Segunda-feira, 16 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Você nunca caminhará só – mesmo que tenha dono

quarta-feira, 15 de maio de 2019

A arcaica estrutura do futebol brasileiro, mantida pelo dogma de que se trata de um bem inalienável, a ser protegido pelos clubes associativos, explica, em grande parte, o desnível em relação ao futebol europeu.

Falar de futebol europeu, de modo generalizado, exige algum cuidado, pois, ali, se admira, na verdade, o futebol mundial. Todos os times minimamente importantes contam com jogadores estrangeiros e formam, de acordo com as suas condições financeiras, espécies de seleções. Mas eles têm outro elemento comum (em sua grande maioria): a substituição do modelo de propriedade da atividade futebolística, que se deslocou dos clubes para empresas.

O início do processo, por lá, também teve seus traumas. A percepção de que "time é coisa coletiva, não mercadoria de um torcedor só, ou de dois", conforme as palavras de João Moreira Salles, não é um fenômeno apenas brasileiro. A diferença é que ela (a percepção) foi superada e o dogma deu lugar ao que se pode chamar de modernidade.

Aliás, a percepção, de certo modo ingênua a respeito da natureza da propriedade do futebol, revelada na afirmação de João Moreira Salles, turva a compreensão da realidade: os times, no Brasil, não pertencem aos torcedores – ou ao povo. Ao contrário, há décadas estão todos, com raríssimas exceções, sequestrados por uma casta que, justamente ela, resiste à abertura e se beneficia com a transformação do jogador de bola em commodity.

Essa é, infelizmente, a função atual do País no cenário do futebol: exportador de matéria-prima para transformação em produto de ponta. Essa inversão histórica gera outro efeito perverso: a importação do produto estrangeiro, de qualidade muito superior.

A qualidade está necessária e definitivamente vinculada à captação e à geração de recursos para financiamento da empresa futebolística (nela incluídos todos os seus elementos, como jogadores, time, arena, uniformes etc).

O AFC Ajax, por exemplo, um dos semifinalistas da liga dos campeões, é uma companhia cujas ações são negociadas em bolsa de valores (Euronext). A composição do capital, conforme informações públicas, é a seguinte1:

Vereniging AFC Ajax  13,383,332  73.0% 
NN Investment Partners BV  970,123  5.29% 
Invesco Asset Management Ltd.  914,834  4.99% 
Richard Strating  551,667 3.01% 
I E Strating  551,667  3.01%
Fischedick Monique Catharina Maria Strating-schulte  551,666  3.01% 
Dimensional Fund Advisors LP  14,571  0.080% 

O Tottenham Hotspur Limited, um dos finalistas da liga, também é uma companhia, controlada por outra empresa, denominada Enic International Limited. A Enic detém 85,55% do capital do Tottenham. Já o capital da Enic é detido por Joe Lewis (70,6%) e por Daniel Levy e certos membros de sua família (29,4%). Daniel Levy exerce, também, a função de "presidente"2.

O outro finalista da liga, o Liverpool Football Club and Athletic Grounds limited, não foge à regra: é uma empresa, controlada pelo Fenway Sports Group. Detêm participações no grupo controlador uma série de investidores, dentre os quais John Henry, Tom Werner e Mike Gordon (que integram, também, a administração)3.

O fato desses times terem donos não abalou a paixão e a fidelidade dos torcedores. Em certos casos, ao contrário, times sem tradição ou perspectiva de conquistas, tornaram-se super potências. O maior exemplo é o Manchester City.

Vendido em 2008 ao Abu Dhabi United Group, deixou o papel de coadjuvante no passado e se tornou um dos principais protagonistas do futebol inglês (e mundial): levando-se em conta apenas os campeonatos realizados desde 1998, após nenhum título nas temporadas de 1998/1999 a 2010/2011, venceu 4 vezes nas temporadas de 2011/2012 a 2018/2019, sendo o atual bicampeão da premier league.

Aparentemente, os torcedores desses times não os abandonaram pelo fato de terem donos. O orgulho, ao que parece, nunca foi tão intenso. Eles jamais deixaram seus times caminharem sós.

Enquanto isso, no Brasil, ainda se luta a guerra do convencimento de que a regulação do novo mercado do futebol, para viabilizar a atração de investimentos, não implicará um ato de entreguismo.

Pobre Brasil.

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1 MarketScreener.

2 Shareholder Information.

3 Liverpool.

Futebol e Governança
Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório r. monteiro de castro advogados.