Quarta-feira, 20 de março de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 13 de julho de 2004

Chegou a hora do investimento?

Francisco Petros*


Chegou a hora do investimento?


Tenho insistido nos últimos artigos que os próximos meses serão decisivos para a dinâmica econômica mundial e brasileira. Os fundamentos têm sido afetados por múltiplos e importantes fatores que podem afetar de maneira substantiva a economia mundial e, por conseguinte, a evolução do mercado financeiro e de capital. A situação não é nada usual de vez que há temores em relação à inflação nos EUA e o papel a ser exercido pelo Federal Reserve, o ritmo de desaceleração econômica da China, os temores geopolíticos, a evolução do mercado de petróleo, etc.

Com a taxa de juro básica norte-americana no nível mais baixo dos últimos 46 anos, há riscos consideráveis de distorções no mercado de ativos, nos preços das commodities e no mercado cambial. Modificações bruscas no sistema de preços aumentam a aversão ao risco e, simultaneamente, os fluxos de capitais, fator crítico para os países emergentes.

Neste contexto, a divulgação dos indicadores de produção industrial do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística do mês de maio/04 trouxe um dado que deveria chamar muita atenção dos analistas do cenário econômico. Com o crescimento de 2,8% da produção industrial nos últimos doze meses, 7,8% em relação ao mês de maio do ano passado (ambos os números dentro do esperado pelos economistas), a ocupação da capacidade nominal instalada do setor industrial do país atingiu o patamar de 82,5%. Quando este indicador está no nível entre 80% e 85% pode-se dizer que a indústria está à plena capacidade. Isso se deve ao fato de que a plena capacidade da indústria não é homogênea. Um exemplo para ilustrar o que estamos dizendo: se o setor de aços planos está no limite da capacidade, este fato impede que a indústria automobilística não possa estar à plena capacidade, pois pode faltar aço para a produção de automóveis. Ou se importa aço, ou se espera que a capacidade da indústria de aço seja ampliada. Há um segundo e importante efeito neste processo: a possibilidade de que se gere inflação de custos, pois setores que têm a demanda elevada podem ajustar os seus preços para cima, caso haja escassez do produto. Se o setor é oligopolizado a alta de preços é ainda mais facilitada.

Um indicador de capacidade industrial ocupada ao redor de 80% é, portanto, um evidente indicador de que os investimentos têm de aumentar para que o crescimento seja sustentado e sem inflação. Nos últimos anos os números do PIB (Produto Interno Bruto) indicam que os investimentos estão no patamar entre 17% e 19%. Este nível está estagnado há mais de vinte anos.

Especialistas em contas nacionais dizem que para que o crescimento seja sustentado e não inflacionário os investimentos têm de crescer para o patamar de 22% a 24% do PIB. Para aqueles que não têm familiaridade com o conceito de “investimento” é bom deixar claro que “investimento” em ciência econômica significa ampliação e/ou criação de uma nova unidade produtiva (uma usina elétrica, uma fábrica, etc.). Quando se fala de “investimento direto” na divulgação das contas externas (balanço de pagamentos) não necessariamente se trata de um “investimento” no sentido daquele que é empregado para fins de cálculo do PIB. Por exemplo, se uma multinacional compra uma empresa de telefonia com recursos externos isto significa que houve um “investimento direto” em termos de contas externas e não houve “investimento” em termos de contas nacionais (PIB). Ocorreu apenas a transferência do controle acionário da empresa, não a “criação” de uma empresa.

Tendo em vista o ambiente externo muito incerto e o fato de que estamos num momento em que os investimentos têm de crescer para que o crescimento se torne sustentado vale a pena refletirmos sobre algumas questões:

1) É possível que isto ocorra sem que a taxa de juros real (descontada a inflação) para patamares bem mais baixos do que o atual nível de 10%-11% ao ano? (Senão, os capitalistas não vão correr riscos investindo).

2) Como conciliar uma taxa de investimento mais alto quando a tributação é de 36% do PIB e, mesmo assim, não cobre sequer os juros devidos para a administração de dívida interna que representa cerca de 57% do PIB em termos líquidos (descontando-se as reservas) e ao redor 80% em termos brutos?

3) Como estimular o investimento quando a renda interna é frágil em função dos baixos salários reais e do alto desemprego?

4) Como pode o Estado investir em infra-estrutura quando os recursos mal bastam para o seu custeio e o pagamento da dívida interna?

5) Como pode o setor privado (doméstico e internacional) investir quando há insegurança jurídica nos contratos estabelecidos com o setor público (casos da telefonia, pedágios de estradas, etc.)?

6) Como atrair investimentos para um país que ocupa a 109ª posição entre 175 países em termos de exclusão social? (Este dado foi extraído do Atlas da exclusão Social no Mundo, publicado por pesquisadores brasileiros).

7) Como atrair investimentos para um país no qual a criminalidade é endêmica? (A taxa de homicídios passou de 11,7 pessoas/ por 1.000 habitantes em 1980 para 27,0/ 1.000 nos últimos 20 anos, um crescimento de 130% em 20 anos!)?

Você acha que a atual política governamental é suficiente para responder aos anseios de um país com crescimento sustentado? Se a resposta for sim, você é um grande otimista. Se for não, então temos que trabalhar para que as coisas mudem.

Em tempo: dados recentes do BIRD (Banco Mundial) indicaram que o Brasil foi o país que sofreu a queda mais significativa de investimentos diretos nos últimos três anos. Depois de atrair um total de US$ 33 bilhões am 2000, o volume caiu para US$ 17 bilhões em 2002 e US$ 10 bilhões em 2003. Segundo o BIRD há dois motivos para esta queda de investimentos: redução das privatizações (que, como dissemos acima, não é investimento para fins de cálculo do PIB) e baixo crescimento doméstico.
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petros@migalhas.com.br

* Francisco Petros é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduado em finanças (MBA) pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (1ª Turma-1987). Em 1988, ingressou na Brasilpar onde atuou por dez anos nas áreas de corporate finance e administração de recursos (esta foi a primeira empresa independente de gestão de recursos). Em seguida, foi diretor-executivo do Grupo Sul América na área de investimentos. Em 1998, fundou a NIX ASSET MANAGEMENT da qual é sócio-diretor. É membro do Conselho Consultivo do Ethical Fund, fundo de investimento administrado pelo ABN-AMRO. Foi diretor (1992), Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) e membro do Conselho Consultivo e do Comitê de Ética (atual) da APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais - São Paulo). É Certified Financial Planner (CFP®) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) e Analista de Investimento com CNPI (Certificação Nacional de Profissional de Investimento). É colunista da Revista Carta Capital, do Jornal Valor Econômico e consultor da Rede Bandeirantes de Rádio (BAND), além de contribuir esporadicamente para diversas publicações especializadas em mercado de capitais, economia e finanças. Em 2004 foi escolhido o “Profissional de Investimentos do Ano” pelo voto direto dos associados da APIMEC em função da sua contribuição para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.