Terça-feira, 20 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 1º de junho de 2004

É hora de mudar?

 

Coluna publicada no informativo Migalhas 936, dia 1/6/04.

 

Francisco Petros*



É hora de mudar?

"Sempre que a realidade econômica muda, minha convicção acadêmica também muda", disse o grande economista do século passado, J.M. Keynes a propósito da relação entre a observação objetiva dos fatos e a abstração acadêmica que se traduz em políticas econômicas.

Os indicadores de emprego do mês de abril, divulgados pelo IBGE, dão evidências suficientes para que se reflita sobre a qualidade do modelo econômico adotado pelo atual governo, o mesmo da administração anterior. No Brasil, a taxa de desemprego atingiu o nível recorde de 13,4% da População Economicamente Ativa (PEA) – um total de 2,8 milhões de pessoas sem emprego. Deste montante, mais de 26% procuram emprego há mais de um ano. Os “subocupados por ineficiência de horas trabalhadas”, com jornada inferior a 40 horas e que, apesar de estarem empregadas, continuam procurando emprego aumentou 14,3% de março para abril e 3,3% em relação a abril de 2003. Números objetivos.

Infelizmente, o debate sobre o atual estado da economia brasileira e a qualidade das políticas governamentais é colocado em termos maniqueístas: ou se é absolutamente contra ou se é cegamente a favor. A defesa da revisão das metas de inflação e, por conseguinte, a análise da política monetária, é na maioria das vezes desqualificada como sendo leniente em relação à inflação. A definição de um Estado regulador e propulsor do desenvolvimento é frisada como sendo a defesa da “estatização”. Assim sendo, propaga-se uma defesa, a nosso ver pouco inteligente, daquilo que se denomina “mercado”. O propalado discurso do senso comum assume um caráter ideológico. Todavia, o que vemos não tem nada de ideológico. Assistimos a tragédia social do desemprego, a expansão da desesperança nas possibilidades do país, a queda do nível dos investimentos e declínio do consumo, fruto da queda da renda.

Ora, nos parece inevitável que, diante da evidência de que a política econômica produz resultados pífios e insustentáveis, a sociedade demandará mudanças. E é preciso estar preparado para mudar, sob pena de se criar uma nova política econômica inconsistente e que eleve os riscos do país. É claro que mudar implica em riscos. Ficar inerte também. Não há nenhum indicador que mostre um consistente e sustentável aumento da atividade econômica. Deixamos os detalhes de lado. Referimo-nos à essência do processo.

Infelizmente, a implementação de mudanças no curso da política econômica, caso sejam engendradas pelo atual governo, se fará numa conjuntura mais desfavorável no mercado internacional. Já tínhamos alertado aos nossos clientes, durante o ano passado e no início deste ano, que os fundamentos da economia brasileira continuavam frágeis, apesar de melhores. Esta fragilidade foi minimizada pela expansão recorde da liquidez externa patrocinada pelos gestores da política econômica dos EUA nos últimos três anos. De agora em diante, haverá menos recursos disponíveis no mundo para financiar países emergentes. Além disso, as cotações do petróleo subiram para níveis superiores aos alcançados há treze anos. O melhor momento ficou para trás. A realidade econômica mudou. E como diria Keynes, chegou a hora de certas convicções mudarem.

Perspectivas Mais Incertas

Está evidente que a atual administração da economia brasileira não tem implementado medidas e reformas que possibilitem o crescimento sustentado do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos. As conhecidas e comentadas vulnerabilidades do país permanecem basicamente as mesmas dos últimos anos. O principal aspecto positivo é a mudança no perfil do balanço de pagamentos, no qual os resultados da balança de comércio são o ponto mais positivo.

O cumprimento do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) parece fato certo. Os saldos fiscais são suficientes para o preenchimento dos requisitos exigidos pelo organismo multilateral. O que é decepcionante é que depois do enorme esforço fiscal o principal indicador de risco do país tenha permanecido intacto. A relação dívida bruta em relação ao PIB é da ordem de 80% e a dívida líquida sobre o PIB gravita entre 56% e 57%, indicadores muito semelhantes aos registrados no final de 2002 e 2003. No atual contexto internacional esta não é uma boa constatação, pois significa que o crédito para o Brasil ficará mais escasso e caro de vez que não apresentamos uma evolução substantiva deste indicador de solvência. Com efeito: está cada dia mais distante a possibilidade de o Brasil obter o grau de investimento que representaria uma melhor visão sobre a solvência do país por parte das agências classificadoras de riscos (rating agencies).

Com uma conjuntura internacional mais incerta já surgem análises de economistas influentes e dos próprios analistas do sistema financeiro sugerindo o aumento do superávit primário fiscal que é o resultado da diferença entre as receitas e despesas do setor público antes do pagamento dos juros da dívida. Por mais louvável que possam parecer tais propostas trata-se de algo improvável de acontecer. Em primeiro lugar, isso exigiria mais cortes de despesas públicas, coisa improvável de ocorrer num ano eleitoral. Em segundo lugar, porque não parece razoável imaginar uma nova rodada de elevação de impostos. A arrecadação já representa 37% do PIB, indicador equivalente a países desenvolvidos. E por último, é preciso lembrar que cortes substantivos de despesas públicas implicariam em novas reformas constitucionais, como na área da previdência social. Atualmente, o apoio do Congresso a uma iniciativa de aumento de superávit fiscal é diminuto. Assim sendo, propostas como estas não prosperarão. Sem trocadilho.

Um outro aspecto a ser observado nas próximas semanas diz respeito à evolução das cotações do barril de petróleo no mercado internacional que influenciará a política monetária dos EUA, a atividade econômica mundial e os efeitos sobre a dinâmica da inflação no Brasil. Um aumento dos preços dos derivados do petróleo tem alta probabilidade de ocorrer. O nível deste aumento é uma enorme dúvida.

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petros@migalhas.com.br

* Francisco Petros é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduado em finanças (MBA) pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (1ª Turma-1987). Em 1988, ingressou na Brasilpar onde atuou por dez anos nas áreas de corporate finance e administração de recursos (esta foi a primeira empresa independente de gestão de recursos). Em seguida, foi diretor-executivo do Grupo Sul América na área de investimentos. Em 1998, fundou a NIX ASSET MANAGEMENT da qual é sócio-diretor. É membro do Conselho Consultivo do Ethical Fund, fundo de investimento administrado pelo ABN-AMRO. Foi diretor (1992), Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) e membro do Conselho Consultivo e do Comitê de Ética (atual) da APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais - São Paulo). É Certified Financial Planner (CFP®) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) e Analista de Investimento com CNPI (Certificação Nacional de Profissional de Investimento). É colunista da Revista Carta Capital, do Jornal Valor Econômico e consultor da Rede Bandeirantes de Rádio (BAND), além de contribuir esporadicamente para diversas publicações especializadas em mercado de capitais, economia e finanças. Em 2004 foi escolhido o “Profissional de Investimentos do Ano” pelo voto direto dos associados da APIMEC em função da sua contribuição para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.