Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Soccer or Not Soccer?

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A poesia está nos fatos, diz Oswald de Andrade. Se “casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos”, também são expressões poéticas.

A defesa de uma estética brasileira, não apenas na poesia, mas nas demais formas de manifestações artísticas, pressupõe, metaforicamente, o resgate do “gavião de penacho”, ou seja, o resgate de elementos que antecedem a imposição de uma cultura europeia, eminentemente branca e, de certo modo, aristocrática. Esse chamado vem desde o Manifesto da Poesia Pau-Brasil.

Ali se invoca, aliás, uma ruptura com o que não somos, como forma de resgate do que deixamos de ser, em decorrência do processo de democratização (ou padronização) estética das gentes.

Essas proposições reaparecem, com maior simbologia, no Manifesto Antropófago: “só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”. A ingestão de ícones europeus, formadores da boa cultura brasileira, como significante do ato antropofágico necessário à formação de uma nova sociedade, não significa, no entanto, uma declaração denegatória.

A apropriação é inevitável; e não é, necessariamente, daninha. O desafio consiste na preservação do ser, sem negação da própria natureza, mas, ao mesmo tempo, enriquecendo-o de elementos pertinentes.

O exercício de autoconhecimento se renova em momentos de fissura social, e não se realiza sem trauma. É comum, aliás, que agrupe representantes das diversas áreas do conhecimento, que experimentam concepções teóricas em seus campos de influência.

O que choca, no Brasil, é a histórica ausência de um profundo e construtivo debate sobre a verdadeira natureza do futebol. Mais do que isso: o distanciamento de seus agentes (isto é, de agentes inseridos no mundo futebolístico) dos debates formadores do substrato institucional e cultural. A explicação para esse estado de coisas é desoladora: a inteligência despreza o futebol, e os donos do futebol incentivam, como forma de autopreservação, o desprezo da inteligência.

Oswald de Andrade apresenta o Carnaval, no Rio, como o acontecimento religioso da raça. O futebol, à época, ainda não se firmara no país e era, com alguma razão, identificado como mais uma interferência alienígena. Não à toa que Macunaíma, de Mario de Andrade, irá entreter uma relação pouco amigável com o esporte.

Porém, a metáfora carnavalesca se apequena diante da grandiosidade do processo antropofágico ocorrido no futebol brasileiro. Aí está, aliás, a materialização da utopia oswaldiana: um produto genuíno e superior, expelido a partir da apropriação de referências dominantes.

Foi sob essa força antropofágica que o futebol se tornou a mais intensa manifestação artística do brasileiro – e da humanidade –, capaz de reunir, em um simples movimento físico, todas – e não menos do que todas – as ditas grandes artes.

A absorção dos princípios antropofágicos, no futebol do Brasil, foi absoluta até 1982: uma ode “contra o gabinetismo, a prática culta da vida (…) A contribuição milionária a todos os erros. Como falamos [ou como jogamos]. Como somos”. Foi nesse ano, no entanto, que se iniciou o processo antropofágico inverso, de consumação do produto brasileiro e de construção de vários produtos (ou escolas), arquitetados para rivalizar ou se sobrepor ao futebol-arte tupiniquim.

Mesmo após a titânica batalha de Sarriá, que se compara, no plano poético, à guerra de troia, ou, no plano das gentes, a Waterloo, o brasileiro ainda nega sua grande vocação: alienista, para uns, inútil, para outros, e simples diversão, para maioria.

Não é isso, definitivamente, do que se trata.

Talvez ainda em fase embrionária na década de 1920, para merecer a adequada atenção dos modernistas, mas, certamente, próximo do cume, durante o tropicalismo, o futebol passou ao largo de todos os debates fundamentais da sociedade desde a sua introdução. Sua natureza aparentemente simplória e a construção de uma narrativa elitizada talvez justifiquem a falta de interesse dos grupos detentores do poder – aqui referidos sob a perspectiva de Max Weber, de que poder significa a probabilidade de imposição de vontade numa relação social, mesmo contra resistências, de modo que não se associa a detenção de poder, necessariamente, à dominação econômica.

Atribuir a responsabilidade a intelectuais, artistas e jornalistas, apesar de sua parcela de culpa, é uma solução comodista. A origem é mais grave e sua evolução oportunista: em primeiro lugar, a mencionada afirmação do futebol como manifestação popular e via de escape do casebre de açafrão, belo (apenas) aos olhos de quem o intelectualiza; em segundo, a sua utilização demagógica por governantes despreocupados com as gentes – mais do que isso, que o instrumentalizam como forma de intensificação do apartheid social e racial; e, em terceiro, o laxismo Estatal, que compactua e, em muitos caso, se confunde com uma classe cartolarial, que se apodera, ilegitimamente, dos clubes de prática do futebol.

Nem mesmo o ex-Presidente Lula, o único brasileiro que poderia ter tentado, pelas vias democráticas, impor – ou propor – uma verdadeira transformação estrutural da sociedade, enfrentou a questão. Também ele, um notório aficionado, manteve uma relação ora puramente afetiva, renegando a importância econômica e social do futebol, ora publicitária, apresentando mudanças cosméticas como soluções definitivas.

Enfim, o modernismo é reflexo de um processo de insubordinação com cânones conservadores, mas não deixa de ser fruto de um dilema elitista, sob a perspectiva estética. E essa será a raiz dos movimentos que o sucederão, o que, por si só, não denota um problema ético ou moral. O verdadeiro problema é o distanciamento dos reais (e mundanos) dilemas da sociedade.

Tupi or not tupi, declamou Oswald de Andrade, como forma de apropriação de um dos grandes ícones europeus – Shakespeare –, em notável processo de antropofagia literária. Passados quase 100 anos, a exclamação mantém relevância apenas retórica. O tupi carrega smartphone (assim mesmo, sem a grafia em itálico), se comunica por mídias sociais e assiste aos jogos do Barça – também assim, no diminutivo, substituindo ou rivalizando com a relação afetiva outrora exclusivamente dirigida aos times nacionais.

Soccer or not soccer, essa é a nossa questão!

Questão, aliás, emergencial, pois, além do esgarçamento como meio de transformação social e econômica, o futebol no Brasil vem sendo submetido a um brutal processo de soccerização, que o tornará pequeno e irrelevante: um gavião de penacho pré-modernista.

Futebol e Governança
Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório r. monteiro de castro advogados.