Segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 15 de maio de 2012

Política & Economia NA REAL n° 197

O cenário deve piorar I

A imensa dificuldade da Grécia em formar um governo, seja de união nacional ou não, simboliza o quão está esgarçada a sociedade daquele país. Todavia, o momento grego não é nada exclusivo. A desesperança, o desemprego, a ausência de alternativas reais na economia e na política não são monopólio do pequeno país balcânico. O tratamento da crise por parte da União Europeia (que segue os passos dos franceses e dos germânicos), do Banco Central Europeu e do é simplesmente um desastre, seja nos resultados produzidos até agora, seja no conteúdo recessivo das medidas de austeridade. O Velho Continente caminha para um cenário que pode combinar uma severa depressão e uma instabilidade política nunca vista depois da queda da Alemanha hitlerista.

O cenário deve piorar II

Os operadores e os próprios governos já tratam a Grécia como um país a caminho (curto, provavelmente) para a saída do euro. É provável que as autoridades estejam subestimando os efeitos deste fato, tratado com certa negligência pelos analistas de plantão. Todavia, os sinais são de forte deterioração do crédito no sistema financeiro espanhol, bem como em Portugal, Irlanda, Itália e, até mesmo, na França. Na Alemanha, os efeitos econômicos são bem menores, mas já há sinais de que a chanceler Angela Merkel começa a perder suporte político. A nosso ver a Europa está próxima de reviver e, quem sabe, ampliar o stress do período final de 2008 e do primeiro trimestre de 2011. As quedas das principais bolsas europeias são apenas um prenúncio do que está por vir, caso a passividade política prossiga sendo a principal marca entre os europeus.

A negação da política

Foi destaque no jornal espanhol "El País", mas passou longe da percepção do mundo político brasileiro, um fenômeno observado nas eleições provinciais italianas. Pouco conhecido fora da Itália, o Movimento 5 Estrelas, cujo mote é "não aos partidos", conseguiu significativa votação em várias regiões e estará representada com bom número de vereadores em grande parte dos municípios da Bota. Já é a terceira força do país nas províncias. E ontem, na Espanha, com grandes manifestações, o movimento dos "indignados", comemorou seu primeiro ano de existência.

Brasil vai sofrer mais que no passado

Convenhamos. Lula disse ao final de 2008 que a economia brasileira sofreria apenas os abalos de uma "marolinha" frente ao tsunami internacional. Depois de implementar medidas de estímulo econômico provou-se que o ex-presidente estava certo. O estilo Dilma é mais discreto, muito embora seja mais diretamente atuante na definição das medidas que devem ser tomadas para resguardar a economia brasileira. Só que desta vez os efeitos da crise internacional serão mais sentidos por aqui. Os preços das commodities não estão mais no pico, os investidores estrangeiros reajustam suas carteiras resgatando recursos investidos em ativos brasileiros e a confiança doméstica deve ser negativamente afetada pelo fraco crescimento da economia brasileira. O dólar é o melhor indicador da evolução dos fatos e será dele que extrairemos os principais custos políticos e econômicos que o país incorrerá nas próximas semanas. É hora de atenção e cautela.

Falta qualidade ?

Até os "desenvolvimentistas" do governo admitem que é preciso haver certo nível de ajuste fiscal – grosso modo, economia nos gastos para abater a conta de juros – normalmente um discurso próprio dos "conservadores neoliberais". Porém, mesmo tendo abraçado o discurso, o ministério da Fazenda continua atrás de mágicas para não ter de ir mais fundo no corte de despesas oficiais, em princípio para não comprometer a meta da presidente Dilma de fazer o PIB nacional "bombar" em pelo menos 4,5% ao final de 2012. Da cartola fazendária em prol do superávit primário continuam saindo, entre outras contribuições para as contas públicas fecharem, o aumento dos dividendos repassados pelas empresas estatais e o crescimento do uso dos depósitos judiciais – até agora este item nas contas já aumentou 20% em relação ao ano passado. Está na hora de se discutir um pouco mais a qualidade do ajuste fiscal e não apenas os números alcançados. No fundo, são contas que ficam para serem acertadas no futuro.

Os juros

Se na área fiscal o desempenho dos governos é sofrível, na área dos juros o governo Federal vai bem. Conseguiu estabelecer com calma os novos parâmetros da caderneta de poupança, pressiona pela queda dos custos dos empréstimos incrementando a concorrência via bancos oficiais e, com isso, capitalizou popularidade e atenção para o assunto. É provável que os efeitos deste processo sejam mitigados pelo agravamento da crise internacional. A hora parece mais apropriada para que o governo tire os investimentos da letargia e aumente o percentual das inversões no PIB. Ademais, não se deve subestimar a vontade do governo de reduzir ainda mais a taxa básica de juros. Esta pode cair além dos 8% tão comentados no mercado.

Radar NA REAL

14/5/12 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável estável/alta
- Pós-Fixados NA baixa baixa
Câmbio ²
- EURO 1,2823 baixa baixa
- REAL 1,9967 baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 57.539,61 estável estável
- S&P 500 1.338,35 estável alta
- NASDAQ 2.902,52 estável alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Nem Kirchner nem Chávez, mas...

O governo Dilma, em matéria de intervenção econômica, não pode nem de longe ser comparado ao da Argentina Cristina Kirchner, menos ainda ao do venezuelano Hugo Chávez. Inegavelmente, porém, é crescente a interferência governamental na atividade econômica privada. Haja vista :

1. O ataque aos bancos privados para obrigá-los, a ferro e fogo, a reduzirem os juros de seus empréstimos.

2. A interferência na autonomia do BC, negada por ambos, o BC e o Palácio do Planalto, mas evidente.

3. O uso da Petrobras como agente de política econômica.

4. O uso do BB como agente de política monetária, quando, tanto ele quanto a Petrobras são empresas de economia mista, portanto com acionistas minoritários que merecem respeito.

5. As pressões constantes do ministério das Comunicações sobre a Anatel, em tese uma agência independente, e sobre as empresas concessionárias, com ameaças de mudanças de regras.

6. A interferência, esta semana, no setor hoteleiro do RJ para forçar a cobrança de diárias menores do que as extorsivas diárias que o setor esta cobrando para hospedagem na cidade durante da Rio + 20.

Muitas causas podem ser até justas, porém sua repetição e extensão podem criar ruídos que interferem em decisões de investidores privados em ampliar suas inversões no país.

Eles acreditam

O Papai Noel, o Saci Pererê, a Fada Sininho e outros entes assemelhados acreditam piamente, de jurar de pés juntos e com os dedos cruzados, que o governo não se meteu na compra da empreiteira Delta pela J&F, cujo carro chefe é o frigorífico JBS Friboi que tem 32% de seu capital nas mãos do BNDES. A derrocada da Delta ameaça quase 300 obras que a Delta tem pelo país, boa parte do PAC, cuja mãe, nomeada por Lula, é a presidente Dilma. A Delta já abandonou o Maracanã (em tese empreendimento privado, mas com dinheiro público) e as obras de um dos três corredores exclusivos para ônibus no Rio, do PAC da Mobilidade para a Copa. E, segundo o "Estadão" de domingo, a empreiteira parou também obra da transposição do São Francisco, já gerando abalos sociais na região do Cariri, Ceará. Entregar a execução dos projetos às empresas colocadas nas licitações, como começou a ser aventado em Brasília, pode levar à contestações no TCU e no Judiciário. Uma "nova" Delta, com novos gestores expelindo a "velha" Delta, é uma solução que cai do céu para o governo. Por isso, Dilma não interferiu – ela veio por obra e graça de algum santo. Resta saber se a manobra vai funcionar.

O trio de ouro

Causa inveja nos meios empresariais brasileiros e até internacionais a eficiência e a competência para encontrar e fazer bons negócios do trio dos mais atilados empreendedores surgidos no Brasil nos últimos anos : (pela ordem alfabética) André Esteves (BTG Pactual), Eike Batista (empresas X) e Joesley Batista (JBS Friboi e Cia.). É a turma que tudo escuta, tudo vê e tudo sabe.

Bola fora

Pode ser somente a tal "mera coincidência", mas a realidade é que desde que ficou explícito que o alvo principal dos patrocinadores petistas (Lula à frente) da CPI Cachoeira Delta, é embaralhar o julgamento do mensalão no STF, os mensaleiros só acumularam más notícias : (1) o ministro Joaquim Barbosa apressou a entrega de sua representação final no processo; (2) o mesmo Barbosa negou uma chicana jurídica, comandada pelo ex-ministro Márcio Thomas Bastos, que intentava jogar a maior parte do processo para a primeira instância, retardando o julgamento dos acusados; (3) o STF já começou a estabelecer os procedimentos para o julgamento, inicialmente conferindo ao procurador-geral da República cinco horas para fazer a acusação, e não apenas a uma hora de praxe. Além do mais, as pressões da CPI sobre o procurador Roberto Gurgel, geraram reações nada agradáveis no MP e no Judiciário para os que estão prestes a sentar no banco dos réus do mensalão. Popularmente falando, é tiro que pode sair pela culatra. O foco desse grupo deve mudar. O problema é que não dá, nessa altura, para concentrar apenas em Carlinhos Cachoeira e mais quatro ou cinco políticos. A Delta está no picadeiro – e isto é o motivo do maior desagrado da presidente Dilma com os "fogueteiros" da CPI.

Moço ajuizado

O deputado Odair Cunha, do PT de Minas, relator da CPI Cachoeira-Delta, tem jeito daquele menino arrumadinho e obediente que se sobressai na escola. Além disso, tem o pedigree da escola mineira de fazer política, a real e a folclórica. Por fim, não tinha ligações com o petismo paulista, dominante no partido e patrocinador da CPI nos moldes a pegar desafetos e proteger mensaleiros. Exatamente por essas qualidades foi o preferido do Planalto para relator. E vai cumprindo direitinho até agora a missão, de evitar que ela pegue fogo, embora às vezes pareça intimidado com o jeito grosseiro e histriônico do senador Fernando Collor. Com a ajuda do presidente da CPI Vital Rego, de perfil parecido, Cunha trabalha para evitar sobressaltos – não está com nenhum entusiasmo, pelo menos por enquanto, para convocar o procurador-geral. A fonte de inspiração da dupla é o palácio do Planalto, não o PT.

É a política

A nomeação do ex-senador baiano César Borges, oriundo do grupo de ACM e hoje abrigado no PR de Alfredo Nascimento, Blairo Maggi e Valdemar da Costa Neto, para uma das vice-presidências do BB apenas demonstra que o discurso da presidente Dilma de que a opção preferencial de seu governo é por técnicos, é bem relativo. O arranjo tenta acalmar o PR, em ebulição porque não consegue retomar, como deseja, o ministério dos Transportes. O PMDB, com vagas já surrupiadas na Petrobras e ameaçado de ser despachado da presidência da Transpetro, anotou direitinho no seu caderno de "deveres e haveres" esse agrado da presidente ao PR. Na Petrobras o partido já perdeu a "diretoria de furar poço" que dividia com o PP e está para sair também da área internacional – o diretor Jorge Zeleda está assim numa espécie de "aviso prévio".

A preocupação é outra

Embora tenha abalado algumas convicções no partido, não tirou muitas horas de sono dos petistas a pesquisa do Ibope que deu Serra com grande vantagem na intenção de votos para a prefeitura de SP e Fernando Haddad na rabeira, com apenas 3%. O potencial do partido é bem maior e mesmo um velho poste leva, somente por inércia, de 20% a 25% dos votos. O que tira mesmo o sono é a incerteza sobre condições que Lula terá para botar Haddad nas costas e sair com ele por aí. Este será o diferencial em SP. No resto do país será diferente, pois Lula não vai muito longe além dos limites do Estado, ainda por precaução. E Dilma, também precavida, talvez não se disponha a subir em palanques para dar a ajuda que o PT espera dela.

Centralismo democrático

O empenho do PT por SP e por Haddad é tanto que a Executiva nacional baixou um decreto tipo "centralismo democrático" : em cidades de mais de 200 mil habitantes, todas as capitais inclusas, a definição do candidato do partido à prefeitura terá de ser referendada pelo Diretório Nacional. O PT está disposto a ceifar seus talentos para angariar apoios para o ex-ministro da Educação na capital paulista.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.