Quarta-feira, 13 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 1º de março de 2011

Política & Economia NA REAL n° 142

Vendaval em Brasília

Se o objetivo do governo com os cortes orçamentários anunciados é o de "reverter as expectativas" dos agentes econômicos formadores de preços (empresas e mercado financeiro) em relação as suas reais intenções de agir com dureza para não deixar a inflação fugir do controle, dificilmente será bem sucedido. A poda orçamentária proposta, de responsabilidade dos ministros Guido Mantega e Miriam Belchior, foi recebida com desconfiança e ceticismo de um modo geral. Dos cerca de R$ 53 bi registrados pelos dois como sendo a economia que o governo fará este ano, os especialistas calculam que apenas pouco mais de R$ 13 bi de despesas previstas serão efetivamente cortadas. O resto, como se diz popularmente, é corte de vento: de intenções de despesas. Muito barulho por quase nada. Por exemplo : o governo não fará mais concursos este ano. Nem pagará a maior parte das emendas dos parlamentares.

Credibilidade em risco

Em diversas ocasiões, Dilma e seus ministros disseram que os programas sociais do PAC não seriam atingidos pela foice que vai se passar no Orçamento. Pois bem, o Programa "Minha Casa, Minha Vida", incluído no PAC e voltado essencialmente para as casas populares, perderá R$ 5,1 bil dos pouco mais de R$ 12 bi que teria este ano. São essas "pequenas coisas" que costuma abalar o crédito dos governantes.

Sem explicações

Entre as economias previstas por Mantega e Belchior, estão R$ 3 bi em diminuição com despesas de abono e seguro desemprego e outros R$ 2 bi de gastos menores com a Previdência. Acredita o governo que conseguirá tal feito com um pente fino para reduzir fraudes nessas duas áreas. Mas se havia suspeitas de fraude, por que tais providências não foram tomadas antes ? É impossível imaginar que com a economia crescendo menos o desemprego cairá ainda mais. E que as pessoas vão se aposentar menos... Também faltou explicar quais subsídios serão afetados pelo corte de R$ 8 bi e quais os efeitos desses cortes sobre os setores atingidos e sobre os preços de seus produtos e serviços.

Mais despesas

A confiança fica ainda mais perdida quando, ao mesmo tempo em que fala num plano de cortes, o governo programa medidas que trarão, na outra ponta, aumento de despesas. Tais como : no aporte de recursos para o BNDES, aumento do bolsa família, recriação da Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco), criação do ministério da Pequena e Média Empresa.

As metas oficiais. E as oficiosas

Para o público externo, o governo tentará trazer a inflação deste ano para o mais próximo possível do centro da meta, estabelecido pelo CMN, de 4,5%, nem que seja necessário o crescimento do PIB menor que o crescimento previsto hoje pelo ministério da Fazenda, entre 5% e 5,5%. No privado dos gabinetes oficiais, porém, a meta é não deixar a inflação bater no teto dos 6,5%. Nem deixar a economia despencar abaixo dos 4,5%. O BC tem sido lembrado a calibrar os juros nesta direção.

Inflação e petróleo

Não são poucos os técnicos do governo (inclusive do BC) envolvidos em cálculos fiscais, cambiais e de preços no que se refere aos derivados de petróleo. A alta do barril do petróleo pode não ser episódica - relacionada com a queda dos governos no oriente médio. Ela deve ter um caráter mais permanente. Os riscos, portanto, podem ser muito mais significativos do que vem sendo comentado na imprensa.

Brasil menos procurado

Se do lado do governo as discussões sobre o crescimento estão intensas, do lado dos investidores em ações o Brasil está sendo considerado um dos menos atraentes dentre os chamados emergentes. A China ainda desponta como o país mais interessante, enquanto o México, a Índia e a África do Sul despontam como os mais interessantes dentre os países em desenvolvimento. Isto é fruto direto da piora das expectativas de inflação e de menor crescimento.

Enquanto isso, na renda fixa

Já no quesito taxa de juros, os investidores acreditam que os investimentos em papéis do governo vão ser o grande negócio neste ano. Afinal, o BC deve mesmo aumentar a taxa de juros básica para um patamar próximo de 13% ano até dezembro para conter a inflação e, deste modo, o Brasil vai continuar sendo um dos portos seguros dos investimentos em renda fixa do mundo. Baixo risco de crédito e juros lá em cima.

Câmbio, sem esperança

Nenhuma conversa interna do governo está sendo levada a sério no que tange a melhorar o patamar da taxa de câmbio do Brasil para proteger a indústria local e aumentar as exportações. Os produtos chineses devem continuar invadindo o país comprometendo o processo industrializante nos próximos anos. Com uma taxa de juros real acima de 6% ao ano é impossível acreditar que, em condições normais, o dólar suba.

Obama e Dilma

O ex-embaixador brasileiro em Washington e nosso atual Chanceler do Itamaraty, Antonio de Aguiar Patriota, está conseguindo com enorme discrição tornar a pauta do encontro de Dilma com Obama bem mais atraente do que poderia ser imaginado. As questões de médio prazo das relações comerciais Brasil-EUA serão discutidas tais como a Rodada Doha, a política com a China e as questões de comércio bilateral, incluindo o etanol e a compra dos caças da FAB. Não haverá divulgação ampla dos resultados das conversas, mas o Brasil está propondo uma parceria bem mais próxima com os EUA. Uma surpresa e tanto para o Departamento de Estado Americano. No Itamaraty, a barba continua a mesma, mas a política externa...quanta diferença...

Otimismo nos EUA

Pesquisas recentes feitas por jornais norte-americanos confirmam a expectativa de que os EUA devem crescer 4% este ano. Será que crescerá mais que o Brasil ?

Paradoxo na economia

Joseph Heller, escritor norte-americano, autor, entre outros, de "Ardil 22", é mestre no uso do paradoxo e da ironia mais fina para criticar as instituições de seu país. Em "Gold vale ouro" (Good as gold, Nova Fronteira, 1979) o alvo de sua sátira é a Casa Branca e seu mundo da política, da corrupção, do nosso conhecidíssimo tráfico de influência. Uma de suas passagens nos faz lembrar as erráticas declarações de nossas autoridades sobre o que se vai fazer em matéria de política econômica. Diz um personagem : "Esta administração resolveu combater a inflação aumentando os preços, a fim de diminuir a necessidade de reduzir os preços para aumentar a procura e trazer de volta os preços inflacionários que desejamos baixar, reduzindo a necessidade de aumentar a procura e subir os preços. Não é mais ou menos isso que a nossa política econômica está pretendendo ?" Compare-se com o que disse o ministro Guido Mantega ontem : "O que nós estamos fazendo não é, prioritariamente, visando a inflação, mas um ajuste anticíclico da economia. Queremos desacelerar sem derrubar a economia. É mais um ajuste para retornar a um superávit fiscal maior".

Leviandade

Nem ainda foi dicionarizado pelos responsáveis pelo Aurélio ou Aulette e o vocábulo lulismo já está abandonado no linguajar político.

Quando o carnaval passar

Quando o presidente Geisel, em 1977, lançou o Pacote de Abril, édito imperial responsável pelo surgimento dos senadores sem voto (chamados biônicos, hoje relembrados nos suplentes sem voto) e pela total distorção do sistema representativo no Brasil, a irreverência criou um bloco carnavalesco, de sátira política, "O Pacotão" que até hoje faz sucesso nas ruas da capital da República. Passado o carnaval deste ano, "O Pacotão" vai enfrentar um novo e poderoso bloco, um tal de "Distritão" a ser inaugurado breve na passarela do Congresso Nacional. Esdrúxulo, esse "Distritão" vem para distorcer ainda nosso já insano sistema eleitoral. E para transformar os partidos ainda mais em meros veículos eleitorais, aos quais os candidatos se filiam apenas para ter uma legenda para disputar a eleição, os recursos do fundo partidário para a campanha e o horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão. Todo bloco carnavalesco que se preze tem um "general da banda". Na Banda de Ipanema a figura era representada pelo musicólogo e homem da cultura popular Albino Pinheiro. Quem se habilita a ser o "general da banda" do "Distritão" ?

Comentários sinceros

Dois próceres políticos, um do PSB e outro do DEM, conversavam tranquilamente no campus de uma universidade paulistana. Tratavam dos passos políticos de Gilberto Kassab envolto nas "negociações" para formação de um novo partido. Dois comentários chamaram a atenção desta coluna : (i) o prefeito está super capitalizado e que ele (ii) estaria oferecendo um rompimento com José Serra como "moeda de troca" nas barganhas políticas para as próximas eleições municipais. O segundo item da conversa é auto-explicativo. O primeiro, no entanto, é curioso. O que quer dizer "supercapitalizado" ?

Banda meio larga

É licença poética chamar a velocidade de 512 kbps, previsto no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), por este nome. É licença poética vender a ideia de que a banda larga popular vai custar R$ 35 por mês sem antes acertar com os governadores a retirada do ICMS dessa conta. É licença poética dizer que um serviço de Internet, num país de salário mínimo a R$ 545, é um serviço "popular". Está na hora dos bois receberem os seus nomes reais. Sem trocadilho.

Banda meio estreita

Quando o PNBL foi lançado, com a ressurreição da Telebrás e a pompa e circunstância que somente Lula sabia prover, o Brasil seria inundado de acesso veloz (sic) à Internet e sem a necessidade de participação das teles privadas. Devidamente implantada a Telebrás, verbas garantidas e empregos assegurados, o discurso foi sendo adaptado à realidade. De algumas milhares de cidades voando na Internet até o fim de 2010, marcou-se a festa para apenas 300 municípios experimentais em dezembro. Depois, a data passou para abril, na semana passada postergada para maio, mas como o ano tem mais meses, pode ser que outros surjam nesse calendário. Agora, as empresas privadas estão sendo imploradas a entrar no jogo. A Telebrás continua uma incógnita, não conseguiu até agora nem mesmo fechar acordo com duas outras estatais, a Eletrobrás e a Petrobrás, para usar a infraestrutura de telecomunicações que elas têm.

Vem bomba nas teles

Estão a caminho mudanças importantes no comando das empresas de telecomunicações no país. E não devem passar de junho, com fogo suficiente para pegar gente que se sente muito bem na fita.

Radar NA REAL

25/2/11   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta alta
- Pós-Fixados NA alta alta
Câmbio ²
- EURO 1,3796 alta alta
- REAL 1,6605 estável/alta estável/alta
Mercado Acionário
- Ibovespa 66.902,54 baixa estável/baixa
- S&P 500 1.319,88 alta alta
- NASDAQ 2.781,05 alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.