Quarta-feira, 20 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 24 de junho de 2008

Política & Economia NA REAL n° 6

Rumo a 2010. Em passo acelerado

Tanto o PSDB quanto Lula, apontados hoje como os dois principais contendores na sucessão presidencial, têm se esmerado em negar que as eleições municipais deste ano sejam apenas um rito de passagem, uma preliminar para 2010. Podem fazer quantas juras quiserem : tanto um lado quanto o outro pensa apenas nisso. Todos os grandes passos dados por PT e aliados de um lado e pelos tucanos e sua turma de outro, nessa fase preparatória da sucessão municipal, visaram bem postar suas tropas para a disputa maior daqui a dois anos.

Todas as mexidas que o presidente Lula fez – ou tentou e não conseguiu – visaram exclusivamente fortalecer a aliança governista e, muito especialmente, a posição dele, Lula, como o grande eleitor. Mesmo quando contrariou interesses do PT e não foi atendido. Caso das alianças em MG, onde deseja um acordo com o PSDB de Aécio e o PT resiste, e no Rio, onde preferia que o seu partido apoiasse a candidata do PC do B, Jandira Feghalli, em vez de correr com candidato próprio, Alexandre Molon. De qualquer modo, ainda que com tais divergências, Lula sabe que terá praticamente um palanque para subir em praticamente todas as cidades em que vier a ocorrer um segundo. Não ficará órfão.

Em SP, reforçou Marta com a quase certa adesão do PC do B e do restante do bloquinho. Em BH, a eleição será decidida no primeiro turno, com ou sem aliança formal de Aécio com Fernando Pimentel. Além do mais, Aécio não pode ser classificado como um adversário. Pelo menos por enquanto. No Rio, Molon está fadado a um quarto ou quinto lugar e Lula poderá juntar-se de peito aberto ao seu preferido : Marcelo Crivella. Uma situação que se repetirá pelo Brasil afora.

No primeiro turno, o objetivo real de Lula é concentrar-se nas cidades médias e pequenas, conquistar o máximo de prefeituras aliadas, não necessariamente do PT. Depois, é derrotar a dupla DEM/PSDB, mesmo com sacrifício de petistas. É por essa razão, inclusive, com medo de ser rifado ou ter uma candidatura à sucessão de Lula imposta de cima para baixo, que o PT também andou contrariando algumas sugestões do presidente. Em Minas em especial. Não sabem bem ao estômago petista os salamaleques entre o presidente e Aécio. O PT quer sair dessas eleições também muito fortalecido nos municípios para não ter de engolir um candidato tirado do bolso do colete de Lula.

A oposição ainda sem rumo

Foi também em nome da miragem de 2010 que se celebrou uma paz de última hora no domingo entre alckmistas e kassabistas na convenção municipal tucana em SP. O racha cairia no colo de Serra. E vai cair. Não se celebrou uma paz, apenas uma trégua precária. Que paz é esta em que 10 dos 12 vereadores tucanos na capital não aparecem na convenção e fazem uma reunião na mesma hora para falar mal do candidato que estava sendo ungido em nome da unidade partidária ? Gilberto Kassab não passou recibo, os democratas não chiaram, mas está anotado no caderninho deles : cobrar caro uma aliança com os tucanos em 2010, especialmente com Serra. Em Brasília, alguns "demos" já falam numa candidatura própria em 2010, no primeiro turno, para marcar posição e ajudar na formação das bancadas legislativas. Aliança somente no segundo turno. Igualzinho a São Paulo agora.

Aécio poderia usufruir agora das enrascadas em que Serra se meteu com Alckmin e Kassab, porém também arranjou a sua sarna. Tem de decidir se leva o PSDB a apoiar formalmente o chapa do PSB com o PT, com o socialista Márcio Lacerda na cabeça, jogando novamente a bomba no colo do PT, ou se faz uma aliança informal, como impôs a direção nacional petista. Se optar pela segunda, mostra certa fraqueza e pode se queimar com o tucanato nacional. Afinal, quem tem voto em Minas, até prova em contrário, é ele, Aécio. Por que ceder ? Alguns tucanos emplumados desconfiam até que o mineiro está preparando o terreno para pular fora do barco se sentir que a opção do partido em 2010 será pró-Serra.

Com tantas vacilações e tantas vaidades reunidas, a verdade é que a oposição dá a partida para 2010 em desvantagem. A sorte dela é que Lula terá de fazer muita força para unir a base aliada. E há a tal "malvada" da inflação à espreita. A sucessão de 2010 vai ser decidida, tropeços à parte, pela economia. (ver abaixo)

Inflação : fenômeno mundial

A inflação está subindo em quase todas as economias relevantes ao redor do globo. Na semana passada novas evidências de que este processo começa a avançar foram percebidos pelos agentes econômicos.

Na Índia, a inflação anualizada atingiu o maior patamar em 13 anos. Na Alemanha, os preços no atacado subiram para o nível mais alto dos últimos 26 anos. Em Hong Kong, a inflação está em acelerado processo de alta. No México, o Banco Central subiu os juros de 7,50% para 7,75% ao ano em função das taxas de inflação que estão a subir. A China aumentou os preços dos combustíveis ao redor de 17% e a inflação começa a se espalhar no momento de proximidade das Olimpíadas. A inflação na China este ano deve ser ao redor de 8%, enquanto a meta de inflação era de 4,8% para 2008. Na Europa, a inflação mensal medida pelo índice de preços ao consumidor está acima da meta da inflação por dez meses consecutivos.

Muitos acreditam que a escalada dos preços deve permanecer forte pelo menos até o final do terceiro trimestre do ano. Até lá as economias estarão absorvendo os custos da alta das commodities agrícolas e do petróleo, cujas cotações dobraram nos últimos doze meses.

Isso significa que os Bancos Centrais irão permanecer inquietos e, eventualmente, inertes. De um lado, olharão a inflação em alta. De outro, a atividade em queda. Um cenário bem deteriorado, como se pode ver.

O Fed vai dar sua linha esta semana. Mexerá nos juros ? Se tocar, é para cima.

Por aqui, vacilações inflacionárias

Iludiu-se quem imaginou que da reunião do presidente Lula com sua equipe econômica e seus conselheiros informais na semana passada no Palácio do Planalto sairiam algumas medidas adicionais de combate à inflação. Pura ingenuidade. A reunião foi para o consumo externo, para mostrar que o Palácio do Planalto está atento e tomando, quando necessário, as providências devidas. Está tudo sob controle assegurou o ministro Mantega, porta-voz do encontro. Mantra que Lula repetiu ontem no seu programa de rádio.

Medidas amargas ou semi-amargas, além da elevação dos juros pelo BC, somente após as eleições. A não ser que o quadro interno e externo se deteriore ainda mais rapidamente do que vem se deteriorando. Os analistas oficiais acham que dá para segurar até lá, com chances da situação se reverter. Não havendo essa reversão, o governo terá uns oito ou dez meses para fazer as maldades necessárias, a tempo de botar novamente a economia no eixo para o embate de 2010. Inevitavelmente, a partir de meados do ano que vem a sucessão já estará deflagrada e tudo fica mais difícil.

Este é o dilema que engolfa o Palácio : como conduzir bem a economia entre os meandros de duas eleições.

Câmbio : será usado como arma contra a inflação ?

São os fluxos de capital destinados aos investimentos no mercado financeiro, sejam os de renda fixa, sejam os de renda variável, que estão a jogar o Real para cima e o dólar para baixo. É certo que o dólar norte-americano não está nos seus melhores dias no mercado internacional em função da fragilidade da maior economia do mundo. Todavia, o Brasil com a sua taxa de juros mais alta do mundo está recebendo fluxo externo que "arbitra" os juros domésticos com o externo.

No limite, o controle de capitais pode ser usado para controlar este processo, mas isso teria implicações muito mais largas e o governo não parece propenso a adotá-lo. De outro lado, há suspeitas justificadas de que o governo poderia deixar a taxa de juros subir (sob a batuta do BC) e o câmbio se valorizar para controlar a inflação no curto prazo. Com isso, perde o setor exportador e pioram as contas externas do país. Algo sempre perigoso.

Ao que tudo indica o governo vai tentar este caminho. Além do risco em relação às contas externas, há a possibilidade concreta de a crise no mercado contaminar o mercado local e a fuga de capitais agitar o câmbio. Para cima. E aí? Adeus estratégia de controlar a inflação via câmbio. Virá mais inflação.

Mercado de ações : há uma bolha especulativa ?

Atividade em queda e inflação em alta não é cenário favorável para as ações em geral. Apenas para certos segmentos. No Brasil, o Ibovespa continua muito perto dos níveis mais altos de toda a sua história. Em termos de dólares o índice está no patamar de 41 mil pontos favorecido pela alta das ações e pela alta do real.

Cabe perguntar: há uma bolha especulativa por aqui? No mínimo, o tema merece reflexão.

Petróleo : OPEP não dá alento

O recorde de preço do barril do petróleo da semana passada quando foi atingido o patamar de US$ 139,89 pode ser superado em breve. A reunião do cartel da OPEP que reuniu os países exportadores de petróleo neste último fim de semana em Jeddah na Arábia Saudita foi um fracasso anunciado. Nenhum dos países produtores tem condições de aumentar a produção com rapidez de vez que falta capacidade para extrair o "ouro negro".

Somente a Arábia Saudita pode fazê-lo em pequena quantidade (200 mil barris/dia) acrescentando aos 9,5 milhões de barris que já produz. A produção mundial de petróleo é de 86 milhões de barris/dia e o consumo é equivalente. Todavia, o crescimento anual do consumo supera em mais de 5% a alta da produção. Isso abre um extraordinário espaço para a especulação com os preços e, de sobra, vai aumentar a inflação e diminuir a atividade econômica no globo.

Brigas petroleiras

O governo está se preparando para um briga de gente grande numa área que é hoje a preocupação máxima em todo o planeta – a petrolífera. Na esteira da descoberta dos mega-campos na Bacia de Santos, armam-se alterações profundas nas leis do setor, aprovadas quando da quebra do monopólio da Petrobrás.

O ataque será em três frentes:

1. Alterar as regras para os novos contratos de concessões. Como disse o presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, em entrevista ao diário inglês Financial Times, "O Brasil precisa mudar as leis que regem o setor de petróleo para lidar com seu futuro de grande produtor e arrecadar mais receita para o Estado". Em princípio, os grupos que já estão por aqui fazendo prospecção dizem aceitar as mudanças. Veremos como será quando sairmos da teoria para a prática.

2. Mudar o sistema de distribuição dos royalties pagos às prefeituras, hoje dirigidos apenas às regiões produtoras. A idéia é beneficiar também os não-produtores diretos. As prefeituras e os Estados que ganham sozinhos hoje já estão chiando.

3. Criar um fundo especial, com recursos dos royalties para financiar a educação. No caixa federal. Estados e municípios vão gritar também neste ponto. Outros setores sociais, como a saúde, reivindicarão sua fatia.

O pré-sal está se configurando como a nova galinha de ouro da economia nacional. Tanta cupidez, no entanto, pode matá-la. Não se sabe ainda quanto ela vai gerar de renda e nem quando vai começar a dar frutos e já estão dividindo a receita...

Lição em São José dos Campos

Embora tenha merecido um editorial do Estadão (23/6), passou um pouco despercebido o histórico acordo celebrado entre a General Motors e seus empregados na fábrica de São José dos Campos. A contragosto do sindicato local dos metalúrgicos, que fez tudo para boicotá-lo.

Os trabalhadores da GM aceitaram a proposta da montadora a respeito do pagamento das horas extras e a contratação de 600 novos trabalhadores com o piso inicial menor do que o existente até então. Mais empregos e mais renda para a região. A montadora vai investir lá US$ 500 milhões para produzir um novo veículo médio. O carro chega ao mercado no segundo semestre de 2010.

No início do ano, a GM fez uma tentativa idêntica em São José dos Campos, para implantar em uma nova linha de montagem do Celta. A mesma proposta, os mesmos 600 empregos. A direção do sindicato então bloqueou o acordo. E a GM trouxe os investimentos e os empregos para São Caetano. Desta vez, ante outro bloqueio do sindicato, os empregados da GM, os políticos, os empresários e as instituições da sociedade de São José reagiram e o sindicato acabou forçado a voltar atrás.

É por essas e outras que os sindicatos trabalhistas e mesmo as centrais sindicais estão perdendo força e se tornando cada vez mais atrelados ao Estado e dependentes dos dinheiros públicos, como o imposto sindical e verbas de ONGs.

Bancos : novas baixas de ativos ao redor do mundo

Muito provavelmente haverá uma rodada de divulgações de péssimos resultados de bancos globais, especialmente dos norte-americanos. Com isso, o temor de quebras de bancos voltará a rondar a cabeça dos investidores. Os bancos centrais terão a tarefa de manter a estabilidade do sistema financeiro. Mais turbulência à vista no mercado internacional.

Enquanto isso, aqui no Brasil, os bancos mantêm o vigor tanto na área de crédito quanto no segmento de serviços.

Há que se considerar que as regras contábeis e de baixa de ativos praticada pelas principais instituições financeiras brasileiras são substancialmente mais rigorosas que aquelas praticadas em outras praças. Basta verificar um relatório das empresas classificadoras de risco para entender que por aqui as coisas são de primeiro mundo neste tema.

Displicência notada

O presidente da Securities and Exchange Commision (SEC), Christopher Cox, está sendo muito criticado por não ter participado das discussões sobre o resgate do Banco Bear Stearns em março último.

O Banco que foi absorvido pelo Chase JP Morgan abalou o sistema financeiro norte-americano e colocou o Federal Reserve em alerta a ponto de volumosos recursos terem sido disponibilizados para uma série de bancos com problemas de liquidez. Pois bem : o incrível é que o presidente da SEC alega que "não foi informado sobre as reuniões telefônicas entre as autoridades" na ocasião dos nervosos telefonemas. Em outra oportunidade, estava numa festa de aniversário quando estava sendo definido o pacote financeiro do governo que salvou o sistema financeiro dos EUA.

No próximo mês, o Congresso dos EUA inicia uma investigação sobre a crise dos bancos americanos. Cox será investigado por negligência.

Alguém acredita no FMI ?

Os economistas do FMI aumentaram as expectativas para o crescimento da economia americana de 0,5% para 1,1% neste ano e de 0,6% para 0,9% em 2009. A previsão anterior foi feita em abril. Como se pode ver, os sábios economistas da entidade multilateral mudam de opinião com muita rapidez.

No passado, os experts do Fundo pouco falaram de bolhas especulativas, alta dos preços dos combustíveis e elevação da inflação. Assuntos relevantes no primeiro mundo. Já quando os temas são de países "emergentes" os tecnocratas do FMI são bem vocais... E cheios de si e de regras...

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.