Quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 2 de março de 2010

Política & Economia NA REAL n° 90

Um Meirelles maquiavélico ?

Num dia o BC elevou os depósitos compulsórios aos mesmos níveis existentes antes da crise financeira de 2008. A decisão, embora o BC se apressasse em dizer que não era o caso, foi interpretada como uma maneira da instituição de elevar o custo do dinheiro e conter o consumo para não ter de apelar, daqui a 15 dias, para o simples aumento da taxa de juros. Em seguida, possivelmente preocupado com esta interpretação e as ilações políticas que dela podem ser tiradas, o presidente do BC veio duas vezes avisar que a casa que ele dirige só toma decisões técnicas, não se deixa levar pelas circunstâncias eleitorais. Imediatamente, o mesmo mercado pragmático, que leu na história dos compulsórios sinais de estagnação da Selic, passou a ler na fala de Meirelles indicações seguras de que o Copom vai começar a escalada dos juros agora, de uma vez.

A elevação do IPCA reforçaria esta tese

Mas quem lê – e esta leitura precisa ser feita hoje com mais frequência – os balões de ensaio brasilienses em épocas de disputas de votos entendeu que Meirelles estava mais justificando a manutenção da Selic nos atuais 8,75% do que indicando que vai lutar por sua elevação. Meirelles quis preparar o setor financeiro, praticamente todo ele convencido de que é urgente um aperto monetário para não deixar a inflação vazar, para evitar que interpretações políticas façam turbulências. O governo não quer de modo algum aumento da Selic, nada de turbulências no céu de brigadeiro em que navega a candidatura de Dilma. As pressões sobre o BC no sentido de não fazer marolas são fortes demais e Meirelles está para mostrar que o BC não se rendeu, apenas decidiu tecnicamente.

Alta dos juros entre os emergentes

Os riscos para a recuperação das economias emergentes, dentre as quais a brasileira, estão aumentando. Além disto, é possível que existam quedas bruscas nos mercados acionários do Brasil, China, Índia, Turquia e Rússia. Em diferentes graus, todos estes países consideram elevar a taxa de juros básica para conter desequilíbrios fiscais e de inflação. Dados obtidos com fundos de investimentos dão evidência de que as vendas de ativos destes países começam a fervilhar. Recomendamos muita atenção dos investidores para este fato.

Lula, a economia e Meirelles

Lula está convencido de que a eleição de Dilma é coisa certa e atribui seu sucesso ao excelente ambiente econômico em que o país vive. E não quer brincar de reduzir substancialmente o consumo, o paraíso da "nova" classe média na qual quer ancorar o bardo eleitoral da ministra chefe da Casa Civil. Como aprendiz de político, Meirelles está se saindo melhor que a encomenda. Conferir o "maquiavelismo" goiano em duas semanas no Copom e, posteriormente, até o dia 3/4 quando o presidente do BC terá de deixar o cargo se quiser seguir sua carreira política tardiamente iniciada em 2002, e prematuramente suspensa no mesmo ano quando trocou o tucanato e a Câmara dos Deputados pelo BC e uma convivência quase nunca cordial com o PT.

Um Meirelles indeciso ?

A bolsa de apostas a respeito do destino do presidente do BC, que até recentemente pendia para a volta ao campo eleitoral, passou nos últimos meses a ficar dividida entre esta opção e uma permanência no cargo atual, a pedido de Lula. Agora, com a divulgação da pesquisa DataFolha, dando uma diferença de apenas 4 pontos percentuais entre Dilma e Serra, o pêndulo de especulações a respeito de Meirelles volta a optar pela carreira política. Simples a interpretação : Dilma, com as pernas de Lula, parece dispensar outras pernas e, portanto, estaria livre para impor suas - e de Lula - opções. Poderá dizer ao PMDB o que todo mundo sabe que ele e ela desejam : não querem Michel Temer de vice, querem Meirelles.

Radar NA REAL

26/2/10

TENDÊNCIA

SEGMENTO Cotação

Curto prazo

Médio Prazo

Juros ¹

- Pré-fixados NA

alta

alta

- Pós-Fixados NA

alta

alta

Câmbio ²

- EURO 1,3532

estável/queda

estável/baixa

- REAL 1,8010

estável/baixa

estável/baixa

Mercado Acionário

- Ibovespa 65.821,04

estável/queda

estável/alta

- S&P 500 1.102,94

estável

alta

- NASDAQ 2.234,22

estável

alta

(1) – Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) – Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Os labirintos do PMDB e de Ciro

A ascensão de Dilma nas pesquisas – não foi inesperada, mas foi inusitada pela velocidade – tornou dispensável, na interpretação de gente do staff de Dilma e do PT de um modo geral, certas concessões que eles estavam dispostos a fazer ao PMDB e a Ciro Gomes para tê-los de corpo e alma na campanha da predileta. Julga-se que, de agora em diante, as cartas são todas de Lula e quem quiser vai ter de aceitar as normas do presidente. O PT assanha-se nos Estados para não ficar mais à mercê dos peemedebistas. Dizem poucas vozes mais cautelosas no mundo oficial que é preciso, porém, não tripudiar demais com os parceiros. Ciro é um vulcão "mercurial" e o PMDB é franco atirador que, acuado, pode fazer barulho. Muito barulho.

Potes de mágoa

É muito maior do que se imagina a irritação no governismo, com a ação do ex-ministro da Integração Nacional. Ao que se diz, ao contrário do que ele mesmo diz, Ciro não está pensando no que é melhor para o presidente Lula e seus planos, mas apenas em si próprio. A última entrevista do deputado cearense em sua terra natal, em que insinuou que há corrupção no governo Lula e voltou a atacar pesadamente a aliança do PT com o PMDB foi explosiva. Além do mais, ninguém vai perdoá-lo por deixar o PT paulista sem ação, pois um dia diz que não vai disputar a sucessão de Serra para no outro insinuar que pode correr em São Paulo.

Ilusões tucanas I

Eis uma ilusão : a interpretação dos tucanos e dos companheiros de oposição do PSDB de que o crescimento da ministra Dilma nas pesquisas e a estagnação - com ligeira baixa - de José Serra nas preferências do eleitorado no momento é fruto exclusivo da superexposição da candidata oficial e do retraimento do governador paulista, ainda fingindo não ser candidato. Os números de Dilma podem até refletir o pensamento tucano, mas o crescimento de Dilma é continuado e consistente, e reflete, como foi dito em outra nota acima, o ambiente econômico e a popularidade de Lula. Está havendo em número maior do que se imaginava possível nesta altura, a transferência de votos de Lula para Dilma. Prova disso é que ainda é alto o desconhecimento que tem o eleitor pesquisado pelo DataFolha da candidata. Estamos vendo o fenômeno "muié do Lula" como se referem eleitores de baixa renda no nordeste à candidata do presidente.

Ilusões tucanas II

O bloco da oposição acredita que ganhou o argumento definitivo para convencer o governador Aécio Neves a aceitar a vaga de vice na chapa de José Serra. Com o crescimento de Dilma, o governador mineiro seria decisivo na disputa e, na outra ponta, libera o governo para atacar a liderança dele, Aécio, em Minas sem constrangimentos.

Candidatos e a economia

Não adianta escrever programas e compêndio de intenções econômicas para tentar se posicionar perante a população e os agentes econômicos mais bem posicionados para dar uma feição ideológica às suas candidaturas presidenciais. Esta será uma eleição absolutamente pragmática no que tange ao tema econômico. O que a população quer saber dos candidatos é a sua visão em relação à sustentação do crescimento econômico e do emprego, bem como a administração dos benefícios sociais. Lula foi visto no passado como incapaz de gerir a economia. Já se sabe que a sua gestão foi obediente aos bons preceitos básicos da gestão econômica. O eleitor aprendeu desde a redemocratização que eleição e governo são coisas bem diferentes. Portanto, programa econômico não quer dizer nada. O que vale é a credibilidade daquilo que se propõe e é visto como verdadeiro. Isto dependerá muito do carisma dos candidatos. Tanto Dilma quanto Serra não têm carisma popular e é nisto que reside os seus riscos, digamos, econômicos.

O exemplo da Grécia

Todos sabiam que a Grécia, um dos países fundadores da UE, estava com endividamento acima do PIB quando a crise financeira eclodiu no 2º semestre de 2008. De lá para cá, o país exerceu um estímulo fiscal que agravou os seus problemas de endividamento. Hoje a dívida per capita da Grécia é da ordem de US$ 23 por habitante, mais de 30% maior que Portugal, Espanha e Itália e o dobro dos EUA. Apesar destes números, uma coisa é certa : a derrocada do padrão de crédito da Grécia se deve à ação dos especuladores financeiros, os mesmos que já agem desde a crise mexicana, asiática, russa, brasileira, etc. nos anos 90 e início desta década. Assim sendo, a crise grega é sinal de que nada foi feito para se alterar as condições para que este tipo de investidores possa agir. Mais uma evidência de que o FMI e os órgãos multilaterais continuam à espera de reformas – isto não é exclusividade da Grécia.

A vez da Inglaterra

A libra inglesa está sob forte ataque dos especuladores. Assim, atingiu o menor patamar dos últimos dez meses. O fundamento é que o déficit fiscal inglês é insustentável, coisa que até os botões do paletó do primeiro-ministro inglês Gordon Brown sabem. De outro lado, os dados das posições na Bolsa de Chicago mostram que o posicionamento dos investidores especulativos contra a Libra é gigantesco. Eis mais uma evidência de que nada mudou no mundo em relação à especulação.

Portugal, Espanha e Itália

Não será surpreendente se estes outros países da "zona do euro" forem as próximas vítimas dos ataques especulativos. Resta saber se a UE, centro das críticas ao formato especulativo do mercado financeiro internacional haverá de agir e impor perdas aos especuladores.

Chile, a crise e o terremoto

O Chile terá muitas dificuldades para reconstruir o país do terremoto no momento em que a economia ainda está muito contida em função da crise internacional que devastou os preços de seus produtos primários, especialmente o cobre. Talvez o crescimento deste ano seja próximo de zero depois desta tragédia. A estreia do novo presidente direitista será dolorosa no governo.

Os vizinhos brasileiros

O Brasil pode crescer entre 5 e 6% este ano, mas é uma ilha cercada de baixo crescimento por todos os lados. Argentina, Venezuela, Paraguai, Chile e Bolívia devem crescer muito pouco, ou até mesmo cair em termos de PIB neste ano. O presidente Lula está fazendo um esforço diplomático substantivo na região nos últimos tempos, mas o fato é que o MERCOSUL patina e os acordos comerciais de pouco servem no curto prazo ao comércio na região.

O malabarista americano

Ben Bernanke conseguiu acalmar os investidores com o seu depoimento semi-anual junto ao Congresso norte-americano. O presidente do Fed conseguiu encontrar argumentos para justificar a equação que combina taxas de juros próximas de zero e o preocupante déficit fiscal cuja repercussão ao longo dos próximos anos deve ser significativa. A crise do euro, e agora da libra, tiram um pouco a pressão sobre o presidente do Fed. Afinal, um dólar mais forte perante estas moedas encarece o investimento nos EUA, bem como dificulta as exportações, mas de outro lado, facilita a política anti-inflacionária em função do barateamento das importações.

Telebrás em alta

As altas das ações da Telebrás não são novidade. Desde o primeiro mandado de Lula, as especulações em torno da empresa são enormes e com repercussões objetivas nas cotações de suas ações no mercado. Há histórico e razões para investigar o assunto e, convenhamos, não faltam dados para punir se houver algo errado em tudo isto. A CVM e o próprio Judiciário têm os elementos para fazer o necessário em relação ao tema.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.