação ela não tinha nenhum cuidado.

Uma ocasião mandou o sofá da sala reformar. Ao devolvê-lo, o tapeceiro revelou uma descoberta, para ele muito preocupante: ao trocar o tecido encontrara uma dezena de pílulas de remédios, enfiados nas dobras do sofá, que ele supunha terem sido escondidas por mim. Mamãe recebeu e agradeceu a notícia com simulada preocupação, falou que adotaria providências e, na verdade, ficou exultante, pois a sua "arte", na verdade a sua rebeldia contra as prescrições médicas, não foi e nem seria descoberta, porque surgira o "culpado".

Da sua amada figura, não posso desassociar dois objetos: um violão e um automóvel da marca Nasch. O violão a acompanhou por toda a vida. Embora tocasse piano e acordeão, o violão foi o instrumento de sua preferência. Havia entre os dois, mamãe e o violão, uma permanente vinculação e as pessoas logo faziam uma associação de ideias: como vai sua mãe? Sempre alegre? Tocando muito violão? E, não raras vezes, diziam terem visto ou ouvido um violão e lembram-se dela. A identidade, na verdade, era a alegria que ela irradiava quando solicitada a tocar o instrumento. Violão é um instrumento alegre, tal como o pandeiro, a sanfona, a cuíca, o reco-reco. Todos instrumentos genuinamente representativos da música brasileira, e que contribuem para aproximar pessoas, constituir amizades, fazer nascer afetos. Em torno de um violão confraterniza-se, solidariza-se, ama-se.

O velho Nasch, um carro enorme, preto, com direção vermelha, estofado de couro e muito espaçoso era dirigido por ela em uma época escassa de mulheres ao volante. Não se limitava a utilizar o carro para seu transporte. Dava carona às amigas do bairro, onde o automóvel ainda era privilégio de poucos. Não raras vezes levava pessoas a médicos ou a outros locais de acesso urgente e difícil. Houve uma ocasião, memorável para todos os participantes, que minha mãe conduziu-nos a um campo de futebol localizado no Ibirapuera. Na verdade ela levou o time inteiro, onze meninos que o integravam. E mais, junto aos pés da motorista estava o material completo da equipe, incluindo a bola.

Durante toda a sua vida minha mãe foi rebelde às prescrições médicas. Pouco tempo antes de falecer fez uma viagem à Belo Horizonte de automóvel, para um casamento. Foi com minha mulher e com ela revezou-se na direção. Achamos estranho que o médico, querido amigo Geraldo Rocha Melo, houvesse permitido a longa viagem de carro. No entanto, ela garantira que estava autorizada a viajar. Indagado, o médico disse que em face da sua insistência minha mãe poderia viajar desde que fosse e voltasse de avião. Mais uma vez ela se rebelara e nos enganara.

Sua partida definitiva guardou coerência com a sua vida. Sempre viveu intensamente e morreu vivendo. Com efeito, faleceu quando estava jantando em um restaurante de Montevideo onde fora com parentes. Não sabemos se desta vez ela nos enganou ou não, pois não conferimos.

Crônicas Absolvidas
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado.