Terça-feira, 12 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Política & Economia NA REAL n° 184

Brasil : calma externa e letargia

Num contexto em que a economia norte-americana dá evidentes sinais de fortalecimento e que os riscos sistêmicos, embora altos, estão menos agudos, a economia brasileira vai se saindo bem dos turbilhões dos últimos anos. Todavia, há que se observar o enorme desperdício de oportunidades para colocar o país diante de um cenário sustentável e progressista. Há uma conformidade, não somente do governo, mas de toda a sociedade, em permanecer ao largo de reformas estruturais. Da educação à infraestrutura, passando pela tributação e previdência, nada de novo se verifica na política brasileira. A ausência de conflitos é mais sinal de doença que de vitalidade : a coalizão serve à manutenção da estabilidade do governo, mas cria um imobilismo secular. Mesmo os avanços, tal qual a previdência do setor público, são mitigados pelos interesses corporativos, os quais são pacificados antes mesmo de serem conflitados. Não há debate e nem greves. Os partidos são aglomerados comandados por elites que loteiam o setor público com seus asseclas. O cenário não é de calma, é de letargia.

O imediato e o futuro

Como não há um "projeto Brasil" vamos de remendo em remendo, de tapa buraco, em tapa buraco, de olho sempre na próxima eleição : sobe e desde IOF ; IPI ; juros ; crédito ; compulsório bancário ; contingenciamento do Orçamento ; carga tributária... Não é sem razão que um funcionário do tipo burocrata-obediente fez um desabafo na semana passada que define a situação com perfeição e vale para tudo. De Bernardo Figueiredo, presidente da ANTT : "Estamos no limite da gambiarra, do apagão logístico". O país do etanol e autossuficiente em petróleo importa... etanol e petróleo.

Inflação e câmbio lideram preocupações

Se no âmbito dos fatores estruturais a economia brasileira é letárgica, do ponto de vista conjuntural sobra à sociedade dois problemas críticos : a inflação elevada que está destruindo o poder da moeda no longo prazo e a sobrevalorização cambial que inviabiliza a indústria brasileira do ponto de vista da competitividade externa. Há chances concretas da inflação cair um pouco mais neste primeiro trimestre e, talvez no segundo. Todavia, isto dependerá, como vem dependendo, do desempenho da taxa cambial e da relativamente fraca atividade econômica. Qualquer mexida para cima destes dois fatores há de influenciar a evolução dos preços domésticos. Ou seja, há uma equação entre atividade, câmbio e inflação, ainda para ser resolvida. Por enquanto, o governo não esboça nenhuma solução que seja crível.

EUA : PIB para cima

Nesta semana, será divulgado o PIB norte-americano do quarto trimestre de 2011. O crescimento deve gravitar ao redor de 3% em função do aumento do consumo e da reposição de estoques do setor produtivo. Uma excelente notícia para o mundo e para o pálido presidente Obama. O crescimento deste ano deve atingir algo entre 2,5% e 3,0%. Todavia, os eleitores irão às urnas pensando no próprio emprego.

Reunião do Fed

Nada de novo deve ser esperado da reunião do Banco Central dos EUA nos próximos dias 24 e 25 de janeiro. Já se sabe que a taxa de juros básica ficará praticamente zerada daqui até meados de 2013 e que os riscos de alta da inflação são negligenciáveis. Enquanto isso, todos esperarão a análise dos policy makers sobre a atividade econômica em alta.

Agências de rating

Os investidores não deram a menor bola para os rebaixamentos da nota do risco de crédito de países europeus, inclusa aí a França, da Standard & Poor´s. De outro lado, os burocratas da União Europeia, em Bruxelas, continuam a observar as ordens emanadas de Berlim. As agências de classificação de risco não têm credibilidade, como sabemos. Os erros seguidos desde meados dos anos 90 ensinaram que daquele oráculo não há pitonisa que seja crível. Todavia, ainda há efeitos significativos nestas reclassificações : há fundos que são obrigados a vender ou comprar títulos de países que são "reclassificados" pelas agências de risco. Isto ocorre por força de previsões nos estatutos destes fundos. Portanto, apesar de toda a falta de credibilidade das agências, há quem seja obrigado a segui-las. Isto fere a própria eficiência de mercado.

Radar NA REAL

Continuamos a acreditar que o mercado acionário norte-americano continuará a ser o destaque dentre os diversos segmentos do mercado financeiro mundial. A recuperação da atividade econômica americana num cenário de menores riscos agudos, até mesmo no Velho Continente, vai "inflacionando" os preços dos ativos. No Brasil, o BC deu provas que tentará estabilizar os juros básicos num patamar ainda mais baixo, apesar da inflação ainda estar num patamar elevado. No mercado de câmbio, a estabilidade é jogo quase dado. Resta o mercado acionário que será positivamente influenciado pelo melhor desempenho do mercado externo, mas que encontra duas barreiras muito importantes : (i) há muitas operações de venda de ações da parte de fundos de private equity e de acionistas controladores, o que aumenta a oferta de ativos num mercado ainda débil de demanda e (ii) a cada vez menor atuação de investidores estrangeiros no mercado local.

20/1/12   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA baixa baixa
- Pós-Fixados NA baixa baixa
Câmbio ²
- EURO 1,2864 baixa baixa
- REAL 1,7553 estável/baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 62.312,10 estável/alta estável
- S&P 500 1.315,38 alta alta
- NASDAQ 2.786,70 alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Caroço no angu baiano

Fica combinado assim : o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, deixa o cargo no próximo mês para Maria das Graças Foster (conhecida como Graça Foster) e desembarca numa secretaria do governo da Bahia para se preparar para a sucessão de Jaques Wagner, daqui a três anos. Esta é a versão oficial. Mas as paredes dizem :

1. As relações da presidente Dilma com Gabrielli, desde os tempos que ela ainda estava apenas ministra, sempre estiveram mais para UFC do que para Pequeno Príncipe.

2. Graça é das graças de fé de Dilma, que quando formava seu governo pensou para ele a própria presidência da Petrobras e até a Casa Civil, mas prevaleceram as preferências de Lula, respectivamente por Gabrielli e Palocci.

3. Gabrielli tinha laivos de independência ; Graça é técnica e dedicada.

4. Na Petrobras, Dilma aposta muitas fichas de investimentos para o PIB brasileiro crescer os 5% que ela espera este ano. No ano passado, a empresa de Gabrielli não cumpriu seu cronograma de gastos.

5. O TCU está de olho nos gastos da empresa sem licitações.

De barbas e pulgas

Depois de tudo que Brasília deixou vazar para explicar a troca de Gabrielli para Graça Foster, com insinuações de que se dá mais um esvaziamento do lulismo e do petismo no poder Federal, os últimos fios das barbas do PT entraram de molho e a pulga atrás da orelha de Lula ficou assanhadíssima. Na esteira de Gabrielli sairiam outros apadrinhados políticos da direção da empresa, substituídos, ao gosto da presidente, por técnicos. Finalmente começam a desconfiar que Dilma está balançando a árvore da aliança partidária escalada por Lula para elegê-la, sustentá-la e tutelá-la. Outros aliados também que se apoquetem. Sem força política própria ainda, Dilma tenta comê-los pelas bordas. E como tem a caneta, o Diário Oficial e a carranca...

Nó em pingo de chuva

Dilma, no ajuste ministerial, está enrolando em papel machê todos os aliados, inclusive o PT e o PMDB de Michel Temer. Estão todos emburradinhos. Ninguém, porém, vai chiar em público contra uma presidente que chega ao segundo ano de mandato com mais popularidade até do que Lula na mesma ocasião. Nesse páreo, FHC não vê nem poeira. E a única ameaça que a presidente pode ter pela frente nos próximos meses é um desarranjo na economia, cujos cordões ela não controla todos.

Simples assim

Do professor Renato Janine Ribeiro, da USP, em artigo no jornal "Valor Econômico" de ontem : "O PT está fazendo muita falta ao Brasil : na oposição... Dizendo isso, não estou criticando - aliás, nem elogiando - seu governo ; só constato que desde 2003, quando ele ganhou as eleições para a presidência da República, não tivemos mais oposição digna desse nome." Algo a acrescentar ?

Balançando a roseira

FHC balançou todos os galhos da frondosa árvore onde os tucanos, em prolongado ano sabático de oposicionismo, curtiam suas fogueiras de vaidades e idiossincrasias. Há tempos o ex-presidente vem tentando tirar os parceiros da modorra em que mergulharam dando-lhes algumas indicações de como fazer oposição. Inclusive quando mandou os procurar a nova tal classe média. Na verdade, indicava que eles deveriam sair do ar condicionado e ir comer poeira atrás dos eleitores. Não conseguiu grande entusiasmo e agora então balançou a roseira dos parceiros ao meter seu palpite na disputa que paralisa o PSDB e toda a oposição, entre Aécio e Serra para ver quem "perderá" a próxima eleição de Lula e o PT e os seus parceiros. Com a defesa da candidatura do mineiro, que ele considera natural, deve obrigar os tucanos a se mexer e joga Serra no sereno. Será curioso ver a reação do ex-governador paulista, em tese mais amigo de FHC que Aécio.

O jogo de Kassab

Não é preciso ir muito longe para verificarmos o absurdo : o PSD de Kassab flerta com o PT para ver se o antigo parceiro fiel, o PSDB, cai em seus braços. O PT que faz acirrada oposição ao prefeito paulistano, começa a avaliar a aliança não apenas como "possível", mas como "desejável" dada a sua ambição de retomar o controle da maior cidade do país. A situação seria risível se não tivesse os efeitos nefastos sobre o processo democrático que necessita de mínima sintonia entre ideologia partidária e o distinto eleitorado. Diz-se, nas rodinhas de políticos, inclusos os de alto coturno, que "a política é a arte do possível". No caso de Kassab, "a política é o circo do impossível".

Sem cacife

O problema do prefeito paulistano é que, no momento, ele não tem um dote muito generoso a oferecer aos parceiros que tem procurado, a não ser que inclua nesses bens a máquina da prefeitura na campanha. Sua popularidade está no porão e o PSD não sabe se terá um tempinho alentado no horário gratuito no rádio e na televisão. Quem precisa mesmo, desesperadamente, de alianças, e não só na capital paulista, é o partido de Kassab. Para não virar um natimorto.

Mercadante e a arrogância

Ao que parece, o ministro Mercadante terá muita chance de reaver um pouco de seu debilitado capital político, ao assumir o ministério da Educação. Não sossega em pensar em nova candidatura o governo de SP em 2014. Dentre os vários percalços em seu caminho político está a sua conhecida arrogância. Conta-nos um transeunte contumaz dos corredores do poder de Brasília uma cena que ilustra esta característica de sua personalidade. Vinha certo dia o bochechudo senador (hoje ex) Heráclito Fortes (DEM/PI) andando pelos corredores do Senado Federal quando vê um colega dando entrevista para a TV. Passa por ele e cumprimenta o colega : "bom dia Mercadante!". Logo após a entrevista, o colega questiona Fortes a razão de chamá-lo não pelo seu nome, mas pelo nome do ex-senador paulista. Fortes explica : "se está dando entrevista para a TV com grande afinco e não responde sequer "bom dia" aos colegas, só pode ser o Mercadante...". A "simpatia" ambulante de Mercadante já causa arrepios nos habitantes de sua nova pasta, acostumados à suavidade no trato de Fernando Haddad.

____________

Busca verbete por título

A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z

* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.