Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Política & Economia NA REAL n° 116

Temporada de caça aos tucanos

Está desencadeada, na seara governista, com o crescimento de Dilma nas pesquisas, a fase de assédio aos tucanos, em duas direções : para matar e para atrair. A primeira, sob o comando do próprio presidente Lula visa dar um tiro de misericórdia nos adversários em áreas consideradas vitais para os projetos futuros do presidente, cada vez mais escancarados, como em São Paulo e para atingir "inimigos" jurados de Lula, como os senadores Arthur Virgílio e Tasso Jereissati, duros combatentes do governo no Congresso, Marconi Perillo, candidato ao governo de Goiás, pelo pecado de ter "alertado" o presidente duas vezes para as histórias do mensalão. Se possível, serão salgados e deixados ao sol.

O jogo da sedução

Na outra ponta do assédio aos tucanos, de modo mais ou menos discreto, por conta da própria Dilma e assessores discretos, desenvolve-se um processo de sedução a tucanos tidos como mais confiáveis. A pretensão é atrair o grupo que se imagina gravitará em torno de Aécio Neves no PSDB para uma aliança, nem que seja pontual, com alguns dos partidos apoiadores de Lula. Já se desenvolveram conversas neste sentido, não diretamente com tucanos de plumagem real, mas com quem pode fazer chegar a eles estas ideias. Há dez dias é tema de bastidores. Acabou vindo ao proscênio com uma entrevista do governador do Ceará, Cid Gomes, tão palavra aberta quanto seu irmão Ciro, em entrevista ao jornal Valor Econômico, e depois pela própria Dilma, em entrevista, quando anunciou, anteontem na tevê, que depois de eleita irá estender a mão para Serra. O propósito, já não muito secreto, seria criar uma "banda boa" de apoio ao governo Dilma para contrapor-se ao que seria uma espécie de "banda podre" da atual aliança que sustenta a candidatura da ex-ministra. Num ângulo, o PT, o PSB, o PC do B, uma face dos tucanos...

Adeus ano velho

O dia do trabalho nos EUA - 3/9 - inaugura uma espécie de novo ano no mercado financeiro mundial. A partir desta data as projeções para o ano seguinte passam a ser as novas referências para os cálculos de "preço justo" dos ativos baseados, por sua vez, nas estimativas macroeconômicas (PIB, taxa de juros, câmbio, etc.). Aqui no Brasil não é diferente : os analistas começam a avaliar as perspectivas do ano que vem. Esta coluna coletou de diversas fontes as principais avaliações do mercado e há dados muito interessantes para a economia local que merecem atenção. Vejamos a próxima nota.

Feliz ano novo

Segundo a média das projeções de mercado, o PIB brasileiro deve crescer algo ao redor de 4,5%. Trata-se de uma queda relevante frente aos 7% - 7,2% esperados para este ano. Este crescimento é, segundo a opinião corrente dos analistas, o número possível para que seja cumprida a meta de inflação (4,5%) de 2011. Um avanço maior no crescimento seria abortado por meio de uma política monetária (ou fiscal) mais restritiva. De outro lado, o crescimento dos lucros das principais empresas cotadas em bolsa alcançaria 7% o que parece ser ótimo frente ao crescimento médio da economia. A taxa de juros nominal estipulada pelo BC permaneceria ao redor da atual (10,25% ao ano). O Brasil continuaria relativamente protegido das variações dos humores em relação à economia mundial. Segundo os analistas, os países centrais, sobretudo os EUA, apresentariam um desempenho letárgico, mas benigno na medida em que não se prevê um retorno do quadro recessivo de 2009. O fluxo de investimentos externos para o Brasil, neste contexto, continuaria sólido, embora decrescente em relação a este ano. Como se vê, estas projeções reproduzem o desempenho que deve se configurar no último trimestre deste ano.

Como foi no passado ?

O tal do mercado leva a sério tais projeções e são elas que norteiam as principais decisões de investimento. Todavia, um exame das projeções passadas indica que a capacidade de previsão dos analistas não é tão sólida quanto se possa imaginar. Um exemplo : o PIB brasileiro projetado para este ano estimado ao final do ano passado indicava um crescimento de 4,5% - 5%. O que se vê agora é um crescimento de mais de 7%. Da mesma forma, esperava-se um desempenho muito melhor para a economia norte-americana. O que de fato ocorreu é que a Europa, agitada pela crise de confiança, apresenta mais consistência no crescimento, influenciado pelo razoável desempenho da economia alemã e, em menor medida, pela França. A "bola de cristal" do mercado pode ser relevante, ao ser observada, mas apenas como uma referência de momento e não como algo provido de ciência exata.

A nova visão dos reguladores

A presidente da CVM encerrou o Congresso da APIMEC - Associação dos Analistas do Mercado de Capitais ocorrido em Belo Horizonte na semana passada com uma observação extremamente interessante sobre a nova visão dos reguladores na sua tarefa de "xerife". Dentre as diversas observações feitas, salta aos olhos uma que prega que "os reguladores não devem acreditar na eficiência do mercado". Junta-se a esta a nova premissa de que é importante não apenas regular os mercados organizados e formais (bolsas de valores e de derivativos), mas também os segmentos onde as negociações são "no balcão", ou seja, entre agentes e sem maior transparência. Esta "nova visão" é consequência direta da crise instalada em 2008. Todavia, se observarmos o arcabouço normativo, sobretudo nos EUA, a capacidade de regular e punir das autoridades reguladoras não é tão compatível com esta nova visão mais intervencionista. O mercado continua relativamente dominante no que tange à formação das expectativas, sem que os governos possam controlá-lo de forma mais efetiva. É o tempo do hipercapitalismo financeiro.

O BNDES e a sustentabilidade

Justiça seja feita. O BNDES está adotando políticas cada vez mais rígidas na concessão de créditos no que tange à sustentabilidade. Um exemplo disso é a política para o setor de pecuária para o qual as metas de rastreamento dos rebanhos são requisitos básicos para a obtenção de crédito. Em cinco anos, quem quiser obter crédito junto ao banco oficial terá de ter absoluto controle sobre a origem do gado a ser abatido. O ponto dissonante destes novos critérios de sustentabilidade do banco é o fato que do lado do governo a tendência é a maior flexibilidade em relação às regras de sustentabilidades. Ou seja, há um gap entre as legítimas ambições do BNDES e a visão "desenvolvimentista" do atual governo e Dilma, a provável eleita em outubro.

Meirelles e o mercado

Entre as elites empresariais está consolidada a ideia de que a eleição deste ano para presidente está encerrada : Dilma será eleita. De outro lado, não são poucas as articulações para que Henrique Meirelles fique no BC. Seria uma certeza perante certos temores em relação aos riscos de mudança do rumo da política econômica. Não se trata de uma novidade, mas o interessante é que tais articulações nunca estiveram tão intensas. Michel Temer é o grande interlocutor desta articulação uma vez que Meirelles é parte do PMDB, um companheiro de Sarney, Barbalho e companhia limitada.

Sem marolas

Ortodoxos e não ortodoxos desta vez estão em linha em suas previsões. O Copom amanhã vai se fingir de morto e nem tocará na Selic, de 10,75%. Mexer para cima pode ser qualificado, em certas áreas, de crime eleitoral, mexer para baixo pode ser classificado como temeridade e gerar perigosos movimentos defensivos e ainda gerar expectativas negativas para o futuro.

Radar NA REAL

27/8/10  

TENDÊNCIA

SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável alta
- Pós-Fixados NA estável alta
Câmbio ²
- EURO 1,2677 estável estável
- REAL 1,7591 baixa baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 65.585,14 estável/baixa estável/baixa
- S&P 500 1.064,59 baixa baixa
- NASDAQ 2.153,763 baixa baixa

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Cuidados com pelos do rosto

Barbas na política brasileira atual são uma marca registrada do PT – Lula, Palocci, Genoino Dirceu e um magote da companheirada. São raros os petistas que em alguma fase de sua militância não exibiram uma. Mas quem agora vai precisar cultivar urgentemente também um bom punhado de pelos no rosto, para colocá-los devidamente de molho, é o PMDB, mesmo que seus principais líderes prefiram a cara bem aquinhoada com Aqua Velva, apenas com algumas concessões a vistosos e hirsutos bigodes. Por conta das conversas transversais nos bastidores da política, descritas em notas acima, de um vocábulo pronunciado com asco em territórios oficiais – "refém" – que se acautelem os donos do PMDB. Podem ganhar sem levar o que já dão como favas contadas. Em lugar de um parlamentarismo de coalizão no ano que vem, sonho de suas estrelas, podem estrelar um governo com parceiros inesperados.

Libertas quae sera tamem

Um bom teste para a segurança dos compromissos governistas e petistas com o PMDB se desenrolará em Minas Gerais. Com o crescimento de Antônio Anastasia, o candidato da ligação PSDB/DEM/PPS, o situacionista (Federal) e oposicionista (Estadual) Hélio Costa, do condomínio PMDB/PT et all, está desesperado pelo reforço direto de Lula e Dilma e sua campanha, injeção direta na veia. Vamos ver que dose, real, será aplicada, na campanha peemedebista. Será que interessa cutucar demais o futuro senador Aécio Neves ? Será que não será bom cortar um pouco as asas do PMDB não deixando em suas mãos dois dos três maiores Estados brasileiros ? Em tempo : só estranha a ascensão de Anastasia quem não conhece as minudências da política mineira.

É mais que disputa pessoal

O Estadão deste fim de semana explicitou o que, como se dizia no jornalismo de antigamente, já corria a boca pequena no mundo político e algumas vezes foi referido nesta coluna : as disputas pelo poder em um provável governo Dilma e a volta das escaramuças José Dirceu e Antonio Palocci tão frequentes na primeira fase da gestão Lula. Não é questão pessoal, de desgosto. Ou pelo menos não é apenas. É mais profunda : é pela condução da política econômica num mandato Dilma. De um lado está Palocci, com Henrique Meirelles, com uma visão tida como conservadora e de outros Dirceu, com Luciano Coutinho, Guido Mantega e mais Alexandre Teixeira (APEX) e Nelson Barbosa (secretário de Política Econômica da Fazenda), com visões tachadas de progressistas. A notícia de um possível ajuste fiscal no início do governo Dilma, passadas por Palocci e depois desmentidas pela própria candidata, fazem parte desta guerra. O desmentido foi estratégico. Não que a ex-ministra já se tenha definido por este ou aquele, mas qualquer apelo a ajuste fiscal - para muitos sinônimos de arrocho - atinge diretamente interesses de aliado. Melhor não agitar agora.

Velha briga

De qualquer forma, em matéria de ideias econômicas, Dilma e Palocci nunca se bicaram, nem quando ela estava no Ministério das Minas e Energia nem na Casa Civil. Dilma chegou a classificar de rudimentar uma ideia de Palocci de acabar com o déficit nominal no setor público, não apenas fazer um superávit primário. Acontece que Palocci é visto pelo setor financeiro, por boa parte dos empresariados e no exterior como um fiador de que aloprados econômicos não envolverão a futura presidente. E ele ainda tem a confiança de Lula. Já Dirceu fala para o público interno, sindicalistas, servidores e é de total confiança deles.

Escaramuças da guerra

Esta disputa tem gerado histórias curiosas. Por fontes não identificadas, para afastá-lo do centro das decisões (diz-se que poderia ir para a Casa Civil), Palocci já foi lançado para o ministério da Saúde e para a presidência da Vale, como se o governo pudesse - ou será que pode ? - nomear dirigentes de uma empresa privada. No contra-ataque, Guido Mantega, em plena campanha para permanecer onde está, acaba também de ser anunciado como um provável presidente da mesma Vale.

Lula no futuro

Quem estava perto do palanque no qual Lula e Dilma subiram sexta-feira em Salvador não deixou de notar o ar de satisfação, quase angelical, do presidente Lula quando a plateia começou a gritar "Lula, você vai voltar/Lula, você vai voltar".

A desunião não faz a força

O desenho da derrota espalhado no ar está levando tucanos, DEMs e ex-comunistas a se estranharem cada vez mais. O risco é que a fuga presidencial esvazie também disputas nos Estados e para o Congresso. Há quem ache que a oposição, somada, não fará mais 160 deputados para um bancada total de 513 parlamentares na Câmara. Como Lula joga tudo agora para fechar boas eleições para o Senado, Dilma terá, em tese, melhores condições que Lula para passear com suas propostas pelo Legislativo. Diz-se em tese porque o Legislativo, com um PMDB reforçado, tem lá suas razões que todas as razões conhecem e não cede antes de muito tergiversar. Isto embora o presidente do PMDB e vice na chapa de Dilma tenha dito recentemente, com altivez e sem corar, que, "no próximo governo, é possível que o PMDB não tenha nenhum cargo, e mesmo assim nós vamos colaborar".

Mancha no lixo

Foram necessários 19 anos para se aprovar, no Congresso, com algum consenso entre as partes envolvidas, uma lei nacional de Resíduos Sólidos. Agora, o governo quer regulamentá-la em três meses, segundo notícias desta semana, ainda antes das eleições. Estranhe-se a pressa. E com normas que podem tornar partes da lei inócuas, ou de difícil aplicação ou de custos elevados para o consumidor. Ou tudo junto. É que se pode chamar efeito Marina Silva nas eleições.

O STF e a política

A reportagem da revista Veja na semana passada revelou parte da luta de bastidores, nada amistosa, que está cercando a disputa pela vaga do ministro Eros Grau no STF. A reportagem reacendeu ódios e abalou favoritismos e certezas. Já se diz que a decisão vai ficar para depois de outubro e que desta vez pesará mais a questão de qualidade jurídica do que qualquer outro tipo de ponderação política.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.