Terça-feira, 19 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Política & Economia NA REAL n° 173

A guerra da inflação no "dilmismo"

É preciso entender o jogo político do governo e da presidente Dilma para compreender o real movimento de ataque à inflação que está em gestação :

1. A presidente não pode ser alijada dos palanques eleitorais por causa da economia, problemas com emprego e renda.

2. Os aliados não podem perder substância, ou seja, a oposição tem de ficar como está ou diminuir para não se assanhar em 2014 e ganhar reforço no Congresso a partir do ano que vem.

3. Os parceiros não podem ficar sozinhos, donos das vitórias governistas.

Se essas condições contrárias se realizarem, a força presidencial esmorece e ela passa a dividir – se não perder – o embate político para terceiros. Fica em xeque em 2014. Dilma pode até não pensar em outro mandato, o que seria inacreditável, mas precisa manter-se em condições de disputar para ser dona da decisão. Tem de evitar o envelhecimento precoce de seu governo, agora que está conseguindo livrar-se de alguns fantasmas – reais e imaginários – de tutelas e dependências. Assim, a política econômica está subordinada, salvo desastres, a não provocar turbulências no ano que vem. Em Bruxelas, semana passada, ela deu o recado : "Dificilmente se sai da crise sem aumentar o consumo, o investimento e o nível de crescimento". A inflação é uma questão política neste momento brasileiro.  

No fio da navalha

O desafio das autoridades econômicas é definir qual o tamanho da inflação cabe no bolso dos eleitores preferenciais de Dilma, do PT e da nova classe média. Um indicador pode ser as greves que começaram a pipocar. A calmaria sindical com Lula começou a se agitar sob Dilma.

Ato falho ?

O BC, com Alexandre Tombini à frente, em coro com todo o governo, tem assegurado que levará a inflação para o centro da meta, de 4,5% até o fim de 2012. Pois bem ! Em entrevista à "Folha de S.Paulo" de domingo, quando perguntado qual o Brasil espera deixar quando terminar o seu mandato no BC, saiu-se com esta : "Uma inflação estabilizada, na faixa de 4,5% (...)". O mandato dele termina, em tese, em 2014. Nenhum aperto anti-inflacionário maior até lá ? Tombini, em outros tempos, já foi favorável à redução da meta de inflação atual.

E a meta de inflação ?

Com a divulgação do IPCA na semana passada, a inflação "oficial" (para fins de estabelecimento da meta de inflação) está em 7,31% nos últimos doze meses. Bem acima daquilo que se julga, digamos, razoável. De outro lado, ainda não estão sequer parcialmente incluídos os efeitos da recente alta da taxa de câmbio. Seria uma irresponsabilidade operar "no limite" da inflação numa espécie de torcida para que esta caia. Isto não é autoridade monetária, é loteria. Da entrevista do presidente do BC o que se extrai é quase nada de estratégia para resgatar um nível de variação de preços mais modesto. Ora, esta forma de agir de Tombini e seus companheiros de BC afetará não apenas a economia, mas a própria credibilidade institucional da autoridade monetária.

Inflação chinesa

Há problemas de inflação por aqui, mas na China a coisa é mais séria e indica claros problemas mais à frente. A inflação por lá ameaça ir para 10% ao ano (como aqui) e a taxa de juros é negativa em termos reais. Há poucos dados confiáveis, mas a crença de que existe uma "bolha imobiliária" no país está crescendo. Além disso, há sinais mais consistentes dando conta de uma desaceleração no setor industrial. Não à toa, a bolsa de Xangai está em queda e os investidores, discretamente como convém ao lidar com um país comunista, estão vendendo posições. Este é um risco que ainda não surgiu no horizonte concreto das análises. Todavia, se a China se tornar um risco, o mundo tremerá. Como previu Napoleão Bonaparte há mais de dois séculos.

Europa : a primeira solução

A nacionalização do Dexia, o maior banco belga, é uma boa notícia num contexto desastroso na Europa. Pela primeira vez a dupla Merkel-Sarkozy agiu com pragmatismo e, de resto, ainda prometeu mais medidas consistentes até o final do mês para resgatar o euro. Ao que parece, a chanceler alemã entendeu os sinais dos eleitores que a derrotaram recentemente nas eleições regionais e se rendeu ao fato de que a Alemanha está na Europa. Uma lição que Merkel tinha se esquecido. Não dá para prever o grau de profundidade das medidas que virão ao final deste mês. Todavia, não vale a pena "apostar contra". A hora, para os agentes em geral e os investidores em particular, é de observação. Com algum otimismo, diga-se.

Não é apenas a Grécia...

Ultimamente os analistas tratam a Grécia como "o problema" da Europa. De fato, o país está sufocado pelas dívidas. Todavia, vale a lembrança de que a Bélgica que nacionalizou o Dexia e é uma "queridinha" das agências classificadoras de risco é o terceiro país mais endividado da Europa.

Volcker e o essencial

Paul Volcker, ex-presidente do Fed, é daqueles homens públicos que sabem exercer sua missão. Muito embora bem conheça e tenha ótimo trânsito no setor privado, ele não se escusa de sua missão pública. A norma que leva seu nome proíbe que os bancos norte-americanos assumam riscos utilizando-se de seu próprio capital, as chamadas operações de tesouraria. Agora os bancos estrangeiros que atuam nos EUA também devem se enquadrar à norma. Volcker toca naquilo que é essencial no controle de riscos sistêmicos : são os conflitos de interesses entre as operações proprietárias dos bancos e suas tradicionais operações de intermediação os maiores propulsores dos colapsos financeiros. O resto é consequência....

Por que não no Brasil ?

O BC e o governo brasileiro bem que poderiam apertar as regras das operações de tesouraria dos bancos locais e estrangeiros. Ou será que por aqui jamais pode acontecer o mesmo que ocorreu nos EUA ?

CNJ e a economia

Reza uma das máximas da teoria de finanças que a eficiência informacional é essencial para o bom funcionamento dos mercados. Esta é uma ótima lição para o Judiciário brasileiro por em prática. Ao ser muito transparente e atuante nas punições ao "mau funcionamento do mercado judicial", o CNJ estaria contribuindo decisivamente para o aumento da segurança jurídica e para a melhoria dos procedimentos judiciais. Isso é parte essencial da modernidade necessária ao país e mais : é razão para o aumento da produtividade de toda a economia que, na área judiciária, pena nas filas imensas dos cartórios dos fóruns e Tribunais.

Radar NA REAL

7/10/11   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA queda estável
- Pós-Fixados NA queda estável
Câmbio ²
- EURO 1,3654 estável alta
- REAL 1,7489 baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 51.243,64 estável baixa
- S&P 500 1.155,46 estável baixa
- NASDAQ 2.479,35 estável baixa

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Notas do Butantã Federal

Anotações, do mesmo teor, de observadores do ofidiário de Brasília :

1. O vice-presidente foi extremamente mais discreto na substituição de Dilma nas recentes viagens dela aos EUA e à Europa do que havia sido em suas interinidades anteriores.

2. Lula, de público, está mais voltado para as coisas do PT e das eleições municipais e bem menos "observador" das questões Federais.

3. O alter ego ex-presidencial, ministro Gilberto de Carvalho, também tomou um chá de boca fechada.

Pausas e silêncios

Os partidos políticos aliados, de repente, acomodaram-se em suas reivindicações públicas. Ministros, a não ser os que parecem autorizados, falam cada vez menos e quase sempre em questões bem específicas. Instalou-se no poder certo temor reverencial à presidente. Ainda mais que ao que se especula a reforma ministerial deve ser mais ampla do que se imagina.

Uma estratégia para Lula ?

O ex-presidente está empenhado em montar o máximo de alianças possíveis no ano que vem entre os partidos da coalizão de apoio à Dilma. Cobra sacrifícios duros do PT em nome da unidade da aliança governista para 2014. Nem todos estão felizes com isto dentro do PT. As eleições para prefeito são determinantes para as eleições na Câmara e nas Assembleias Legislativas. O temor de alguns petistas é dar espaço para outros aliados. No RS há clima de quase insurreição. Na ótica de petistas mais críticos, para a eleição presidencial a estratégia parece perfeita. Para o resto, nem tanto : nem tudo que é bom para Lula pode ser bom para o PT. Mas como o partido pode reagir se sabe que sem Lula perde a identidade ?

Aécio abre o jogo

Ao abandonar a prudência mineira e se apresentar, em duas entrevistas seguidas, como candidato a candidato à presidência da República por seu partido, o PSDB, o senador faz um lance em três direções :

1. Tenta atrair seu principal concorrente, José Serra, para o centro da liça logo agora, no meio do debate das eleições municipais, nas quais, em São Paulo, o ex-governador paulista é parte diretamente interessada, queira ou não.

2. Procura se firmar como principal foco de oposição, ainda que moderada, ao governo Dilma.

3. Obriga o PSDB a sair da modorra em que se encontra e começar a se preparar para os embates de 2012 e 2014. Como partido, o PSDB não tem nenhuma estratégia geral para essas eleições. Cada cidade e cada grupo tem a sua. Não há agenda, não há planos, não há pauta.

Kassab atropela. E pode ser atropelado.

A conquista da adesão do ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, para o PSD em São Paulo, embora ele pessoalmente não tenha votos, mostra que o prefeito Gilberto Kassab está jogando alto com seu novo partido. Em que direção, ainda não se sabe, pois ele já acenou com possível aliança com Dilma, fez mesuras ao PSDB e tem feitos outros sinais para outros partidos. Sua tática inicial parece ser a de confundir e dividir para tentar reinar. Tanto aparece nas especulações como futuro ministro de Dilma quanto como alguém que pode compor com Geraldo Alckmin. Está atropelando, inclusive o presidente Lula : Meirelles é uma espécie de Haddad de Kassab como Haddad pode ser uma espécie de Meirelles de Lula. Vão correr na mesma faixa. E pode esvaziar o PMDB com Chalita. Falta, no entanto, combinar com o eleitor.

O maior problema de Kassab

O problema maior de Kassab com o PSD não é conseguir adeptos - ele já demonstrou que sabe agir. O mais urgente é garantir um tempo maior na televisão além de um minuto a que tem direito todos os partidos inscritos legalmente no TSE. Sem esta arma, pode ir mal em 2012 e perder densidade política e eleitoral. Ou então terá de se sujeitar a outros partidos para ter espaço e fazer prefeitos e governadores. Como pensar em ganhar, por exemplo, na capital paulista, mesmo com a figura respeitada de Henrique Meirelles, com cerca de 50 segundos de propaganda no rádio e na televisão para dividir também com os candidatos a governador ? A verdadeira batalha judicial para a existência real do PSD vai ser travada no TSE quando o partido pedir para ele o tempo dos deputados Federais que conquistou.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.