Quarta-feira, 13 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Política & Economia NA REAL n° 187

Novidades da política monetária

Ao que parece o BC vai tentar alternar ainda mais a política monetária vigente. Além de reduzir a taxa de juros básica por meio de um remodelado sistema de metas de inflação, o BC levará em conta alguns aspectos específicos sobre o desempenho da economia internacional. Para muitos dos policy makers incrustados na autoridade monetária o cenário de atividade econômica externa será muito pior que aquela que o tal do "mercado" prevê. Será esta a motivação mais importante para levar a taxa de juros para algo como 8% ao final do ano. O cenário fiscal do governo não se mostra mais restritivo, mas mesmo assim o BC acredita que tem os elementos econômicos para justificar uma política monetária ainda mais expansionista. O problema concreto é que a inflação continua alta e o real valorizado coloca um ponto de interrogação sobre a sustentação desta estratégia do governo.

A pior notícia do ano...

...para o Brasil a economia veio da China : as importações chinesas caíram 15,3% em janeiro. Ainda não dá para saber se é uma tendência, por causa do crescimento menor, ainda que bem elevado da economia local. Mas se for... apertemos o cinto. Este parece ser a principal justificativa para o BC estar tão pessimista em relação ao cenário internacional.

Grécia : o pacote vai, mas o país fica

O pacote de ajuda à Grécia deve sair, mas as possibilidades do país se sustentar são cada vez menores. O corte da dívida parece ser insuficiente para o quadro recessivo e permanente a que o povo grego está sujeito. Além do mais os US$ 170 bi da dívida refinanciada tem uma taxa de juros elevada (3% ao ano) para as perspectivas do PIB do país. Até agora o que dá para dizer é que o plano franco-germânico conseguiu levar ao país a repetir o cenário da grande depressão dos EUA dos anos 30, com consequências políticas imprevisíveis. As demonstrações em Atenas simbolizam não apenas a perda do status quo da classe média do país. São protestos desesperados de um país europeu perante seus próprios parceiros. Estamos bem mais perto do colapso do país e, quiçá, do euro. A Alemanha parece que não se lembra de sua própria história pré-ascensão de Adolf Hitler.

Obama e Robin Hood

Em ano eleitoral, o presidente Obama tenta equilibrar as contas públicas por meio do aumento da taxação de dividendos de 15% para 39,6% para casais que ganham mais de US$ 250 mil e indivíduos que ganham mais de US$ 200 mil por ano. Adicionalmente, Obama proporá ao Congresso aumento da tributação de ganhos de capital e impostos para manter o novo sistema universal de saúde. Tudo isso, eleva a tributação em mais de US$ 1,4 trilhão de impostos nos próximos dez anos. Estas propostas terão resistência num Congresso controlado pelos republicanos. Não tenhamos ilusões, contudo. Se os republicanos ganharem as eleições novos impostos virão, para sustentar o monumental déficit realizado pelo governo para sustentar a frágil atividade econômica do país pós-2008. Para os republicanos, a taxação deve ser mais linear. Obama tenta tirar dos ricos e dar aos pobres, tal qual o simpático morador da Floresta de Sherwood. O arco e flecha de Obama é um articulado discurso voltado para os desempregados que ele quer ver colocando seu nome na urna.

PMs : barrigada nacional

Há um alívio e até alguma satisfação com o fim oficial da "greve" da PM da Bahia e o fracasso da paralisação dos PMs do RJ. De fato, não havia outra saída para as autoridades senão enquadrar os rebelados, com a intransigência de nem ao menos discutir, agora ou no futuro, qualquer tipo de anistia, como se fez no passado recente com aprovação do Congresso e sanção da presidente Dilma. Há na democracia um princípio chamado "Estado de Direito" que é intocável. Porém, o problema que gerou a confusão na Bahia e no Rio e ameaçou avançar por outros Estados não foi eliminado com o enquadramento dos policiais baianos e fluminenses. A polícia continua ganhando muito mal de um modo geral, é mal treinada, tem péssimas condições de trabalho, com equipamentos insuficientes e muitas vezes obsoletos, não há uma política nacional de segurança pública eficiente nem políticas regionais de qualidade. Barrar a votação da PEC 300 – que equipara os salários dos policiais e bombeiros de todo o país aos dos mais bem pagos, de Brasília – não é uma rima nem uma solução. Empurrar a questão com a barriga, escudando-se na necessidade de manter o poder da autoridade e na desculpa de que as contas públicas não suportam mais gastos nesta área, é continuar alimentando o ovo de uma serpente venenosa e de grande poder de desestabilização social e política.

Wagner e os números

O motim da polícia baiana ajudou a esconder o descalabro da segurança pública no Estado nos últimos anos. Os números são eloquentes demais : o total de homicídios em Salvador saltou de 315 em 2000 para 1.484 em 2011. Em 2000, a taxa de mortes por cem mil habitantes na região metropolitana da capital era de 12,9 relativamente a 26 do Brasil; em 2011, com 55,5 – pulou honrosamente para o sétimo lugar. No Rio e, principalmente, em São Paulo, essas taxas têm caído consistentemente. Mas não há nenhum governador mais festeiro no Brasil do que Jaques Wagner.

A Lula, as batatas. Ou melhor, a política

Lula escolheu pessoalmente e solitariamente o candidato à prefeito de SP pelo PT, Fernando Haddad. Além disso, determinou que o partido faça aliança na capital paulista com Kassab. Estabeleceu também a estratégia eleitoral petista para as grandes cidades : ceder a cabeça de chapa aos aliados quando eles tiverem alguma chance maior que a do PT. A ordem é priorizar o jogo de 2014. Lula ainda interferiu na disputa dos senadores petistas determinando que aceitassem a permanência de Marta Suplicy na vice-presidência do Senado, contrariando acordo firmado no ano passado segundo o qual ela cederia o posto a José Pimentel. Na Câmara, o ex-presidente ordenou que o deputado José Guimarães, cujo assessor foi flagrado com dólares na cueca pela polícia há poucos anos, deixasse para o paulista Gilmar Tato a liderança do PT na Câmara. A presidente Dilma consulta-se permanentemente com o presidente em questões partidárias. Nenhuma troca de ministros e funcionários graduados do governo deixou de ser comunicada com antecedência a ele. Quando uma coisa não agradou ao ex, como a ideia de reduzir o número de ministérios, foi imediatamente arquivada, sem discussões. Dilma e o PT terceirizaram de vez as operações políticas para quem de fato entende do negócio.

Susto seletivo

A ex-prefeita e senadora Marta Suplicy revelou-se assustada com a possibilidade de acordar de "mãos dadas" com Kassab. Para marcar posição contra esta aliança patrocinada por Lula não foi nem à festa em Brasília pelos 32 anos de vida do PT. Mais parece uma indignação coletiva, levada pela mágoa de ter sido tirada a fórceps da disputa pela prefeitura paulistana. Afinal, nunca incomodou a Marta amanhecer de "mãos dadas" com Maluf, Collor, Sarney e outras antigas bestas-feras do petismo.

Unidade ameaçada

Não apenas para Marta parece estar sendo indigesto demais deglutir um acordo com Kassab. Há petistas muito bem postados e politicamente maduros que temem um racha no partido em SP, com reflexos em outros lugares nos quais também companheiros estão sendo forçados a renunciar para beneficiar aliados. Também em BH a situação está fervendo, como não é tranquila no PR. Um levantamento preliminar indica que das 26 capitais em 13 o PT cederá vagas de cabeça de chapa a parceiros. É muito para os estômagos mais delicados.

O homem da buzina

As ações de Kassab, vendendo-se ao PT e botando preço para um acordo com o PSDB de Alckmin, ao mesmo tempo em que dá sinais de que poderá aparecer na corrida eleitoral paulistana com um candidato próprio, tem lá o seu método. Kassab precisa manter a chama de que tem força política. Até agora, ele não tem dotes a oferecer aos candidatos : sua popularidade é pífia e o PSD não tem tempo substancial no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão, o grande motivador de dez entre dez alianças eleitorais. Desconfia-se também que Kassab está tão "oferecido" ao PT, a Lula e ao governo na esperança de que eles ajudem a influenciar a justiça no pleito do PSD de conquistar mais dinheiro do fundo partidário e mais tempo no rádio e na televisão. Diz um ditado da política brasileira que muita esperteza costuma comer o espertinho.

Cinzas oposicionistas

Pelo mover do cabriolé, a oposição não dá as caras para valer antes do Carnaval, quiçá apenas após a aleluia. Quando aparece, é mais do mesmo, fica apenas nas minudências. As ironias da semana passada sobre a incoerência do PT no caso das privatizações é pura infantilidade.

Privatização, uma discussão semântica

Governo e aliados, de um lado, e oposição, de outro, trocam farpas e caneladas para saber que o leilão dos aeroportos foi apenas uma concessão (tese governista) ou uma privatização (tese oposicionista). Discussão periférica. As questões centrais são :

1. Saber se há de fato uma mudança nos, como se diz, paradigmas petistas e dilmistas, e o governo vai prosseguir nessa toada ou a privatização foi levada apenas pelo "estado de necessidade" criado pela Copa e pela Olimpíada. As dúvidas são pertinentes : ainda no fim da semana passada o governo reforçou a musculatura da Telebrás, uma estatal que estava para ser extinta e foi revivida há cerca de dois anos, sem ainda ter dito para que de fato serve, embora tenha aumentado bastante seu custo para os cofres públicos.

2. Saber se de fato a concessão dos Aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília foi um bom negócio, se vai funcionar ou se o governo vai correr para tapar buracos. O próprio Palácio do Planalto parece ter dúvidas, tanto que vozes oficiosas já aparecem para dizer que a presidente Dilma ficou preocupada com a situação dos consórcios e que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, convocou dirigentes de fundos de pensão das estatais para que eles expliquem o surpreendente valor do lance no principal aeroporto licitado. Isto é o que interessa, o resto é paisagem.

Bobagem maior

Fazer cartilhas políticas para explicar medidas políticas soa como uma volta ao passado da esquerda soviética durante a ditadura comunista pós-1917. O PT quer fazer uma cartilha para explicar que as concessões de aeroportos não são a "privataria" tucana do passado. Mas, será que a cartilha vai explicar também as razões da incompetência estatal na gestão de empresas e concessões públicas ? Ou será que as concessões feitas às empresas privadas não são uma tentativa de sair do lamaçal estatal ?

Radar NA REAL

10/2/12 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA baixa baixa
- Pós-Fixados NA baixa baixa
Câmbio ²
- EURO 1,3210 baixa baixa
- REAL 1,7200 estável/baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 63.997,86 estável/alta estável
- S&P 500 1.342,64 alta alta
- NASDAQ 2.903,88 alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Dialética defliniana

Do ex-ministro e ex-deputado Delfim Neto em entrevista no jornal "Valor Econômico" :

"Tenho uma grande confiança na dialética entre a urna e o mercado. Cada vez que a urna exagera nos benefícios, o mercado vem e pune. E cada vez que o mercado exagera, vem a urna e pune."

Acerto das contas

O ministro Mantega expõe amanhã, na primeira reunião do ano, o Conselho Político do governo, o estado das contas da União e dá indicações dos cortes que deverão ser anunciados no Orçamento deste ano – cortes preliminares, é verdade. No mundo oficial trabalha-se com três números : R$ 60 bi, pela calculadora dos técnicos da Fazenda; algo entre R$ 55 e R$ 50 bi pelos ábacos dos ministros econômicos, e perto de R$ 45 bi na ponta do lápis do universo do Palácio do Planalto.

Em revisão

Depois da comprovação dos atrasos nas obras de transposição do Rio S. Francisco e da ferrovia Transnordestina, as palavras "eficiência" e "competência" estão sendo postas em xeque em muitos gabinetes coroados de Brasília.

Longevidade ministerial

Não foram poucas as especulações intramuros do poder central, na semana passada, de que Guido Mantega poderia sair em breve do ministério da Fazenda em função de seus problemas pessoais relacionados com a saúde de sua esposa.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.