Terça-feira, 12 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Política & Economia NA REAL n° 174

Semana importante

No próximo final de semana os líderes da União Europeia definirão as principais medidas de política econômica que balizarão o "resgate" do Velho Continente. Não será um "fim de semana da Grécia", como certos analistas vivem a apregoar. De fato, a Grécia não é mais a "ponta de um iceberg". É apenas uma modesta representação da crise de crédito de todos os países da Europa Meridional somada à Irlanda, o primeiro dos países a apresentar sinais de exaustão de credibilidade. Há razões objetivas para certo otimismo. Destacamos duas : (i) finalmente, os países europeus se conformaram com a ideia de que a crise é bem maior que a vocação alemã para tratar assuntos continentais e (ii) o tamanho do pacote de recursos para resgatar a credibilidade soberana e bancária – estima-se em algo como dois trilhões de euros.

Reação do mercado

Foram as informações sobre o resgate europeu que lideraram a onda de boas notícias nas últimas duas semanas. Como sempre, o mercado reagiu às expectativas. Resta saber o quanto a reação dos preços dos ativos realmente tem consistência com os fatos (presumidamente verdadeiros). De toda a forma, não há razões para se apostar contra e acreditar que não há algo de novo no front. O pacote, desta vez, é consistente. Se a leitura dos agentes for negativa em relação àquilo que for divulgado no próximo final de semana, teremos um cenário muito piorado, pois o esforço fiscal que está sendo feito é gigantesco.

Grécia : Eureka !

Há aqueles que jocosamente dizem que a Grécia venderá suas belíssimas ilhas para salvar o país. Piada de gosto duvidoso sobre aquela que sedia a origem da civilização ocidental. Ademais, apenas os que desconhecem a história grega e os gregos são capazes de tão imenso mau gosto. De fato, erros grosseiros foram cometidos pelo governo helênico. Não cabe aqui relatá-los. Todavia, submeter um país a uma taxa de desemprego equivalente à da grande depressão pós-29 nos EUA e fazer com que uma geração inteira perca a esperança, somente policy markers localizados em Berlim ou Frankfurt podem imaginar que vai dar certo. Pois bem : finalmente se descobriu (eureka ?!) que a dívida grega é impagável e é preciso impor perdas não aos tesouros de cada país da Europa, mas também aos investidores irresponsáveis. À Grécia o sofrimento já sobra.

Brasil, de novo o Copom

Esta coluna sempre apoiou a queda da taxa de juros básica, injustificável lenda construída por décadas. Todavia, já alertamos os nossos leitores sobre o quão mal feita foi a introdução da estratégia governamental para reduzi-la, no exato momento em que se desconfia que a inflação caminha além do devido controle. Além disso, falta ao governo uma estratégia abrangente que envolva não apenas a política monetária, mas especialmente a política fiscal e as reformas do Estado. Pois bem : nesta quarta-feira deve vir mais queda da taxa básica de juros. Não será surpresa quando consultamos o oráculo do mercado. É certo que a atividade econômica se reduz e numa velocidade considerável. Reflexos do que ocorre lá fora, mas também fruto da falta de competência doméstica. Esta queda da atividade justificará a ação do BC. Silente ou evasiva será sua visão sobre a inflação.

A taxa de câmbio

Cai o real, mas nem tanto. Pode até valorizar no curto prazo. Os investidores, contudo, estão a observar a queda das commodities no mercado internacional e, neste item, não somente o ritmo preocupa, mas também os efeitos colaterais no médio prazo. Ainda mais com a China colecionando riscos que afloraram mais à frente, especialmente a falta de higidez do sistema financeiro e a inflação que campeia o país comunista. Repete-se até exageradamente que "não há almoço grátis". Verdade. O problema é que no Brasil o almoço está mesmo é caro e os seus efeitos políticos virão. Com a correção feita pelos eleitores que nas urnas depositam suas esperanças e decepções. O real é, a nosso ver, o maior risco para a política econômica do Brasil. Assunto pouco comentado, mas quando entrar na pauta vai levantar poeira.

Bolsa de Valores : dúvidas

Em conversa com um administrador de carteiras norte-americano ouvimos a seguinte pergunta : por que um investidor deveria pagar preços tão mais altos por ações brasileiras ? Esta questão foi feita em função de uma análise do investidor que mostra que o PIB do país não irá crescer tanto a ponto de justificar os preços das ações de empresas brasileiras. Além disso, continuou o raciocínio, "quando visito o Brasil vejo que os controladores do capital das empresas estão sedentos para vender suas posições. Ora, porque um investidor de mercado deveria comprar quando os donos do capital vendem ?".

Wall Street ocupada

Espalha-se o movimento surgido nas ruas da capital financeira do globo. Vai se espalhando pelos EUA e ao redor do mundo. Nada mais natural verificarmos que sociedades organizadas questionem o caminho do próprio dinheiro, aquele que sai dos cofres públicos na direção de instituições que faliram por força da irresponsabilidade de seus gestores endinheirados. Se esta constatação é factual, de um lado, de outro ainda não sabemos se as ocupações de ruas e praças resultarão na politização necessária para transformar a política. Até agora, a tradução dos fatos para as ações políticas não aconteceu. Na última semana, até o latin lover Berlusconi conseguiu sobreviver ao voto de confiança do parlamento italiano. Na França, Nicolas Sarkozy lidera as pesquisas para a eleição de 2012. Na Espanha, Zapatero finge que a crise não chegou. Na Alemanha, Angela Merkel deita e rola no parlamento e apenas apanhou nas eleições municipais. E assim vai. Ao que parece os efeitos maiores cairão sobre Obama que, além das esperanças iniciais de sua gestão, mostrou que é uma figura pálida e híbrida : mistura discursos de Bush com os de Martin Luther King e acaba gestando políticas de Jimmy Carter, o georgiano que deixou a economia dos EUA de pernas para o ar.

Radar NA REAL

14/10/11   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA queda estável
- Pós-Fixados NA queda estável
Câmbio ²
- EURO 1,3760 estável alta
- REAL 1,7520 baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 55.030,50 estável baixa
- S&P 500 1.224,58 estável baixa
- NASDAQ 2.672,96 estável baixa

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Deve-se levar a sério Orlando Silva (I)

Orlando Silva, não este patético ministro de Dilma, mas "o cantor das multidões" (1915-1978), cantava na música Tristeza :

Esta será a última canção
Que cantarei ao me despedir
Depois verás então
Em breve eu partir
Para não ver em vão
O teu sorrir.

Esta música cai com perfeição nos lábios de boa parte da classe política. Sobretudo, para o PT e o PMDB, ávidos não apenas pelo poder nas bordas do governo, mas também de olho nos volumosos recursos que a Copa e as Olimpíadas despejam no ex-micro ministério. Neste ponto, valerá apreciar os passos presidenciais. A presidente Dilma, ansiosa em dar um choque de gestão sobre as obras esportivas, pode cair na tentação de tornar o cargo mais, digamos, tecnocrático. Isso pode significar um reequilíbrio de forças dentro do governo com efeitos bem além deles.

Deve-se levar a sério Orlando Silva (II)

Um dos efeitos mais prováveis, caso a presidente tome outro rumo que não seja colocar um político do PC do B no lugar de Orlando Silva, será em relação ao jogo de poder que envolve o todo poderoso Ricardo Teixeira e o silencioso presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Este dois personagens exercem certas tarefas como se governamentais fossem e contavam com algo mais que simpatia do quase ex-ministro. Portanto, aqueles que acompanham não apenas fatos, mas tendências, devem apreciar com especial carinho os próximos passos da presidente Dilma

"Limpeza ética"

A presidente Dilma vem fazendo um louvável esforço para colocar certos pingos nos "is" quando o assunto é corrupção. Como herdeira dos votos de seu antecessor, não é tarefa fácil. Ao mesmo tempo em que a "limpeza do governo" lhe dá credibilidade, o que é fator de legitimação política, de outro lado a presidente se descredencia perante Lula e seu (imenso) grupo de acólitos. Ora, se a presidente prosseguir em seu esforço de higiene política, a aliança do governo tremerá de novo e, aí, não apenas Temer, Sarney, Dirceu e cia. terão de ser chamados, mas também os candidatos das próximas eleições, os quais ficam bem sensíveis em relação à obtenção de apoio político de seus parceiros que anseiam o poder municipal. Um risco que a presidente terá de correr se quiser seguir com sua imagem ética.

Esquerda brasileira

Muitos temeram a esquerda brasileira no governo. Há ainda os que a temem. Convenhamos : nada mais fora de esquadro. Do ponto de vista ideológico, resta-nos poucos comentários de vez que chega a ser risível imaginarmos um governo que possa convocar o marxismo real do século XX como elemento de transformação sócio-político. Do ponto de vista econômico, o que podemos ver é um quadro feliz de convivência dos esquerdistas com os antigos e modernos burgueses (na falta de melhor palavra). À esquerda brasileira no poder falta é caráter na acepção macunaímica do termo. O PC do B de Orlando Silva é daqueles partidos que pregaram o marxismo de Enver Hoxha - para quem não sabe, foi um ditador da Albânia - e acabaram se complicando com acusações de recebimento de dinheiro em garagens. Nada mais esquisito, para dizer o mínimo. Tão esquisito como ver o ex-guerrilheiro José Dirceu como lobista, o ex-trotskista Antonio Palocci como colecionador de milhões com duvidosas consultorias. Sinceramente...

Nome do PC do B

Aldo Rebelo, ex-candidato ao TCU, um esquerdista de velha cepa, será lembrado para o lugar de Orlando Silva, seu companheiro de lutas comunistas. Se Dilma mantiver o status do partido no governo, é claro.

Comportamento de Celso Amorim

De um general conhecedor das coisas que acontecem nas casernas : "Celso Amorim é um excelente ministro da Defesa. Sabe brigar silenciosamente pelas verbas para reequipar as forças armadas e não gosta de vestir roupa de general". Nelson Jobim não deixou saudades nas fileiras militares.

Política paulista

Convenhamos que não parece sério que um deputado estadual, no caso Roque Barbieri, faça denúncias sobre propinas na liberação de verbas do governo paulista, que o PSDB evite uma desconfortável CPI na Assembleia Legislativa, e, ao mesmo tempo, pregue investigações do governo Federal nas Casas Legislativas Federais. Falta mais do que coerência. Falta vergonha.

Kassab e os infelizes

A pesca do prefeito paulistano continua. Tenta, de um lado, atrair Alckmin para sua banda na eleição municipal e, ao mesmo tempo, flerta com Dilma de olho na provável reforma ministerial no início de 2012. Não bastasse o contorcionismo político, há uma proposta de Assembleia Constituinte para reformar a atual e não muito velha Constituição e, ainda, reserva espaços para o ex-banqueiro Henrique Meirelles nas suas fileiras. Pois bem : com tudo isto não será surpresa que o PSD chegue à eleição de 2014 com grandes chances de ser de fato o fiel da balança de muitos candidatos a cargos majoritários. Não são poucos os infelizes em seus respectivos partidos. Se o governo falhar na política econômica, a coisa pode ficar ainda mais favorável ao PSD de Kassab.

Argentina : sob a benção das urnas

A mais que provável eleição de Cristina Kirchner no próximo domingo na Argentina é daqueles acontecimentos que não apenas suscitam temores, mas também ressuscitam fantasmas. Estruturalmente, os riscos econômicos do país são consideráveis, sobretudo em relação à inflação, à política cambial – esta, estratégica para o Brasil – e à falta de investimentos privados e públicos. Falta, porém, alternativa popular para o projeto de Kirchner. A oposição patina sem programa e os empresários temem retaliações. Estes são os temores. Já os fantasmas são bem reais : o controle da mídia, marcado por uma espécie de "peleguismo", e o populismo que destruiu o projeto nacional desde Péron. Do lado do Brasil deveríamos nos preocupar com o que o Itamaraty acha de tudo isso, afinal estamos a falar do mais inquieto dentre os grandes parceiros econômicos do Brasil.

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A coluna Política & Economia NA REAL, integrante do portal Migalhas (www.migalhas.com.br), é assinada por José Marcio Mendonça e Francisco Petros.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.