Domingo, 24 de março de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 18 de maio de 2004

Petróleo: entre a realidade e a especulação

Francisco Petros*

Petróleo: entre a realidade e a especulação


O principal problema da economia mundial é a evolução econômica norte-americana, diante da certeza de um maior aperto monetário nos próximos meses por parte do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA O processo, que tem efeitos negativos sobre todos os países, especialmente sobre os altamente endividados como o Brasil, não é o único entrave. Nas últimas semanas aumentaram as preocupações com a forte alta das cotações do barril do petróleo. Na sexta-feira passada, o barril do petróleo tipo “leve” (West Texas) fechou acima de US$ 41/barril na New York Mercantile Exchange. O barril de petróleo tipo “Brent” fechou acima de US$ 37,00 na London´s International Petroleum Exchange.

Os indicadores mostram que os estoques ao redor do mundo, especialmente nos EUA, estão baixos. Também existem evidências que os países produtores de petróleo, principalmente os do Golfo Pérsico não investiram muito nos últimos anos na prospecção, em função do longo período de baixos preços do produto no mercado internacional a partir do início da década dos anos 90 até o final de 2001. Apesar de haver uma série de dúvidas sobre os “fundamentos” da indústria de petróleo, alguns especialistas não acreditam que as altas recentes estejam relacionadas com problemas específicos de oferta e demanda neste mercado, mesmo se for considerada a redução da oferta por parte do Iraque desde a primeira guerra contra os EUA (1990) e depois das sabotagens (bem sucedidas) da resistência iraquiana à ocupação do país liderada pelo atual Presidente norte-americano, George W. Bush.

A oferta do produto é controlada pelo cartel da OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo que impõe cotas aos seus filiados. Originalmente, imaginava-se que o preço do barril de petróleo ficasse no intervalo de US$ 22 a US$ 28/barril. Quando o preço caísse abaixo de US$ 22/barril, a OPEP reduziria proporcionalmente as cotas de exportação de seus países-membros. Acima de US$ 28/barril, ocorreria o inverso. Este controle da oferta tem sido totalmente ineficaz nos últimos seis meses. No próximo dia 22 haverá um novo encontro da OPEP em Amsterdam (Holanda), quando pode ser decidido um aumento da oferta. O representante da Arábia Saudita Ali Naimi, o mais influente da organização, proporá um aumento de 6% na oferta por parte dos países-membros com o objetivo de reduzir as cotações no mercado internacional. Os países produtores temem que a alta das cotações possa prejudicá-los na medida em que esfriam a atividade econômica global. A receita (quantidade versus preço) destes países torna-se menor no caso de uma recessão. Foi o que ocorreu nos primeiros cinco anos da década passada.

Do lado da demanda há sinais notáveis de maior consumo no sudeste asiático e, em maior medida, nos EUA. Nos outros países o crescimento é mais moderado e a oferta interna tem crescido (como no caso do Brasil, hoje país muito pouco dependente de importações de petróleo). Nos EUA, também houve pouco investimento em refino de petróleo nos últimos anos o que tem provocado altas superiores dos preços dos derivados de petróleo em relação à elevação das cotações do barril do petróleo cru. A renda disponível dos norte-americanos tem se reduzido na atual conjuntura do mercado de petróleo. Os consumidores têm sido surpreendidos todos os dias com preços maiores nas bombas dos postos de gasolina.

O diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) Rodrigo Rato declarou, na primeira entrevista oficial ao assumir o cargo há duas semanas, que a alta das cotações do petróleo é um risco maior que a elevação da taxa primária de juros por parte do Federal Reserve. Trata-se de uma “declaração diplomática” no que se refere aos impactos da política monetária dos EUA sobre a economia mundial, mas bastante sincera no que se refere aos efeitos da alta das cotações do petróleo.

Apesar dos aspectos acima mencionados, é muito provável que a tendência altista dos preços do petróleo esteja associado a uma “bolha especulativa”. Neste processo, os “fundamentos” pesam pouco aos olhos dos investidores. Gera-se um processo endógeno (formado pelo próprio mercado) pelo qual as cotações sobem em função das próprias expectativas altistas. Falta uma “análise fria” dos fatos. Resultado: os preços sobem com forte demanda especulativa. Todavia, há uma exceção vital no que se refere aos fundamentos: a situação geopolítica do Golfo Pérsico e, principalmente do Iraque, tem facilitado este processo especulativo. Note-se que estamos a pouco mais de um mês da instalação de um “governo provisório” iraquiano que será – em tese – o maior poder político do país.

A situação complicou-se ainda mais, pois nesta segunda-feira, o presidente interino do conselho provisório iraquiano, Izzedine Salim, foi assassinado. Trata-se de um conselho cuja presidência é rotativa e base do futuro governo. Por mais que este “governo provisório” seja manietado pelo poder efetivo das tropas norte-americanas, esta “passagem do poder” é fator de mais incerteza sobre o futuro do país. Se fracassar será uma dose de maior decepção. A condução da política dos EUA em relação aos países árabes será ainda mais contestada e as pressões internas dentro destes países será crescente, principalmente por parte das facções guiadas pelo fundamentalismo religioso. Portanto, há “gasolina de sobra para incendiar as cotações do petróleo”. Quem viver, verá.

Além dos efeitos marginais que a crise do petróleo pode provocar sobre as taxas de câmbio e de juros no mercado internacional, para o Brasil há três riscos diretos: (1) se o petróleo continuar em patamares elevados e reduzir a atividade global, seremos afetados pelo lado do comércio exterior; (2) mesmo sem ser muito dependente da importação do petróleo, o Brasil ainda compra o produto do exterior (20% do total, aproximadamente) o que aumenta o custo das importações; (3) se o governo resolver repassar a alta do preço do petróleo no mercado internacional para os preços internos, isso pode afetar a política atual de metas de inflação. Se não houver o repasse, os acionistas da Petrobrás serão prejudicados, pois não obterão lucros maiores com a alta dos preços dos derivados de combustíveis. Isso pode afetar a credibilidade do governo junto aos investidores num momento em que a aversão ao risco por parte dos investidores está subindo. No momento a escolha do Governo do Presidente Lula foi a de não aumentar os preços dos derivados de petróleo. Ou seja, favorece-se a sociedade como um todo cuja renda está baixa. Quanto aos acionistas da Petrobrás...

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petros@migalhas.com.br

* Francisco Petros é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduado em finanças (MBA) pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (1ª Turma-1987). Em 1988, ingressou na Brasilpar onde atuou por dez anos nas áreas de corporate finance e administração de recursos (esta foi a primeira empresa independente de gestão de recursos). Em seguida, foi diretor-executivo do Grupo Sul América na área de investimentos. Em 1998, fundou a NIX ASSET MANAGEMENT da qual é sócio-diretor. É membro do Conselho Consultivo do Ethical Fund, fundo de investimento administrado pelo ABN-AMRO. Foi diretor (1992), Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) e membro do Conselho Consultivo e do Comitê de Ética (atual) da APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais - São Paulo). É Certified Financial Planner (CFP®) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) e Analista de Investimento com CNPI (Certificação Nacional de Profissional de Investimento). É colunista da Revista Carta Capital, do Jornal Valor Econômico e consultor da Rede Bandeirantes de Rádio (BAND), além de contribuir esporadicamente para diversas publicações especializadas em mercado de capitais, economia e finanças. Em 2004 foi escolhido o “Profissional de Investimentos do Ano” pelo voto direto dos associados da APIMEC em função da sua contribuição para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.