Quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 26

Mercado volta os olhos para a recessão

Nas últimas duas semanas ficou mais claro que os mercados financeiros (internacional e local) estão mais calmos no que se refere à crise de crédito e aos impactos sobre as instituições financeiras. A injeção de mais de US$ 3 trilhões de liquidez, equivalente a 25% do PIB norte-americano, garantiu a tranqüilidade. É até possível que todo o arsenal utilizado pelos principais bancos centrais do mundo e pelos respectivos governos nem venha a ser totalmente utilizado. Há muito de psicológico nas crises em geral, e nas financeiras em particular. O pânico é um fenômeno bem conhecido, mas sempre que ocorre parece ser a primeira vez. E o pânico não dura para sempre num mercado cujo pilar é a racionalidade. Assim como a racionalidade não dura para sempre... De agora em diante o mercado, os investidores e os governos estarão de olho na recessão que ainda está a se implantar nas principais economias e cuja magnitude ainda não é conhecida. Assim como também não é conhecida a magnitude dos efeitos sobre as economias periféricas, como no caso da brasileira. Isso tudo indica que a volatilidade vai cair em relação às semanas anteriores, mas continuará relativamente elevada frente aos meses anteriores.

A tática brasileira

O governo Lula já definiu – até prova em contrário – como vai tentar enfrentar a possível queda da atividade econômica em nossas plagas: apoio aos setores mais complicado e mais estratégicos – além do mercado financeiro, a construção civil, as indústria automotiva, a área agrícola, as micro e pequenas empresas – e muita, muita atividade estatal. A redução do superávit primário de 4,3% para 3,8% do PIB e até para menos se for necessário já é uma decisão. Está sendo chamada de ação anticíclica. Segundo um bom número de especialistas, se os gastos privilegiarem os investimentos, ótimo, é uma grande ajuda. Se for para custeio, para os gastos correntes prioritariamente, o Palácio do Planalto pode estar "construindo" um desastre. Tipicamente brasileiro, nada a ser cobrado "do Bush". Como pano de fundo da tática palaciana, as eleições de 2010. O governo está com um olho na economia e os dois, com lupa, na política.
 

Obama não é o Messias

Barack Hussein Obama pode até parecer nome de profeta, mas ele não é. Pode vir a ser um estadista. Mas isso ele ainda não é. Pode parecer um extraordinário político internacionalista. Mas ainda não é. Pode parecer um grande estrategista. Mas ainda não é. Pode parecer o ressuscitador da economia norte-americana. Mas ele ainda não é. Será o Messias? Não é. Esperemos a sua possível vitória no pleito e o início de seu governo para verificarmos se ele está à altura do ícone que ele construiu para si mesmo. Com a condescendência do mundo. O mundo, mais do que os EUA, está esperando de Obama o que ele talvez não possa dar.

Em busca de um herói

O provável presidente dos EUA é Obama. Todavia, a pergunta que se faz em Wall Street e mundo afora é: quem serão as personalidades que liderarão a área econômica dos EUA neste momento crucial? O mercado não quer apenas alguém "preparado" e "competente". Quer um herói. 

Outra incógnita

Uma outra incógnita: qual o Congresso sairá das urnas americanas deste novembro. Sabe-se que será democrata. Mas com qual proporção. Em princípio não é para causar entusiasmos. Tradicionalmente, os democratas são bem mais protecionistas que os republicanos. O ideal: uma Câmara e um Senado mais ou menos equilibrados, sem uma hegemonia muito forte dos aliados de Obama.

Fusão Unibanco e Itaú I

Não se pode dizer que a fusão dos dois bancos foi surpreendente. Há muito se comentava em voz alta que o Unibanco em algum momento iria parar nas mãos de seus concorrentes, como parte da consolidação do setor financeiro e mundial. A fusão do Unibanco com o Itaú foi uma saída muito positiva para todos os acionistas, não somente os controladores, mas também os acionistas de mercado (que usualmente são erroneamente chamados de "minoritários"). Os dois bancos juntamente terão ativos da ordem de R$ 580 bilhões e um patrimônio líquido de R$ 51,7 bilhões. O lucro líquido combinado seria de US$ 8,1 bilhões. Dados de setembro deste ano. Há importantes ganhos de escala a serem apurados na consecução final das operações. Todavia, o maior ganho é estratégico. A nova instituição, a Itaú Unibanco Holding, será a maior no hemisfério sul e terá capacidade de competir internacionalmente.

Fusão Unibanco e Itaú II

As instituições informaram que os bancos vinham negociando há 15 meses a fusão. Não se sabe ao certo o porquê de somente agora o acordo ter sido fechado. Porém, é razoável especularmos que a atual crise financeira mundial deve ter colaborado para que as conversas evoluíssem. A fusão do Santander com o ABN Real deve ter colaborado também para que tudo andasse mais rápido. O capitalismo faz os capitalistas pragmáticos. Jogos não-colaborativos em colaboração total. No caso do Unibanco, a instituição dos Moreira Salles vinha sofrendo muito nos últimos dias com insistentes boatos de problemas de insolvência.

Fusão Unibanco e Itaú III

Alguns números para pensar sobre a fusão brasileira dos bancos. O valor de mercado da nova instituição Itaú Unibanco Holding deve gravitar ao redor de US$ 50 bilhões. O Citibank vale algo como US$ 74 bilhões. O Bank of America cerca de US$ 110 bilhões. A Goldman Sachs, depois de sua derrocada, vale US$ 34 bilhões. O JP Morgan Chase (resultado da fusão de muitos bancos nos últimos dez anos) vale US$ 142 bilhões. O Wells Fargo (que acabou de adquirir o Wachovia) vale US$ 113 bilhões. O Itaú Unibanco Holding nasceu para poder competir no mundo. Tem bala para isso. Terá de ter competência.

E os clientes?

Há uma concentração bancária sem precedentes no setor financeiro brasileiro. Certamente favorável ao fortalecimento das instituições num ambiente altamente competitivo como é o atual. Todavia, cabe a pergunta: tal concentração afetará de que forma o bolso da clientela? Há riscos desta concentração desequilibrar a relação entre os bancos e seus clientes de tal sorte que estes últimos sejam prejudicados? A legislação sobre concorrência no Brasil precisa ser alterada? Com a palavra o BC, o Governo e o Congresso.

Banco do Brasil e a competição

O BB deixará de ser o maior banco brasileiro. Os efeitos desta perda de liderança sobre o mercado e sobre a instituição serão importantes em muitos aspectos comerciais, sobretudo perante os clientes pessoas físicas e jurídicas de médio e pequeno porte. Há outro aspecto muito notável que precisa ser melhor avaliado: em diversas ocasiões, sobretudo durante períodos de crise, o Banco do Brasil foi uma espécie de "regulador de mercado", atuando ora como "bombeiro", ora como "estimulador". Certamente, estes "papéis" (nem sempre desejados pelos administradores do banco, investidores e a própria sociedade) têm custos para o grande banco estatal. Daqui para frente estes custos serão cada vez mais relevantes para que o BB possa continuar a ser competitivo perante a concorrência (agora mais do que nunca reforçada!).

A reação estatal

A fusão Itaú-Unibanco deverá precipitar os processos de aquisição da Nossa Caixa e do BRB pelo Banco do Brasil. A MP 443, que a Câmara começa a discutir e que deve aprovar ainda esta semana, veio principalmente para facilitar este negócio. O BB poderá endereçar seus olhares também para algumas instituições privadas de médio e pequeno porte. Sendo o governo Lula o que é, ele nunca abrirá mão de ter o controle de uma instituição financeira poderosa, que possa ser usada para determinar, como mostra a nota anterior, os rumos do sistema financeiro brasileiro. O controle indireto, via BC, para a "ideologia" reinante é pouco. Aliás, como se verá em nota abaixo, sobre as influências políticas sobre o Copom.
 

O antigo líder vai reagir

O Bradesco, obviamente, não se conformará com a perda da liderança no ranking dos bancos privados brasileiros. Pelas reações iniciais, percebe-se que o gigante foi surpreendido com a ação dos concorrentes Itaú e Unibanco, especialmente do Itaú, com quem disputou o primeiro lugar nos últimos anos. E vai ter de se virar. Não há no horizonte nenhum grande à disposição para ser incorporado com o tamanho para levar o Bradesco para próximo do novo mastodonte bancário nacional. Mas o mercado, que já comentava o assunto há dias, dá agora como mais do que provável a incorporação do Votorantim, um banco que vinha muito bem, mas tropeçou na crise, pelo Bradesco. Com a eventual aquisição, o Bradesco passaria o Banco do Brasil em ativos. Por conta dessa perda de posição, o BB entrou no negócio, e está também disposto a levar o BV, o que vai elevar o preço do negócio.


COPOM: queda de braço continua

O fato de o BC ter "apenas" mantido a taxa básica de juros (conforme o nosso prognóstico) não satisfez importantes personagens localizados no Planalto e na Fazenda. Consta que o próprio Lula (conforme notícias da imprensa no final de semana) haveria de pressionar o BC para que reduzisse a taxa básica de juros num momento em que a atividade econômica deve cair. A tarefa do BC de combinar inflação baixa com sustentação da atividade econômica é verdadeiramente impossível. A autoridade monetária terá de ceder em algum ponto. Resta saber se satisfará a gregos e troianos, ou melhor, a palacianos e fazendeiros...

Visão sobre o mercado acionário

Não acreditávamos que o pior cenário de preços pudesse ser mantido nos patamares tão baixos de três semanas atrás. De lá para cá, o mercado acionário subiu e certos setores, sobretudo o financeiro, subiram forte. Agora, impulsionado pela fusão do Itaú com o Unibanco. Daqui para frente, acreditamos em menor volatilidade, mesmo que ainda elevada, e num mercado "andando de lado". Sem grande vigor nas altas, mas sem depressão na baixa. Tudo isso alinhado com o mercado lá de fora. O setor de commodities não se recuperará de forma substancial. Deve ficar no marasmo apresentado lá fora. A razão é óbvia: a recessão que virá não dá espaço para expectativas de altas nos preços.

Os eventos da crise

São Paulo abrigou na semana passada três enormes e concorridos eventos: a grande festa da Fórmula 1, a Futurecom (o maior evento da América Latina nas áreas de telecomunicações e de tecnologia da informação) e o Salão do Automóvel. Apenas a F-1 foi festa, incompleta somente porque Felipe Massa não ficou com o título mundial. Nas outras duas, setores extraordinariamente estratégicos, a euforia aberta foi encoberta por evidentes nuvens de preocupação com o futuro mais ou menos imediato dos negócios. Mais no automobilístico, que sabe jogar melhor com suas dificuldades para conseguir amparos do governo, do que no de TC e TI.

Sem reforma agora

Só um milagre salva a reforma tributária este ano. Os governadores José Serra, Aécio Neves, Paulo Hartung e Sérgio Cabral não gostaram do substitutivo do deputado Sandro Mabel e tiraram o apoio ao projeto. É ilusão achar que mudanças de tal magnitude aconteçam sem a anuência desses Estados. Para alguns analistas é até bom. O projeto, mesmo profundamente alterado pelo deputado goiano, ainda tem mais defeitos do que qualidades. Pelo menos do ponto de vista das empresas e dos cidadãos, embora traga alguma simplificação tributária. Certas "pegadinhas" deixadas no texto por Mabel abrem perigosas sendas para aumentos de impostos com muita facilidade.

Eleições para o Congresso...

...as novas coalizões partidárias, brigas na base aliada, atração do PMDB, etc, etc. Tudo o que se diz sobre isso, absolutamente, de qualquer das partes envolvidas, não deve ser comprado pelo valor de face. Tudo, totalmente tudo, nesse terreno, é negociável.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.