Domingo, 24 de março de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 10 de agosto de 2004

Emprego e previsões

Francisco Petros*


Emprego e previsões


O cenário externo persiste extremamente difícil de ser previsto. Conseqüentemente, prevalece uma significativa instabilidade das expectativas e elevada volatilidade dos diversos segmentos do mercado financeiro e de capital.

Na última sexta-feira, o Board of Labor Statistics do Departamento de Comércio dos EUA divulgou os dados sobre a geração de empregos no mês de julho. As expectativas dos analistas, economistas e investidores gravitavam ao redor de 220-250 mil vagas que seriam criadas no mês. Os dados efetivamente divulgados mostraram que apenas 38 mil vagas foram criadas e a taxa de desemprego ficou pouco abaixo do mês anterior (caiu de 5,6% para 5,5%). O ritmo de crescimento das vagas de trabalho de julho é o mais fraco desde dezembro do ano passado. Apenas para (1) atender ao crescimento da população e (2) atingir um nível de desemprego de 4% que é considerado pelos estudiosos do assunto e pelo próprio Federal Reserve (Banco Central dos EUA) como sendo o ideal para atender aos objetivos de máxima capacidade utilizada sem pressões inflacionárias, o crescimento mensal das vagas de trabalho deveria ser de 250-280 mil. Observados os indicadores do mês de julho, pode-se imaginar a frustração dos analistas e dos investidores.

Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, em seu depoimento perante o Congresso dos EUA em 20 de julho passado, disse que estava otimista em relação aos indicadores de emprego de julho. Neste depoimento ele foi explicitamente questionado sobre a situação do mercado de trabalho e tentava explicar os fracos números de emprego dos meses de maio e junho. Aparentemente, também o Federal Reserve foi surpreendido pelos números fracos de julho.

E o que importa este indicador para o Brasil? É preciso entender que os indicadores de emprego são, juntamente com os de capacidade ociosa, produtividade e inflação, os mais importantes para a definição da política de juros básicos pelo Federal Reserve. Os juros básicos dos EUA estão para o mundo como a taxa Selic está para o Brasil. Quaisquer alterações nas expectativas em relação à taxa básica de juros dos EUA provocam enormes movimentos nas taxas de câmbio, juros e no mercado de ativos ao redor do mundo. Foi exatamente isso que ocorreu na última sexta-feira, depois da divulgação dos dados de emprego nos EUA: o dólar se desvalorizou perante quase todas as moedas internacionais (inclusive em relação ao real), as taxas de juros dos títulos do Tesouro norte-americano caíram fortemente, assim como as ações se desvalorizaram. Apesar dos indicadores de emprego de julho terem sido muito fracos é provável que o Fed aumente hoje a taxa de juros básica de 1,25% para 1,50% ao ano. Entretanto, está muito difícil prever quais serão os próximos movimentos do Fed nas próximas reuniões de seu comitê responsável pela gestão da política monetária. Com efeito: o mercado financeiro mundial deve continuar muito volátil a cada divulgação de indicadores econômicos dos EUA. No curto prazo, o Brasil pode ser beneficiado pelo menor custo de capital vigente no mercado internacional. Para um país que tem amortizações de empréstimos externos de US$ 35-40 bilhões por ano, o nível mais baixo das taxas de juros internacionais é fator vital para definir o curso do risco-país e, por conseguinte, as expectativas de crescimento, câmbio e juros domésticos.

Quem não deve ter ficado nada feliz ao ler estes números foi o Presidente George W. Bush. Empregos e impostos são os dois “carros-chefe” das discussões entre os eleitores norte-americanos. John F. Kerry, o candidato democrata, tem enfatizado que o crescimento atual não é sustentável e a recuperação do mercado de trabalho incipiente. Ele culpa a política fiscal de Bush como elemento fundamental para este fracasso de vez que gerou um enorme déficit fiscal e reduziu os impostos dos mais ricos que são os que gastam menos em termos relativos. Até novembro muito pode acontecer, mas se a economia mostrar sinais fracos, as chances de Kerry nas eleições presidenciais de novembro devem aumentar. Obviamente, em tempos de riscos geopolíticos elevados e campanhas eleitorais marcadas por um marketing e propaganda nos quais a imagem é mais importante que as idéias, tudo é possível de ocorrer. Contudo, a questão do emprego parece ser paradigmática no atual contexto.

Por fim, uma pequena nota sobre a capacidade de se elaborar previsões. Há um notável arsenal de instrumentos e programas de análise e previsões econômicas no mercado financeiro ao redor do globo. Entretanto, o que verificamos é que os erros destas previsões são grosseiros quando confrontadas com a realidade factual. Tenta-se adivinhar o futuro quando se deveria mostrar para os agentes econômicos e a sociedade em geral as variáveis de risco presentes no cenário. Isto seria mais útil às decisões de investimento e consumo. Os indicadores de emprego dos EUA são apenas um pequeno exemplo da incapacidade de se fazer previsões, apesar da sofisticação dos estudos e ferramentas disponíveis para tal tarefa.

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petros@migalhas.com.br

* Francisco Petros é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduado em finanças (MBA) pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (1ª Turma-1987). Em 1988, ingressou na Brasilpar onde atuou por dez anos nas áreas de corporate finance e administração de recursos (esta foi a primeira empresa independente de gestão de recursos). Em seguida, foi diretor-executivo do Grupo Sul América na área de investimentos. Em 1998, fundou a NIX ASSET MANAGEMENT da qual é sócio-diretor. É membro do Conselho Consultivo do Ethical Fund, fundo de investimento administrado pelo ABN-AMRO. Foi diretor (1992), Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) e membro do Conselho Consultivo e do Comitê de Ética (atual) da APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais - São Paulo). É Certified Financial Planner (CFP®) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) e Analista de Investimento com CNPI (Certificação Nacional de Profissional de Investimento). É colunista da Revista Carta Capital, do Jornal Valor Econômico e consultor da Rede Bandeirantes de Rádio (BAND), além de contribuir esporadicamente para diversas publicações especializadas em mercado de capitais, economia e finanças. Em 2004 foi escolhido o “Profissional de Investimentos do Ano” pelo voto direto dos associados da APIMEC em função da sua contribuição para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.


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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.