Quarta-feira, 13 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 4 de maio de 2010

Política & Economia NA REAL n° 99


Grécia : problema estrutural, agravamento conjuntural

A Grécia está endividada e há anos necessitava de ajustes do ponto de vista fiscal. É fato. Todavia, o agravamento de sua situação deveu-se a dois fatores essencialmente conjunturais : (i) a crise internacional que fez com que os dispêndios governamentais aumentassem para socorrer o seu sistema financeiro e (ii) o ataque especulativo da parte de fundos e posições próprias dos bancos, crescente nos últimos meses, que inviabilizou a rolagem de suas dívidas a custos razoáveis.

A desunião Europeia

O pacote de 110 bilhões de euros para viabilizar a rolagem da dívida da Grécia é o maior da história do sistema financeiro mundial. Este valor poderia gravitar em torno de 40-50 bilhões não fosse a ausência de mecanismos inteligentes e rápidos que viabilizassem a solvência dos países membros da UE em momentos de crise. O ajuste grego era necessário, mas a sua agonia foi um custo irresponsável da parte do sistema financeiro europeu. Há que se considerar que a Grécia não tem a opção de desvalorizar a sua moeda para iniciar o ajuste de seu balanço de pagamento de vez que a moeda é comum. A falta de mínimo consenso entre os países da UE foi um mal maior no agravamento da crise e mostrou para o mundo a debilidade do sistema monetário que rege as relações entre os países do Velho Continente.

Alemanha fez um papelão

Desde o início do século passado, toda vez que a Alemanha projetou as suas ambições econômicas e geopolíticas no continente europeu o resultado foi desastroso : dela nasceram duas guerras sanguinárias. Agora, a Alemanha quer "comandar" o euro, mas a sua ação em relação à Grécia mostrou que o governo germânico quer liderar sem ter os custos correspondentes impostos aos líderes. Angela Merkel nunca foi uma estadista, já se sabia. Agora, sabe-se que não passa de uma governante provinciana, incapaz de ampliar as suas visões quando as decisões são relevantes. Veja-se o exemplo de Helmut Kohl que, contra a opinião pública da então Alemanha Ocidental, lutou pela reunificação da Alemanha depois da queda do muro. Merkel se ajoelhou perante contingências políticas imediatas e impôs um custo social e político à Grécia inaceitável para um país-membro da UE. Fez mais : pregou contra o país dos helênicos e ajudou os especuladores. Angela Merkel é a personificação da incompetência europeia.

O euro é moeda inferior

A exposição das fragilidades da Europa na gestão de crises deve distanciar o euro do papel de alternativa, enquanto moeda-reserva, ao dólar norte-americano. Os investidores sabem disto e se sentem mais seguros para especular contra o euro.

Portugal, Espanha e Itália

O imbróglio na gestão dos problemas dos gregos certamente agravará os custos de rolagem da dívida dos países mais endividados da Europa, sobretudo no caso de Portugal, Espanha e Itália. Mas há outros : Irlanda e Bélgica. Note-se que no caso destes países o desemprego está acima de 15% e, no caso da Espanha, chega a 20% (dados da semana passada). Não se deve descartar a possibilidade de processos especulativos contínuos sobre estes países, nas próximas semanas, meses e anos.

O risco global

Se nas próximas semanas não houver controle significativo da crise europeia, há o risco de que tenhamos efeitos rápidos e significativos sobre a atividade econômica mundial, já cambaleante em função da crise do final de 2008. É difícil estabelecer uma probabilidade de colapso de outros países, mas uma coisa é provável : caso haja uma nova crise como a da Grécia, esta será mais aguda e relevante para a moeda europeia.

O silêncio dos EUA

Poucos comentários foram conhecidos da parte do governo dos EUA sobre os problemas da UE. Sábia decisão. Todavia, do ponto de vista geopolítico, a América ganhou espaço para fazer prevalecer os seus pontos de vistas na vasta agenda contenciosa entre os dois lados do Atlântico.

FMI ressuscitado

A UE, em geral, e a Alemanha, em particular, conseguiram reavivar os ânimos do FMI. O órgão multilateral, conhecido pela sua inoperância perante os riscos globais, parece muito competente quando a referência são os gestores da moeda comum europeia.

E as reformas ?

O exemplo grego demonstra que os mecanismos especulativos que permitem o colapso de economias inteiras continuam vivos e saudáveis. Por enquanto, não há consenso de como agir solidariamente em situações especulativas. Os governos continuam a tratar as consequências destas doenças sem que existam iniciativas para evitá-las. A reforma do sistema financeiro internacional é uma necessidade, mas permanece esquecida nas gavetas dos executivos e legislativos dos países mais ricos do mundo.

Brasil : é preciso acordar I

É visível a deterioração das contas públicas. As despesas continuam crescendo mais do que a receita, sem sinais de que vamos gastar menos ou arrecadar muito mais do que estamos arrecadando. Nada de assustar no curto prazo (12 meses à frente), porém o ritmo é incompatível em relação ao crescimento futuro do país. Mais um exemplo : a MP 487, editada discretamente na semana passada, escancara portas para o financiamento de empresas públicas com mais recursos do tesouro. Por exemplo : o Fundo Brasil Soberano poderá ser usado para capitalizar a Petrobras, a Eletrobrás, o Banco do Brasil. Não era esta a sua finalidade quando foi pomposamente anunciado...

Brasil : é preciso acordar II

A política fiscal expansionista praticada depois da eclosão da crise financeira ao final de 2008 foi uma sábia decisão do governo. Todavia, é injustificável no momento em que o ciclo econômico já se mostra saudável. O governo, ao não contrair o setor público, comete o erro clássico de não adotar uma política "anti-cíclica" quando as coisas vão bem. Isto abriria espaço para futuros aumentos de gastos governamentais quando a atividade eventualmente cair. Senão, corremos o risco de ter de fazer ajustes em meio a ciclos negativos. O exemplo grego poderia ser um fator a alertar as autoridades e a sociedade. Não é. Infelizmente.

O banco eleitoral ?

O BNDES está se tornando um poderoso fornecedor de financiamentos, tanto para o setor público quanto o privado, com uma facilidade e uma generosidade que surpreendem até os beneficiários. Com um dinheiro que, em boa parte, custa mais caro para ele que ele recebe de quem empresta.

Radar NA REAL

Mudamos a nossa visão em relação à moeda europeia, com base nos resultados de momento da crise grega. O euro deve seguir numa trajetória descendente no curto e médio prazo. De outro lado, é preciso ficar muito atento relativamente à contaminação de outras economias e seus efeitos sobre a atividade econômica mundial. Os mercados de ações devem acompanhar as variações entre as principais moedas, sobretudo a relação entre o dólar norte-americano e o euro. Eis um ponto de muita atenção. De outro lado, a trajetória da taxa de juros no Brasil se tornou vital para controlar a inflação. É hora de privilegiar os títulos pós-fixados em detrimento dos pré-fixados. (Vide abaixo sobre a decisão do COPOM).

30/4/10  

TENDÊNCIA

SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta alta
- Pós-Fixados NA alta alta
Câmbio ²
- EURO 1,3227 baixa baixa
- REAL 1,7294 estável/baixa baixa
Mercado acionário
- Ibovespa 67.529,73 baixa estável/baixa
- S&P 500 1.186,69 alta alta
- NASDAQ 2.461,19 alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

COPOM : atrasado ?

O BC seguiu pelo caminho correto ao aumentar a taxa de juros básica para 9,5% ao ano na reunião do COPOM da semana passada. Todavia, o aumento de 0,75% é sinal de que a autoridade monetária está atrasada em relação às perspectivas da inflação. Sobretudo, porque neste momento o ritmo de crescimento do consumo doméstico segue a ritmo chinês : mais de 10%. O problema estrutural é que os investimentos caminham lentamente. Portanto, o risco de um salto na inflação é considerável, em que pese a calma do tal do mercado em relação ao tema.

Voltei, aqui é o meu lugar

Como se viu em seu pronunciamento de 1º/5 no rádio e na televisão e nos comícios do dia dos trabalhadores, o presidente Lula retornou à linha de frente da campanha de Dilma. Isto se deve às trapalhadas dos companheiros do PT em relação à campanha da candidata. Já não era sem tempo, segundo a opinião de petistas bem postados. Foi Lula dar-se o direito a um descanso e a campanha desandou mais que maionese rançosa. De um lado, começaram a complicar as alianças já praticamente ajustadas. O PSC e o PP, partidos tidos como aliados incondicionais, estão ameaçando desgarrar e exigem cuidados e ofertas. O PP é caso de urgência, uma vez que está sendo assediado com uma vice de Serra para seu presidente o senador Francisco Dornelles, o que aproximaria mais os Neves de Aécio e Tancredo (e MG) do candidato tucano. O PT, que parece ter aprendido a valorizar seu passe com o PMDB, está se mostrando mais arredio aos apelos presidenciais e de sua direção nacional para abrir espaços regionais para parceiros de coalizão. Até agora as ameaças de intervenção não funcionaram e em alguns lugares a demora do acerto está deteriorando a situação em níveis quase sem volta. Só o superLula pode botar o paiol aliado em ordem. Antes que outros episódios Ciro Gomes floresçam.

Hora da ordem unida

Os desarranjos verificados na campanha de Dilma, admitidos até por muitos petistas ativos e outros apenas de carteirinha, tem uma origem bem visível : há coordenadores demais, muita gente mandando ou dando palpite, sem uma diretriz geral. Onde há muitos comandantes não há comandante algum. Bate-se cabeça e nada sai direito. É este papel que Lula terá de exercer, como exerceu em suas outras campanhas. E terá de começar ceifando vaidades. Mais do que ajudar a empurrar Dilma em direção à presidência, muitos dos seus assessores estão mesmo é tentando empurrar suas próprias carreiras. Entre os aliados, PT incluso, há muita gente que não vê Dilma como força e liderança suficiente para administrar o "balaio de gato" político que está se formando na aliança. E cada um que pode já quer ir cevando o seu feudo. Lula terá de descer para valer o bastão de comando nas costas dos parceiros e amigos. Esta pode ser a semana da decretação de "estado de sítio" e de uma ordem unida geral no campo oficial.

Enquanto eles não se entendem...

As divergências na campanha governista, de tantas e algumas tão infantis, proporcionam ao comando oposicionista oportunidade para administrar suas próprias idiossincrasias sem grandes marolas. Serra, com fama de concentrador, está mesmo com a campanha totalmente controlada - até quando ? - e continua levando vantagem sobre a adversária na qualidade de suas exposições públicas. As diferenças das perspectivas que hoje os dois lados vislumbram também contribuíram para que um lado demonstre algum juízo e outro caminhe para algum tipo de "alopramento" :

1. O que a oposição vê a possibilidade mais de 8 anos com Dilma ou mais 4 com Dilma e mais 8 com Lula depois, o que seria o seu fim.

2. Os do governo, eufóricos com a popularidade de Lula e do governo, já se vêem por mais 8 ou 12 anos no poder e tratam de assegurar seu lugar ao sol antes mesmo das urnas falarem. Em política, o medo, a perspectiva da desgraça, pode unir ; a certeza do sucesso, a glória, comumente divide.

O meu pirão primeiro I

Muito se comentou das razões que levaram o PSB a esganar, com humilhação, a candidatura do deputado Ciro Gomes ao Palácio do Planalto pelo partido. Sim, houve um pouquinho de tudo : fidelidade a Lula, medo de uma derrota acachapante com Ciro, abraçar o mais cedo possível o vencedor para garantir espaços no futuro governo, necessidade de alianças regionais com o PT para garantir eleição de governadores, senadores e deputados da legenda...

O meu pirão primeiro II

Mas houve também outra motivação, esta muito negligenciada : Ciro, além de ser um socialista relativamente recente, era um incômodo para o principal líder do partido, o governador Eduardo Campos. E incomodava não por seu estilo mercurial um tanto independente. Atrapalhava porque, do ponto de vista eleitoral, Ciro era  - ainda é - muito mais figura pública que o neto de Miguel Arraes. Tem mais votos, mais presença nacional, mais articulação fora do eixo partidário. Ciro é, digamos, universal. Campos, provinciano ainda. Portanto, o ex-ministro era um possível obstáculo aos planos de voos futuros do jovem governador. Campos, assim como Ciro, num certo período ensaiou se lançar vice na chapa de Dilma. Depois do segundo mandato, o governador espera sair de "Pernambuco para o mundo".

Vingança que se come fria

Mais do que as palavras, pois estas sempre podem se perder, os primeiros gestos do deputado Ciro Gomes depois que saiu do forno de microondas em que foi torrado pelo PT e o PSB, indicam que o ex-ministro da Integração Nacional não vai levar desaforos para casa. A decisão da ex-mulher dele, a senadora Patrícia Saboya, de disputar uma arriscada reeleição em lugar de uma vaga garantida para a Câmara dos Deputados complica a vida da aliança governista no CE. Na composição do PSB de Patrícia, e do candidato à reeleição do governo estadual Cid Gomes, entra o tucano Tasso Jereissatti, buscando também reeleger-se para o Senado. Abre-se, provavelmente, um espaço para Serra num dos Estados onde ele tem menos penetração.

Quem dá mais ?

Resumindo a ópera das buscas de coligações partidárias no plano federal : tudo se resume ao tempo de cada partido no rádio e na televisão. O tal "horário gratuito", mas que de gratuito não tem nada : as emissoras são ressarcidas pela Receita Federal do que deixam de arrecadar em publicidade quando os candidatos estão no ar.

Públicas ? Não, estatais

Sem entrar nas discussões das credenciais de quem saiu ou de quem entra, ambas indiscutíveis, o episódio da substituição do jornalista Paulo Markun pelo economista João Sayad, no comando da Fundação Padre Anchieta, é lastimável do ponto de vista institucional. Urdida no Palácio dos Bandeirantes, principal patrocinador financeiro da TV Cultura, demonstra apenas que no Brasil o conceito de televisão pública é uma ilusão. A injunção política fala mais alto, manda o poderoso de plantão com seus desejos e idiossincrasias. A TV Brasil (a dita "tevê do Lula"), totalmente dependente do governo federal, é uma regra no país. E a TV Cultura, apesar de algumas aparências, não é uma exceção. São televisões estatais. De públicas têm apenas o dinheiro que gastam. Nem sempre com bom proveito.

Minas : teoria e prática

O PT/MG já deu sua demonstração de autonomia : em prévia no fim de semana indicou o ex-prefeito de BH, Fernando Pimentel, como seu candidato ao Palácio da Liberdade. O ex-ministro Patrus Ananias, derrotado na disputa, poderá ficar com uma das vagas ao Senado. Esta é a teoria. Cumprido o ritual para consumo externo, o PT deverá agora cumprir o desígnios estabelecidos por Lula : aceitar a aliança com o PMDB, com o ex-ministro Hélio Costa disputando a sucessão de Aécio. Pimentel e Ananias poderão ser acomodar na vice e no Senado, de acordo com suas conveniências. O partido no Estado vai espernear só mais até o fim do mês.

Para a platéia

Sempre que algo acontece no governo ou na política que pode parecer desagradável ou contrário a idéias de Lula, há sempre uma fonte oficiosa de plantão para contar a alguns jornalistas que o presidente Lula ficou "irritado" com tal fato. Agora mesmo, diz-se que ele se irritou com as prévias do PT em Minas, como já se irritou com ministros, com a base aliada, com o PT e o diabo mais. Ora, com o poder e o prestígio que o presidente tem, como já demonstrou, por exemplo, na fritura da ex-ministra Marina Silva e no tempo em que passou assando Ciro Gomes, Lula age cirurgicamente quando quer. Se ele deixa coisas que o "irritam" prosperar, é porque tem outras intenções. No caso de Minas, precisava manter o ex-ministro Hélio Costa e o PMDB em quarentena.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.