Domingo, 24 de março de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 6 de julho de 2004

Observar mais, agir menos

Francisco Petros*


Observar mais, agir menos


Na semana passada foi confirmada a expectativa de alta da taxa básica de juros, administrada pelo Federal Reserve, o Banco Central dos EUA. Absolutamente dentro do esperado: de 1,00% para 1,25% ao ano. Como temos ressaltado nesta coluna, a política monetária dos EUA é o principal fator de risco para os países emergentes, inclusive o Brasil. Mesmo com a alta da taxa de juros nos EUA, o nível é o mais baixo desde 1946. O encarecimento do custo de capital na maior economia mundial (que representa ¼ de toda a riqueza gerada a cada ano) tem implicações diretas sobre os fluxos de capital entre países e entre os diversos segmentos do mercado financeiro (renda fixa e variável). Entretanto, os analistas foram surpreendidos por outros indicadores de atividade da economia norte-americana (compras de matérias-primas e os números de empregos), inferiores aos esperados pelos investidores e analistas.

É possível que estes números mais fracos já sinalizem que o “pico” do crescimento da economia dos EUA tenha ficado para trás, mesmo que ainda não seja possível ser mais afirmativo em relação ao tema. Todos os estímulos fiscais (especialmente a redução de impostos de pessoas físicas) e a frouxidão da política monetária já estão vigorando há mais de três anos. Se isto se comprovar verdadeiro, é provável que o Federal Reserve implante o aumento da taxa de juros básica de maneira mais gradual e previsível. Conseqüentemente, o risco para os títulos de renda fixa de prazo mais longos (2, 5, 10 anos), cotados em moeda forte, será menor. Com efeito: isto é positivo para o Brasil que poderá se financiar a custos mais razoáveis em função da menor aversão ao risco por parte dos investidores.

Foi a razão exposta no parágrafo anterior que justificou a euforia no mercado de ações, de juros e de câmbio na semana passada aqui no Brasil. Entretanto, este não foi um fenômeno isolado. As moedas internacionais menos importantes, tais como o dólar canadense, o dólar australiano, o rand sul-africano se valorizaram frente ao dólar estadunidense. O euro e as outras moedas européias (a coroa sueca, o franco suíço, etc.) também subiram em função da queda nas taxas de juros dos títulos de longo prazo do Tesouro norte-americano.

Pode parecer paradoxal, mas uma economia mais fraca dos EUA pode ser positiva para os países emergentes de vez que os riscos de inflação norte-americana são menores. Apesar de tudo, é muito difícil estimar se este desaquecimento provocará redução dos preços das commodities (fundamental para os países emergentes) e como a China será afetada. Foi o “dragão chinês” o principal estímulo para que a demanda mundial crescesse com mais vigor que o esperado em 2003 e neste ano.

Há ainda outros riscos que não devemos esquecer e que são substanciais: a possível “bolha” no valor dos ativos (imóveis e ações, por exemplo), os “déficits gêmeos” dos EUA (fiscal e externo) e o tratamento deste problema econômico após o processo eleitoral ao final deste ano. Se Bush for reeleito, a proposta é que a redução dos impostos nos últimos dois anos seja permanente. As propostas econômicas de John Kerry ainda não são conhecidas na sua plenitude. Entretanto, o discurso se aproxima ao de Bill Clinton que sempre foi adepto de uma política de impostos mais altos com gastos seletivos mais elevados para os setores de educação e proteção social (seguridade e saúde pública).

Diante de um cenário mais calmo, o Governo Lula poderá consolidar ainda mais o seu discurso de que a recuperação econômica está vigorosa e que será sustentável. Temos chamado a atenção para o fato de que as estatísticas sobre a atividade econômica serão mais positivas até o fim do ano. A base de comparação será menor, pois foi a partir de meados do ano passado que ocorreu o auge da recessão. Assim, a “sensação” de crescimento aumentará. Este não é um aspecto desprezível, pois melhores expectativas contribuem para um melhor ambiente de consumo e investimento. Todavia, expectativas têm de ser racionais para que o crescimento seja sustentado (consumo e investimento maiores e crescentes no futuro).

Ainda existem os riscos que as eleições municipais podem provocar sobre a configuração do Governo Lula, o fato de que a inflação será maior no curto prazo em função de tarifas públicas mais elevadas e a baixa renda interna. A balança comercial é o segmento da política econômica de maior sucesso, fortalecido pelo fantástico setor agrícola brasileiro. Não fossem tais resultados, o Brasil estaria sofrendo com mais intensidade os efeitos da falta de reservas altas e a alto endividamento interno e externo. Estamos num melhor momento no curto prazo. No médio e no longo prazo há poucos elementos para avaliar a evolução do cenário. É hora de se observar mais e agir menos.
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petros@migalhas.com.br

* Francisco Petros é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduado em finanças (MBA) pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (1ª Turma-1987). Em 1988, ingressou na Brasilpar onde atuou por dez anos nas áreas de corporate finance e administração de recursos (esta foi a primeira empresa independente de gestão de recursos). Em seguida, foi diretor-executivo do Grupo Sul América na área de investimentos. Em 1998, fundou a NIX ASSET MANAGEMENT da qual é sócio-diretor. É membro do Conselho Consultivo do Ethical Fund, fundo de investimento administrado pelo ABN-AMRO. Foi diretor (1992), Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) e membro do Conselho Consultivo e do Comitê de Ética (atual) da APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais - São Paulo). É Certified Financial Planner (CFP®) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) e Analista de Investimento com CNPI (Certificação Nacional de Profissional de Investimento). É colunista da Revista Carta Capital, do Jornal Valor Econômico e consultor da Rede Bandeirantes de Rádio (BAND), além de contribuir esporadicamente para diversas publicações especializadas em mercado de capitais, economia e finanças. Em 2004 foi escolhido o “Profissional de Investimentos do Ano” pelo voto direto dos associados da APIMEC em função da sua contribuição para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.