Sexta-feira, 15 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 3 de julho de 2012

Política & Economia NA REAL n° 204

Europa Unida ? I

A reunião dos líderes das 17 nações que compõe a UE na semana passada levou a conclusão óbvia de que sem ajuda ao sistema financeiro e na ausência de medidas mínimas de estímulo econômico a zona do euro iria explodir ou passar por uma longa estagnação. Uma vitória de quase todos os países contra a burra teimosia da alemã Angela Merkel. Apesar da decisão, há que se observar as "regras" desta ajuda, as quais devem estar prontas no próximo dia cinco. Neste campo, os germânicos terão mais instrumentos para mostrar seu poder e novamente as nações em crise estarão à mercê dos debates. Dois outros pontos também são relevantes : (i) o tamanho do pacote de ajuda (150 bi de euros), se este será suficiente e (ii) as regras de união fiscal e o monitoramento centralizado no Banco Central Europeu do sistema financeiro. Neste último item houve de fato um avanço mais significativo de vez que se superou a visão excessivamente nacionalista dos membros da UE.

Europa Unida ? II

Enquanto os líderes europeus buscavam a solução para seus gigantescos problemas comuns, Bruxelas divulgava a taxa de desemprego nas 17 nações, 11,1%, a mais alta deste o início da série. A Espanha bateu o recorde de 24,6% e a Grécia, 23%. Neste contexto, o risco político permanece elevado e as possibilidades de que a longa duração da crise contamine as decisões recentes são muito elevadas. Nesta semana, o FMI estará visitando Atenas e cobrará mais resultados dos cansados gregos. Na Espanha e Itália os leilões de dívida pública darão o tom dos mercados e os ingleses estão debatendo se saem da UE. Como se vê, será preciso algum tempo para se verificar se a Europa conseguiu de fato um ponto de convergência ou se adiou os conflitos por mais algum tempo. Começa o período de férias no Velho Continente. Haverá descanso ?

Os mercados respiram

A reunião da UE e a decisão da Suprema Corte norte-americana que validou juridicamente o plano de universalização do setor de saúde proposto por Obama foram fatores suficientes para a euforia do mercado ao final da semana passada. A probabilidade maior é que exista certa calma no mercado nos próximos dias e, até mesmo, semanas. Todavia, a tendência estrutural é que os investidores mantenham-se cautelosos e que as oscilações de humor retornem com o tempo. Serão precisas constatações mais veementes de que o auge da crise foi superado para que haja uma reversão de expectativas no cenário do mercado financeiro e de capital ao redor do mundo. Até lá, haverá muita observação, mesmo porque as apostas num cenário negativo são as que prevalecem no momento.

Número que assusta

De todas as revisões a respeitos de suas perspectivas para a economia brasileira este ano, a mais assustadora feita pelo BC em seu último Relatório Trimestral de Inflação é a dos investimentos privados : saltou de um crescimento de 4,7% em relação ao ano passado para apenas 1%. Pior ainda diz o IBRE, da FGV : será zero o incremento dos investimentos em 2012. Assim, não há crescimento sustentável forte também em 2013.

O PIBinho do BC

Não foi muito ao gosto do governo a iniciativa do BC de reduzir de uma cartada só, de 3,5% para 2,5% seu prognóstico de inflação para este ano e de aumentar de 4,4% para 4,7% a previsão de inflação. A observação contra é de que o BC foi na onda do "mercado" e pode influenciar negativamente a decisão de investidores. Contudo, tudo indica que Alexandre Tombini e seus diretores estavam preocupados em perder crédito de confiança com os agentes econômicos, tal a defasagem entre as perspectivas deles e as do BC. Em matéria de crescimento da economia, por exemplo, a maioria das previsões, tanto dos "mercadistas", como dos homens dos negócios, gira em torno de 2% - esta semana a previsão na mediana do Boletim do BC ficou em 2,05%. Há um mês estava em 2,72%. Daí para baixo. A confiança sobre os efeitos das medidas constantes de aceleração do crescimento do ministro Guido Mantega são limitadíssimas. A impressão generalizada é que o governo peca por falta de ousadia, por limitações de ordem gerencial e de ambiente político.

PT : o adversário é outro I

O PT acreditava que os adversários a serem batidos em 2012, com vistas ao jogo principal de 2014, eram o PSDB e o PMDB, os dois únicos que poderiam, segundo a ótica petista, ameaçar seus sonhos de hegemonia na política nacional e de controle do poder para uns bons anos futuros, até 2018 ou, quem sabe, para além deste período. Os tucanos por razões óbvias são a oposição de fato e de direito, embora confusa, e os únicos que, teoricamente, podem ameaçar a permanência do PT no poder Federal. Por isso, até, o empenho superior para derrotar o PSB em seu berço – agora, na prefeitura da capital paulista, com uma preparação para tomar o Palácio dos Bandeirantes em 2014. O PMDB por seu tamanho, sua capilaridade, é um parceiro incômodo por seu apetite e suas exigências e que, como um pêndulo, pode mudar os rumos de sua aliança e fazer o negócio da política pender para outro lado. A ideia é enfraquecer o PMDB e substituí-lo por outra legenda como parceiro preferencial nos próximos anos de poder.

PT : o adversário é outro II

De repente, não mais que de repente, o PT começou a desconfiar que o verdadeiro adversário pode ser outro, exatamente aquele que ele estava cevando para futuras alianças prioritárias : o PSB do governador Eduardo Campos. As manobras políticas do neto do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes na condução das alianças municipais despertaram nos petistas a certeza de que Campos, político jovem, simpático, e bem avaliado governante, está armando voos próprios que não passam necessariamente pelas asas do PT.

PT : o adversário é outro III

O rompimento das alianças com os petistas em Recife e em Fortaleza foram os primeiros sinais de alerta. A demora da definição em SP e depois as confusões causadas por Luiza Erundina em SP também levantaram suspeitas. Finalmente, veio no fim de semana a decisão do PSB de BH de não aceitar coligação para a eleição de governadores, levando ao rompimento da aliança entre os dois partidos para reeleger Marcio Lacerda. Mesmo que a crise de Minas seja contornada, pois ainda há tempo, a desconfiança ficou. Para os petistas, Campos só quer vantagens, só cede mesmo onde seu partido não tem interesse ou está fraco. O fantasma da traição ronda a mente de muitos petistas. O problema é o que fazer, uma vez que o PMDB não é de incentivar ninguém a pôr a mão no fogo por sua fidelidade. O PT começa a ficar isolado politicamente. Um tanto por sua própria culpa, por seu próprio apetite. Quem com hegemonia fere, corre o risco de ser ferido com traições.

Dilma : os adversários são os mesmos

Não é uma divisão ainda clara, nem admitida, mas é visível nos corredores da política que já há um PT de Dilma e um PT de Lula. Enquanto Dilma e os seus, ainda muito minoritários, estão cada vez mais dilmistas, boa parte do PT é cada vez mais lulista, o que necessariamente não quer dizer a mesma coisa, embora o abrigo de ambos seja a mesma sigla. A desconfiança dos lulistas é que a presidente age cada vez mais, sem rupturas, para deslocar o eixo de poder no partido. Alguns não ousam nem pensar, mas a eleição presidencial de 2014 está neste jogo.

A quem interessa ? I

Lula promete federalizar a eleição municipal de SP. Será bom para Fernando Haddad ? Afinal, ele terá de se haver com discussões sobre temas com os quais nem ele e nem a cidade tem nada a ver, como o mensalão e o caso dos aloprados. Ou podem ser temas bons para Lula que quer manter um discurso nacional e ainda rever algumas das histórias de seu governo. Pode ser bom para Dilma que poderá ter algumas de suas políticas contestadas em palanques físicos e eletrônicos pela oposição ou para Lula que não aceita, de forma alguma, um papel secundário nas discussões políticas e econômicas nacionais. De qualquer modo, a presidente tem demonstrado não estar interessada em se envolver diretamente e com força na campanha municipal. Nem ela nem seus ministros de mais confiança – estes talvez com exceção de suas áreas de interesse eleitoral.

A quem interessa ? II

Quem também parece muito interessado na "federalização" do debate eleitoral é o senador Aécio Neves. Sem estar diretamente envolvido na disputa, com uma situação mais ou menos tranquila em MG, apesar do último arrufo na aliança PSB/PSDB/PT em BH, ele quer aproveitar a campanha para se tornar nacionalmente mais conhecido e firmar suas diferenças tanto com Dilma, Lula e o PT, mas também com José Serra, ainda seu maior – e talvez único – adversário no tucanato. Com Serra restrito a SP e tendo de se defender dos ataques que receberá de todos os adversários, Aécio estará mais ou menos livre para voar pelo Brasil, ajudando tucanos e outros aliados possíveis. Terá tempo livre até para tentar dar uma ajudazinha aos tucanos de SP - se for solicitado.

Diagnóstico correto, mas incompleto

Da ministra Cármen Lúcia, do STF, e presidente do TSE, ao votar contra o pedido do PSD de Gilberto Kassab, aprovado por seus pares, de ter mais tempo de TV na propaganda eleitoral obrigatória : "Eu diria que aos partidos novos falta povo. Eu não conheço democracia sem povo". Na realidade, cada vez mais falta "povo" aos partidos brasileiros de um modo geral, não apenas aos novos, agremiações de caciques e meros dutos eleitorais.

A nova herança maldita – capítulo I

Semanas atrás informávamos que nos bastidores oficiais de Brasília já se começava a rosnar sobre certa "herança maldita" - uma "nova", é claro, distinta daquela que Lula atribuía ao ex-presidente FHC sempre que alguma dificuldade aparecia a sua frente em seus oito anos de Palácio do Planalto. Agora, já não muito discretamente, esta nova herança começa a ser explicitada. O primeiro foco foi a Petrobras, com a revisão de seus planos de investimentos para os próximos cinco anos. Cortando daqui e dali, a presidente da empresa, Graça Foster, disse, sem citar seu antecessor, José Sergio Gabrielli, que as metas anteriores eram irrealistas, que projetos eram aprovados a esmo, sem estarem prontos e daí por diante. Graça e sua comandante no Palácio do Planalto estão jogando para o alto facas para que estão caindo em suas próprias cabeças : Lula era o presidente dessa fase de irrealismo, mas Dilma foi ministra das Minas e Energia e, portanto, chefe da Petrobras durante uma parte desse período. Durante todo o mandato de Lula, foi presidente do Conselho de Administração da empresa, só sendo substituída por Guido Mantega quando saiu para se candidatar à presidência da República. Por que só Gabrielli paga toda a responsabilidade por uma gestão de claro viés político na maior estatal brasileira ?

E por falar em política

A revisão feita nos investimentos da Petrobras gerou sérios ruídos políticos com aliados preferenciais e complicados de Dilma : a suspensão da construção das refinarias do CE e do MA, dois compromissos político-eleitorais de Lula, acendeu a irritação dos suscetíveis e agressivos irmãos Gomes – Ciro e Cid – e o discreto (nas reações), porém não menos agressivo quando se trata de defender seus feudos, senador José Sarney. Sobrou para o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, tourear as feras. Logo ele, Lobão, que de sua pasta é sempre um dos últimos a saber das coisas.

A nova herança maldita – capítulo II

Há muitas outras línguas coçando em Brasília, além das da Petrobras vindas diretamente do RJ. Das mais inquietas é a área educacional. Mas que está forçada a sofrer calada para não prejudicar o candidato Delfim à prefeitura de SP, Fernando Haddad. Mesmo assim, possivelmente como reflexo da greve dos professores universitários, que além de reivindicarem um plano de carreira, propugnam também por melhores condições de trabalho, a presidente Dilma baixou um decreto, pouco comentado esta semana, tornando mais rígidas as regras para aberturas de novas universidades públicas federais : "A implantação de novas unidades de ensino e o provimento dos respectivos cargos e funções gratificadas dependerá da existência de instalações adequadas e de recursos financeiros necessários ao seu funcionamento". Um dos orgulhos da dupla Dilma-Haddad é exatamente a criação de uma série de novas escolas federais. Em tempo : essas histórias sobre a nova herança maldita terão ainda muitos capítulos.

Ambiente conturbado

Amplia-se o clima de greve entre o funcionalismo Federal diante da quase indiferença – os líderes sindicais dizem que é má vontade e intransigência – dos negociadores oficiais. As conversas quase todas estão obstruídas ou ocorrem em escalões sem poder de decisão e não há sinais de que alguma solução possa estar a caminho, mesmo no longo prazo.

Troca-troca na CPI

Para aquecer a CPI Cachoeira-Delta e não deixar que ela morra desmoralizada, os partidos concordaram com a convocação do dono da Delta, Fernando Cavendish. Até porque divergências entre os aliados tornam inevitável tal procedimento. Todavia, chamar para depor uma testemunha bomba como o ex-diretor geral do DNIT, Luiz Antonio Pagot, continua fora de propósito. Para livrar Pagot do foco do PSDB e da oposição, os governistas ameaçaram convocar também Paulo Vieira de Souza, ex-diretor de engenharia da Dersa, conhecido como Paulo Preto, e acusado de fazer caixa dois para campanhas tucanas. O jogo ficará, então, no momento, empatado.

Pânico supremo

As circunstâncias que levaram o ministro Lewandowski a entregar seu parecer sobre o processo do mensalão num prazo que, confessado por ele, ofendeu seus desejos e princípios, criaram um pavor maior ainda entre os mensaleiros e seus defensores de que eles não deverão ter dias muito tranquilos depois do dia 2/8. Já há entre as defensorias quem já esteja fazendo contas de possíveis penas. E ninguém estranhe que, no desespero, eles comecem a se estranhar, uns acusando outros para se defenderem. Será cada um por si e nenhum por todos.

Isenção do STF

O STF está abalado pelas pressões de todos os lados para julgar os envolvidos no tal do mensalão. O voo raso do supersônico que quebrou as janelas do "Palácio da Justiça" é, inusitadamente, bastante simbólico do momento por que passa a Suprema Corte. Cabe-lhe por dever de ofício ter isenção nos seus julgamentos. A necessária transparência dos juízes vem dos autos, representação maior e quiçá única da honestidade e decência que se espera de qualquer juiz, sobretudo daqueles que integram o STF. Ocorre que o excesso de exposição da mídia dos ministros, suas opiniões sobre o trabalho dos colegas e a incômoda liberdade dos advogados nos corredores da Corte acabam por intrigar quem olha de fora o trabalho do STF. Estarão os togados a praticar a melhor Justiça ? Veremos.

Substituição no STF

Vai ser igualmente interessante verificar como será a atuação da presidente Dilma na substituição dos dois ministros do STF que se aposentam após o julgamento do mensalão, no caso, Peluso e Ayres Britto. O midiático ex-ministro Márcio Thomaz Bastos está restrito em suas ações por conta de sua clientela caudalosa, sobretudo a acusada de jogatina e corrupção e outras coisas mais. De outro lado, a presidente Dilma estará a formar a Suprema Corte possivelmente para além de seu próprio mandato. O momento do STF é especial e seu destino no médio prazo dependerá muito de eventos importantes no curto prazo.

Radar NA REAL

29/6/12 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável estável/alta
- Pós-Fixados NA baixa baixa
Câmbio ²
- EURO 1,2588 baixa baixa
- REAL 2,0119 baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 54.354,63 estável/baixa estável
- S&P 500 1.362,16 estável alta
- NASDAQ 2.935,05 estável alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.