Quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

O saldo (e o salto) do palmeiras campeão

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Savério Orlandi

O Palmeiras alcança o final da temporada de 2018 com expressivo saldo esportivo e financeiro, figurando, além do vice campeonato paulista e das semifinais da Copa do Brasil e da Taça Libertadores da América, como legítimo campeão brasileiro, dono de uma marca valiosa e de um resultado econômico exuberante, um time forte, um clube badalado, uma patrocinadora celebridade e, sobretudo, um futuro promissor.

Na conquista esportiva, sem margem de dúvida, crédito ao numeroso e qualificado elenco, bem como ao comando de Luiz Felipe Scolari, que teve como maior mérito desde sua chegada fazer com que toda a sua banda, nela incluída jogadores, diretoria, staff e colaboradores em geral, tocassem "em uma nota só", conduzindo-a assim à quebra de recordes, tabus e, no final, ao merecido título brasileiro.

É incrível, e também diga-se inequívoco, o gigantesco progresso do Palmeiras em um processo que conta com pouco mais de 5 anos, que teve origem na Série B no ano de 2013 até sua plena validação com o título conquistado em São Januário, passando pelo início da operação de sua Arena, pela alavancagem e consolidação do seu programa de sócio torcedor, pelo aprimoramento de sua estrutura física de apoio, pela montagem de elencos competitivos, aportes de patrocínio, além do elogiável saneamento financeiro levado a efeito, circunstâncias que fizeram com que o clube, que sequer aderiu ao PROFUT, galgasse protagonismo no futebol brasileiro nestes últimos quatro anos com marcas e títulos conquistados, indicando neste instante sinais evidentes de que esta realidade dificilmente será abalada nos próximos anos.

Justiça seja feita, boa parte da condição atualmente experimentada deve-se à exitosa gestão do ex-mandatário Paulo Nobre, que com notória tenacidade e envolvimento direto e pessoal, inclusive financeiro, foi responsável por enorme e consistente processo de transformação do clube pavimentando o caminho que é trilhado atualmente, tendo ao final do seu ciclo, por melindres pessoais intransponíveis, lamentavelmente optado por se afastar, abdicando até mesmo de exercer a liderança para a qual se forjou.

Coube então ao atual mandatário Maurício Galiotte, ainda que diante das intempéries políticas incidentes desde o início do seu mandato, dar continuidade aos avanços e ao próspero caminho alinhavado, dando sequência e fortalecendo todos os fundamentos esportivos e econômicos, responsáveis pela pujança hoje evidenciada pelo clube em seus mais variados aspectos componentes.

Agora em seu novo mandato e totalmente desvinculado dos laços e forças que o elegeram para o mandato primitivo, desta feita ao lado de equipe da sua livre escolha, o desafio do Presidente é administrar o clube com o mais elevado critério e uma dose equilibrada de ousadia e responsabilidade para executar o portentoso orçamento anual da ordem de 600 milhões de reais, perenizando a sustentabilidade financeira através não só da manutenção, como do incremento das suas variadas receitas, zelando para que a multifacetada patrocinadora mantenha sua participação e valiosa contribuição sem que isso implique em ingerência indevida, transgressão de normas estatutárias e/ou violação de comportamentos éticos através da utilização dos seus diversos "chapéus", e também controlando os arroubos perdulários e midiáticos de seu capaz executivo na condução do departamento de futebol.

E também ter a sagacidade, e antes de tudo o próprio respeito, de se relacionar e ouvir os grupos contrários às suas opiniões, a quem se recomenda, além da coesão em torno de um novo líder diante da lacuna deixada pelo mandatário antecessor, atuação que seja construtiva, em especial, propositiva, sempre no estrito interesse do clube.

Pois bem. Como vemos, a "parte do campo", com base nos vários indicativos favoráveis, está resolvida; o clube tem um elenco recheado, que se fortalece a cada ano através de novas contratações, se renova através da categoria de base cada mais vez estruturada e vencedora, e conta com o trabalho de uma equipe de suporte bem dimensionada e bastante capacitada ao desempenho de suas multidisciplinares funções, o que cria o ambiente propício à sua consolidação esportiva como protagonista e manutenção do espírito competitivo necessário às desejadas futuras conquistas, razão de ser do futebol.

Mas não é só! O Palmeiras, hoje, essencialmente é um clube apto ao alcance de outros patamares, talvez o que no momento reúna e seja detentor das maiores credenciais ao caminho da "europerização" da sua existência, criando paradigmas que tragam a reboque outros clubes e o futebol brasileiro como um todo.

Deve, para tanto, reforçar os alicerces e criar os mecanismos pertinentes, modernizando de forma definitiva seu Estatuto, objeto de alterações por conveniência nos últimos anos que não se preocuparam com finalidades precípuas e contaminaram sua sistematização, formatando estudo de viabilidade da separação dos ativos relacionados à atividade do futebol do clube social, definindo modelos de governança, enfim, preparando o clube para um futuro e grande salto, quiça ancorado na normatização a ser conferida pela Lei da Sociedade Anônima do Futebol -SAF atualmente em tramitação no Parlamento, que dará o suporte legal necessário ao fomento econômico e social dos agentes envolvidos no esporte, criando o ambiente mercadológico propício à transformação da realidade atual observada nos deficitários clubes e da própria atividade futebolística no Brasil.

O que se dirá do Palmeiras, daqui alguns anos, se capaz de transacionar ações em mercado aberto, de criar novos canais de investimento através de fundos, de permitir à sua imensa coletividade participação efetiva, inclusive em resultados, de se cotizar e incorporar integralmente os negócios da sua Arena através de operação que envolva a aquisição dos direitos hoje titulados pelo seu parceiro construtor, de gerar lucro, de distribuir dividendos... O voo é possível; o sonho, infinito!

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Savério Orlandi é sócio filiado e consultor jurídico da ABEX (Associação Brasileira dos Executivos de Futebol). Membro Vitalício do Conselho Deliberativo, Membro Efetivo do Conselho de Orientação e Fiscalização e ex-diretor de Futebol Profissional 07/10 da Sociedade Esportiva Palmeiras. Pós-graduado em Direito Empresarial pela PUC/SP, onde também se graduou. Sócio de CHBS Advogados.

Futebol e Governança
Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório r. monteiro de castro advogados.