Segunda-feira, 16 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Política & Economia NA REAL n° 122

Eles só falaram de flores

O eleitor brasileiro chega aos dias finais da eleição presidencial sem a mais vaga noção do que os dois concorrentes a seus votos pensam – e pretendem fazer – diante de cruciais decisões que precisam ser adotadas para botar um pouco de rumo na economia nacional e evitar que o bom momento vivido agora comece a degringolar perigosamente. O primeiro é o câmbio, o preço da moeda nacional, responsável pela deterioração da qualidade de nossas contas externas e pondo em risco a capacidade de competição da indústria nacional. O segundo, o equilíbrio das contas públicas e o compromisso de manter um bom superávit primário, suficiente para que a dívida pública não cresça demais. Há gastos em excesso e o superávit está sendo sustentado por contabilidade artificial e manobras como os cerca de R$ 30 bi que "sobraram" da capitalização da Petrobras e serão devolvidos ao tesouro nacional em forma de receita. Em nome da elegibilidade o governo tem evitado agir com presteza e a dureza necessária. Em nome da caça aos votos, os candidatos têm contornado o tema. O depois pode ser amargo...

Elegibilidade

Ninguém menos loquaz nesses dias do que o sempre loquaz ministro Guido Mantega, só visível para anunciar duas medidas pontuais para o câmbio, cuja eficácia ainda precisará ser comprovada, mas que a maioria dos especialistas considera limitada. Nem a reunião preparatória do G-20, na qual o Brasil ganhou mais poder no FMI, o ministro compareceu. O que não quer dizer que Mantega esteja em fase de desaceleração, esperando o substituto. Há nele um desejo genuíno de ficar onde está, se o favoritismo de Dilma continuar. Mas as ações preferenciais da presidenciável petista estão, no momento, no BNDES de Luciano Coutinho.

Saldos externos, câmbio e expansão monetária

Definitivamente os EUA estão decididos a superar a crise que se instalou no país em meados de 2008 debitando boa parte do ajuste ao resto do mundo. O Fed deve comprar títulos do tesouro, expandir a moeda e forçar o consumo e o investimento. O dólar norte-americano deve cair ainda mais frente às moedas de outros países ricos e dos emergentes. Assim, o saldo das operações externas destes países frente aos EUA deve cair e alavancar a atividade interna americana. Trata-se de um jogo perigoso de vez que o capitalismo é um sistema não-cooperativo de transferência de renda : se todos agirem da mesma forma estará instalada uma guerra cambial. Por mais coordenado que seja este processo entre os países, qual deles está disposto a abrir mão de um emprego para dá-lo a um norte-americano ? Há muito em jogo e há poucas indicações de como isto tudo pode caminhar. O Brasil neste contexto está mal posicionado : a elevada taxa de juros, a expansão fiscal e os saldos externos negativos são variáveis muito sensíveis às alterações engendradas por Washington. Este enorme ponto de interrogação está sendo subestimado internamente.

A persistente especulação

As reformas das estruturas do mercado financeiro mundial, bem como das instituições multilaterais depois da crise de 2008, arranharam os interesses de certos segmentos do mercado, mas não alteraram a dinâmica financista que domina as estruturas capitalistas. Alterações bruscas no cenário econômico serão, portanto, impactados por esta realidade. Se hoje as operações dos bancos com seu próprio capital estão mais limitadas, de outro lado os fundos de investimento especulativos estão assumindo formas cada vez mais sofisticadas. Lord Keynes, o grande formulador da criação do FMI, Banco Mundial e BIS, disse em certa ocasião que "o capitalismo é muito importante para ser cuidado apenas pelos capitalistas". Uma lição ainda por ser aprendida.

FMI : reforma e obsolescência

O diretor-gerente do FMI Dominique Strauss-Kahn anunciou com pompa neste último fim de semana "a maior reforma da história do FMI". Referia-se a redistribuição de quotas entre os sócios do fundo que resultará em um alargamento do poder da China e outros emergentes, dentre os quais o Brasil. O governo comunista de Pequim será o terceiro maior sócio do organismo que foi criado na Conferência de Bretton Woods (1944) para salvar o capitalismo. Dura ironia. O que o senhor Strauss-Kahn não contou é que as funções do FMI neste século XXI estão obsoletas frente aos novos desafios econômicos e políticos. Por exemplo, como se comportaria o FMI diante da desorganização cambial que pode se originar da nova estratégia monetária dos EUA ? Outra pergunta incômoda : o FMI tem recomendações sobre a política cambial chinesa que desvaloriza artificialmente a sua taxa de câmbio ?

Mercosul sem rumo

A formação de um mercado comum é tarefa de longuíssimo prazo. Sabe-se disso. Todavia, a cada ano é preciso estabelecer metas macroeconômicas conjuntas entre os países-membros e de progresso institucional com o objetivo de liberar mercados. O que se vê no Mercosul é uma absoluta letargia em todos os campos. E o pior é que os riscos estão aumentando velozmente. A Argentina, comandada pelos populistas Kirchners, está com inflação ao redor de 20%, déficit público crescente, investimentos irrisórios e uma política monetária pouco crível. Estas variáveis tem implicações diretas sobre o Mercosul, mas parece que tudo isto é pouco para movimentar os sócios deste pacto.

Política externa esquecida

Não é somente o Mercosul que não interessa ser discutido na atual campanha eleitoral. Toda política externa brasileira ficou de lado. Pouco se sabe o que os candidatos pensam em relação ao posicionamento do Brasil no mundo global.

Radar NA REAL

22/10/10  

TENDÊNCIA

SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável alta
- Pós-Fixados NA estável alta
Câmbio ²
- EURO 1,3982 queda estável
- REAL 1,7071 estável/queda estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 69.529,71 estável/alta estável/baixa
- S&P 500 1.183,11 estável/alta estável
- NASDAQ 2.479,39 estável/alta estável
 

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Acabou a trégua

O aumento da vantagem de Dilma nas pesquisas contra José Serra pôs fim ao armistício celebrado entre grupos divergentes do PT a respeito das políticas que Dilma, se eleita, deverá adotar, e sobre os cargos que distribuirá. As entrelinhas dos jornais registram caneladas por debaixo das mesas cada vez mais grosseiras. E o ambiente ficará ainda mais pesado depois de domingo. Se Dilma vencer, porque terá passado todo o risco e será a hora de extinguir os concorrentes internos ou pelo menos neutralizá-los com honrarias sem poder. Se ela perder, pela distribuição de responsabilidades.

Uma trégua precária

A duras penas, o PMDB mantém obediente silêncio. Mas está com todas as armas revisadas e prontas para não ser passado para trás na partilha dos bens do novo governo. A cota de cinco ministérios está sendo considerada muito pequena. Nas reivindicações, estão também estatais de peso, além das do setor elétrico, feudo sarneysta nos últimos anos.

Bom faro

Maria Graça Foster, diretora da Petrobras pelas mãos de Dilma, já entrou no foco dos gigantes da petroquímica. É aposta certa para o primeiro escalão de um provável governo da favorita de Lula. O que explica, em parte, o "pitibulismo" político dos últimos dias do atual presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli.

Luta pela continuidade

Como Gabrielli, auto-incluído numa lista de promoções ou pelo menos de permanência com Dilma no Planalto, o crescimento do favoritismo da candidata petista nas pesquisas tem sido proporcional ao crescimento dos auxiliares de Lula que fazem tudo para mostrar serviços, para aparecer.

Uma esfinge

O problema, de todos, é que a ex-ministra é uma incógnita. Ninguém diz ao certo o que ela é. Há quem diga que ela cederá às influências e até já fez várias concessões. E há os que dizem que ninguém perde por esperar. Para uns, será teleguiada de Lula, do PT e do PMDB. Para outros, vai surpreender.

Credores

Por isso, o esforço dos parceiros, Lula, PT, PMDB para se mostrarem credores da vitória da ex-ministra.

Crédito ilimitado

Lula está fazendo tudo e muito mais por Dilma, o fato de quase ter abandonado a presidência para cair na campanha comprova sua disposição de ter da provável futura presidente uma nota promissória em branco. Mas Lula está fazendo muito mais por ele mesmo.

O adversário real

Nem Serra, nem Fernando Henrique, nem outro tucano oposicionista qualquer. A mira de Lula esta apontada mesmo é para a cabeça do mineiro Aécio Neves, que um dia ele até pensou levar para seu rebanho. A desenvoltura que o senador eleito mineiro tem demonstrado no seu oposicionismo do segundo turno, o prestígio que vem amealhando, parecem a sombra mais perigosa para os planos futuros de Lula. O mineiro e algum arroubo de independência que Dilma pode exibir depois que não precisar mais de votos populares.

A esperança tucana

O PSDB não vai jogar a toalha. Os tucanos estão convictos de que, digamos assim, "falhas metodológicas" nas pesquisas que na semana passada apontaram o aumento da diferença, favoravelmente à adversária, entre ele e Dilma. O tom da campanha está subindo e o ápice deve ser o debate da Globo. A verificar : desde o início da campanha fala-se em uma virada depois do debate.

Só para lembrar

Está na agenda do PMDB : o projeto que troca o modelo de exploração de petróleo no Brasil de concessão para partilha ainda não foi aprovado pelo Congresso.

Como nunca antes

O país que sairá das urnas de domingo será um país dividido e com rastros de ódio como nunca se viu antes, nem depois da eleição de Fernando Collor.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.