Terça-feira, 15 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Feijoada : comida dos escravos ?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sempre ouvi dizer que a nossa feijoada, um dos símbolos da cozinha pátria, era um prato composto por restos de comida aproveitados por escravos. Se tal versão fosse verdadeira nenhuma, rigorosamente nenhuma, importância teria. Obviamente o fato não retiraria a sua condição de grande iguaria. Apenas demonstraria que dos sofridos negros não haviam retirado a inata aptidão para a refinada arte da culinária.

Pois bem, mas essa versão fruto da nossa baixa estima, reflexo da arraigada mania de subestimar, minimizar e desvalorizar o que é nosso não encontra nenhuma sustentação histórica. Pura criação da elite ou da pseuda elite anti verde amarela.

Aliás, nunca se raciocinou a respeito dessa lenda que liga a feijoada aos negros, especificamente aos restos de suas refeições. Aceitou-se a versão não como lenda mas como verdade, sem se observar a sua impossibilidade material. Como se sabe a feijoada é composta de feijão preto e de uma grande variedade de carnes. Ora, é difícil se crer que sobrasse comida suficiente para a elaboração de um outro prato.

Os escravos comiam feijão é bem verdade, mas feijão bichado. Claro que havia variações alimentares de região para região do país, assim como de proprietário para proprietário, dependendo do seu grau de humanidade.

Em verdade, como bem realçou Gabriel Bolaffi no livro "A Saga da Comida", a crença de que a feijoada fosse um prato de escravos é inverossímel. Segundo ele, em primeiro lugar não há registro nesse sentido em nenhuma obra sobre a Colônia ou sobre o Império. Por outro lado, é improvável que nas fazendas, boa parte delas contando com várias dezenas de escravos, houvesse condições de se fornecer carnes em quantidade suficiente para o preparo da feijoada que a todos alimentasse. Diz o autor: "imagine quanto lombo e quantos pernis a casa-grande teria de consumir para que duas orelhas,quatro patas, um focinho e um rabo, alimentassem tanto escravo. Nem que fosse uma feijoada muito rala."

O mesmo autor acredita que a feijoada tenha surgido como um prato da preferência dos operários e dos trabalhadores mais pobres dos centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda hoje, em um dia específico da semana, quarta feira, comerciários, bancários, industriários, funcionários públicos e tantos outros trabalhadores tem nos bares e restaurantes mais populares à sua disposição o saboroso prato. No entanto, não são apenas eles que cultivam o hábito da feijoada, pois as classes mais privilegiadas também o fazem, geralmente aos sábados. Não se esqueça que ela constitui o prato símbolo da nossa culinária, e como tal é um instrumento de relacionamento, de união, de comemoração, enfim um símbolo de cordialidade, de brasilidade.

Não há uma explicação razoável, racional para a existência dessa idéia quanto à origem da feijoada. Pode-se no entanto atribui-la a mania nacional de desprestigiar os nossos hábitos, costumes, modo de ser, nossa cultura enfim. Relegando o nosso prato símbolo à comida de escravos se pretendeu mostrar que até na culinária a nossa capacidade é reduzida, atrofiada, minguada, pois ele era composto de restos de comida indesejada pelas classes dominantes e como tal poderia ser cedida aos escravos.

E, falando em feijoada não se pode esquecer da brasileiríssima caipirinha. Também ela e a sua matéria prima, a não menos verde e amarela cachaça, sempre receberam das elites um inescondível desprezo. O desprezo era às claras, mas às escondidas elas eram ingeridas, pelos componentes das elites envergonhadas. Só depois de muitos séculos, a cachaça passou a ter algum espaço e isso porque passou a ser apreciada por estrangeiros. Hoje se importa cachaça em volumes razoáveis. Precisou o estrangeiro gostar para que nos, embora ainda timidamente, assumíssemos a nossa aguardente. Resta saber quando nos assumiremos como nação orgulhosa de si.

Crônicas Absolvidas
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado.