Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

A elitização do futebol mundial

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O projeto de elitização do futebol não é novo. O processo, aliás, está em curso, e o ritmo cada vez mais acelerado. Apesar da tentativa de o empacotar como uma consequência dos tempos modernos, uma coisa não se confunde com a outra. O futebol pode ser moderno e democrático ao mesmo tempo.

Os efeitos no Brasil passaram a ser sentidos, com maior intensidade, após a Copa do Mundo de 2014. Estádios de concreto, desconfortáveis e ultrapassados, foram substituídos pelas arenas desalmadas. A falta de alma não decorre da modernização, mas da forma e do propósito com que se operou a substituição, e do incentivo ao processo de exclusão. O suposto conforto, portanto, não é o problema.

A adoção de padrões idealizados, para atender às necessidades efêmeras de um evento irresponsável, deixou marcas (ou cicatrizes) indeléveis. A principal delas é o divórcio com as bases das torcidas.

Restaram, portanto, cicatrizes urbanas, desprezadas e incompreendidas. O Maracanã é o principal símbolo desse processo. A mística que lhe sobra advém do passado, do que foi e do que ali se protagonizou. O torcedor, de modo geral, deixou de se identificar com aquele símbolo – assim como tem deixado de se identificar com o futebol brasileiro.

Corinthians e Palmeiras passam pelo mesmo processo, mas o conduzem de outra forma. Não há dúvida de que também se tornam, a cada dia, mais elitistas. Isso se nota pelas características dos torcedores, capturados pelas câmaras de televisão. Porém, aproveitam a inevitabilidade do curso da história para se afirmarem.

E aí está a chave para o futuro (ou para preservação): a afirmação e o protagonismo locais, como passaporte para participação de uma aglutinação internacional.

Os caminhos de ambos os times paulistas são distintos, porém, similares na vulnerabilidade. O trajeto pode ser abalado pela falta de recursos ou pela ausência de um (ou mais) mecenas. Eles dificilmente resistem, pois, ao enfrentamento contra pares capitalizados e estruturados para ocuparem postos dominantes.

Essa característica comum justifica o distanciamento entre o futebol brasileiro e o europeu. Não há, pois, como competir sem que se parta de uma base sólida.

A falta de competividade pode começar a ser testada, sistematicamente, com a implementação de um campeonato mundial de clubes, aparentemente sugerido por um grupo de investidores internacionais, que pretende explorar esse formato.

A sua eventual confirmação irá desnudar um problema estrutural, que vem sendo camuflado pelo sucesso individual de mercadorias exportadas. Afinal, os jogadores brasileiros distribuídos entre os principais times europeus emprestam a ideia de que o futebol, por aqui, ainda é forte.

A força, no entanto, vem dos investimentos e da preparação a que se submetem no exterior; lá chegam como commodities e são transformados em preciosidades. Esse processo beneficia, paralelamente, a CBF, que monta poderosas seleções e oferece a sensação de higidez futebolística.

Com o surgimento dessa Copa de Times, o hiato se evidenciará. Para concorrer com os grandes times internacionais, ou, ao menos, para montar elencos que não deixem uma sensação vexatória, os clubes locais terão de investir. Porém, suas estruturas jurídicas não permitem a captação de recursos no mercado. Restarão os mesmos instrumentos de sempre: mecenato, antecipação de receitas, subsidio estatal etc.

Tais instrumentos, no entanto, são insuficientes para todos; daí, aliás, a crise sistêmica do futebol local. O caminho será a definição de poucos times que receberão os favores ou a simpatia do status quo, para representar ou justificar a posição de protagonismo que, exceto pela seleção, não existe mais.

O resultado parece óbvio: a elitização do futebol, com o incentivo ao surgimento de pouquíssimas potências locais, que dominarão o cenário nacional e tentarão competir no internacional.

O atual elenco do Palmeiras e a estrutura do Corinthians já demonstram que, num ambiente estéril, um palmo de fertilidade cria um hiato quase insuperável. Com a expansão da área fértil, se criará, ainda, um sistema irreversível de castas.

Assim, além da elitização do campo, se projetará uma nova e reduzida elite clubística, num país que, sozinho, poderia ter uma liga comparável à europeia.

Futebol e Governança
Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório r. monteiro de castro advogados.