Domingo, 21 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 3 de agosto de 2004

Vão aumentar os juros?

Francisco Petros*


Vão aumentar os juros?


Agora é oficial! A divulgação das notas da reunião de julho do COPOM – Comitê de Política do Banco Central (BC) revelou as dificuldades da execução da política de metas de inflação, num contexto de recuperação econômica e nível insuficiente de investimentos que aumentem a capacidade de produção das empresas e as necessidades de infra-estrutura.

Nestas notas, os diretores do BC informaram que “os núcleos de inflação [...] têm se situado em valores relativamente estáveis nos últimos meses, mas em patamares incompatíveis com as metas de inflação de médio prazo”. A meta de inflação para 2004 é de 5,5% (com desvio máximo superior de 8%) e a de 2005 é 4.5% (também com desvio máximo superior de 8%).

Mais adiante, nas referidas notas do COPOM, o BC refere-se ao nível de ocupação da capacidade produção da indústria em abril, calculada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), que está no nível de 81,9% (o maior nível dos últimos três anos). Segundo a autoridade monetária, o ritmo de recuperação da indústria nos últimos meses “indica a possibilidade de um preenchimento mais rápido da capacidade ociosa existente”.

Mais à frente, o BC explicita que “a situação, de um lado, de rápido crescimento da demanda e, de outro, de crescimento dos investimentos, tem gerado uma maior incerteza sobre a capacidade de se expandir a oferta de bens e serviços sem a emergência de pressões inflacionárias”. (O grifo é meu). Isto significa que a inexistência de capacidade produtiva no curto e, até mesmo, no médio prazo, pode gerar aquilo que os economistas denominam de inflação de demanda que ocorre quando o consumo de uma economia é maior que a oferta disponível. A partir desta conclusão, os “membros do COPOM avaliam que a manutenção da taxa básica de juros nos níveis atuais por um período prolongado de tempo deverá permitir a concretização de um cenário benigno para a inflação [...]. No entanto, a autoridade monetária reitera que estará pronta para adotar uma postura mais ativa, caso venha a se consolidar um cenário de divergência entre a inflação projetada e a trajetória das metas...”. (Os grifos são meus). Leia-se: o BC poderá elevar a taxa de juros básica, atualmente em 16% ao ano!

Estas notas do COPOM são muito importantes de serem analisadas e mostram que o país, ao atingir um nível de apenas 4% de crescimento neste ano comparativamente ao recessivo ano de 2003 está sujeito a existência de uma inflação de demanda. Para que não exista tal tipo de inflação é preciso que o nível de investimento – entendido como o aumento da capacidade produtiva - seja maior que o crescimento do consumo. Por sua vez, os investimentos aumentam quando {a taxa de juros + “prêmio de risco” exigido para os projetos} é maior que a taxa de juros sem risco (aplicação em títulos do governo os quais, por princípio, não têm risco). Além disso, é preciso que exista confiança das empresas e investidores de que o crescimento é sustentado, ou seja, que a cada ano o consumo aumentará. Assim, se desperta aquilo que o grande economista do século XX, John M. Keynes, denominava do “espírito animal” dos investidores.

Ocorre que as taxas de juros prefixadas dos títulos do governo, descontando-se a inflação, estão no nível entre 8% e 11% ao ano para prazos de vencimento de 12 a 18 meses. Se considerarmos as taxas de juros dos títulos pós-fixados - que não tem risco, caso haja elevação da taxa básica pelo BC – situa-se no nível ao redor de 9% ao ano em termos reais. Ora, a pergunta é simples: será que alguém vai investir com taxas de juros tão altas?

Além disso, o consumo interno é baixo, pois os salários não crescem e o desemprego é elevado. Como motivar o investidor a aumentar a capacidade produtiva se as expectativas de consumo são negativas? E mais: se os juros permanecerem em patamares tão altos, a relação dívida/PIB não cai dos patamares atuais de 56% em termos líquidos (descontando-se as reservas) e 76% em termos brutos (dívida total). Desta forma, gera-se uma enorme desconfiança na solvência do país. Só para ilustrar: nos últimos doze meses (encerrado em junho) o superávit primário do setor público (receitas tributárias menos despesas) foi de 4,5% do PIB e o déficit nominal (que inclui o pagamento de juros da dívida pública) foi de 3,7% do PIB. O que isso significa? Significa que o pagamento dos juros da dívida pública não é coberto pela enorme arrecadação de impostos (cerca de 38% do PIB)!

O que as notas da última reunião do COPOM estão a nos mostrar é que estamos diante de um enorme desafio! O país precisa crescer e os meios para alcançar este objetivo são insuficientes dentro do contexto da política econômica atual. Ou implementamos uma sólida, consistente e criativa política econômica ou não vamos sair da situação atual. Não se trata de implementar estratégias “heterodoxas” tais como “calotes de dívida” ou “congelamentos de preços”. Trata-se de implementar reformas profundas no setor público e privado, tornando possível que o Estado induza o crescimento. Induzir implica, em alguns casos como os da infra-estrutura, investimentos estatais (mesmo que somados ao setor privado). Na maioria das vezes, implica em menor tributação para que o setor privado desperte o seu espírito empreendedor!
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petros@migalhas.com.br

* Francisco Petros é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduado em finanças (MBA) pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (1ª Turma-1987). Em 1988, ingressou na Brasilpar onde atuou por dez anos nas áreas de corporate finance e administração de recursos (esta foi a primeira empresa independente de gestão de recursos). Em seguida, foi diretor-executivo do Grupo Sul América na área de investimentos. Em 1998, fundou a NIX ASSET MANAGEMENT da qual é sócio-diretor. É membro do Conselho Consultivo do Ethical Fund, fundo de investimento administrado pelo ABN-AMRO. Foi diretor (1992), Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) e membro do Conselho Consultivo e do Comitê de Ética (atual) da APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais - São Paulo). É Certified Financial Planner (CFP®) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) e Analista de Investimento com CNPI (Certificação Nacional de Profissional de Investimento). É colunista da Revista Carta Capital, do Jornal Valor Econômico e consultor da Rede Bandeirantes de Rádio (BAND), além de contribuir esporadicamente para diversas publicações especializadas em mercado de capitais, economia e finanças. Em 2004 foi escolhido o “Profissional de Investimentos do Ano” pelo voto direto dos associados da APIMEC em função da sua contribuição para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.