Sábado, 24 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 5 de outubro de 2004

A “nova política”

Francisco Petros*


A “nova política”


Durante o auge da especulação com ações das empresas da “nova economia”, no final dos anos 90 e início do novo milênio, os analistas de investimentos e as instituições financeiras justificavam os elevados preços das ações por meio de metodologias de análise que não eram baseadas na “geração de valor” ou em algo que fizesse parte da “lógica tradicional”. Dizia-se que para setores novos era importante observar “outras variáveis” como o crescimento do faturamento e dos ativos (estes em muitos casos, intangíveis), bem como a “nova marca” que estava se criando. Os investidores, ao invés de se deterem em fatos concretos e numa apreciação fria dos aspectos que envolviam as empresas, caíam na tentação de comprar e vender ações de forma maníaca. O furo da “bolha especulativa” repercute até os atuais dias na economia norte-americana e mundial. A maioria dos “maníacos” da “nova economia” quando voltaram à razão verificaram que tinham perdido muito dinheiro. Da ideologia passou-se à realidade.

Gostaria de incorporar alguns aspectos deste processo com o que está a ocorrer na política e com os políticos ao redor do mundo. Estou convencido que, assim como no caso da “nova economia”, há uma “nova política”, construída em bases pouco confiáveis, mas com características semelhantes à “nova economia”. Nos últimos dias, tivemos exemplos transparentes deste fenômeno.

Um destes exemplos foi o debate entre os candidatos presidenciais dos EUA George W. Bush (Republicano) e John Kerry (Democrata), o qual foi visto por pelo menos 1/3 dos eleitores que pretendem exercer o direito de voto no dia 2/11 próximo. Foi um debate vazio de idéias, a despeito de ter evidenciado diferenças claras entre os dois candidatos.

De um lado, viu-se o discurso “patriótico” de Bush pregando que o mundo está melhor e mais seguro sem Saddam Hussein. Pouco refletiu sobre a presumida existência de “armas de destruição em massa” naquele país. Quase nada falou sobre a situação atual do Iraque, à beira da guerra civil, com atentados contínuos e incontroláveis. No mesmo dia do debate, um novo atentado em Bagdá provocou 200 vítimas entre mortos e feridos. Diabólicas foram as cenas de crianças mortas entre os escombros ou nos braços de seus pais desesperados. A barbárie em toda a sua expressão. Enquanto isso, em um local ignorado, Saddam Hussein está preso e à espera de um “julgamento”. O ex-ditador abandonou a antiga crueldade e agora lê e escreve poesias, envia cartas à esposa e filhas e é tratado de um câncer de próstata, fato que pode ser até reconfortante do ponto de vista físico para um prisioneiro solitário e, provavelmente, a caminho da pena de morte.

Bush, naquele debate prestou os seus serviços à “nova política”. Um discurso vazio e a imagem de “Comandante-em-Chefe das Forças Armadas” a lhe servir de “prótese mental” para a ausência de conceitos e políticas consistentes. Coisa típica de “marketeiros”.

John Kerry emplacou um discurso mais equilibrado, tocando em temas mais profundos como a necessidade de se ter aliados e de se construir alianças. Citou o próprio pai do atual Presidente dos EUA como exemplo do que não deveria ser feito: invadir um país sem que exista uma solução minimamente visível para o período pós-ocupação. Entretanto, conseguiu trair-se – de forma ridícula – ao tentar convencer o eleitorado que ao votar a favor da autorização para uma guerra injustificada não autorizou a invasão de um país. Ao invés de dizer que não teve a coragem de ir contra a opinião pública, naquele momento da votação sobre a guerra, em função do “clamor patriótico” da população, o democrata preferiu fazer uma contorção circense e provou-se ser um bom malabarista.

No que tange às alternativas para a política estadunidense em relação ao Iraque, nenhum dos dois conseguiu elaborar nenhuma “idéia de valor” no debate. Assim como na “nova economia”, a “nova política” explorou o imaginário popular e o seu “espírito maníaco”. E o mundo assistiu com paciência ao show televisivo dos dois “novos políticos”. Sem valores definidos e, ao mesmo tempo, delineados por “imagens construídas” por gente especializada em marketing. “É a nova política estúpido!”, poderíamos dizer.

O segundo evento da semana passada que merece destaque foi o discurso do Primeiro-Ministro inglês Tony Blair na convenção anual do Partido Trabalhista. Ao contrário de George W. Bush, Tony Blair não atrai aos olhos do público uma imagem arrogante. Sua feição de sacristão devotado, seus gestos suaves e sua voz calculada e com variações elegantes parecem genuínas. Contudo, tudo isto é útil ao marketing da “nova política”. Com ar de solenidade, o Premier britânico pediu desculpas aos seus correligionários pelos erros cometidos pelos serviços secretos ingleses em relação ao Iraque. De fato, disse ele, superestimou-se a existência de “armas de destruição em massa”. Assim como ocorria com os lucros das empresas da “nova economia”, o conceito de “superestimativa” aplicado à “nova política” é bastante “específico”. Onde se lê “muitas armas de destruição em massa”, entenda-se nenhuma! Ora, ora...

Enquanto discursava, os poucos correligionários que se indignaram com o discurso do “sacristão” de Sua Majestade eram retirados por seguranças musculosos. Rua! Afinal de contas, aquele não era exatamente um ambiente para discordâncias. Uma convenção... Além disso, tratava-se do líder trabalhista, outrora socialista, com a imagem refeita perante a opinião pública a prostrar-se piedosamente no seu palanque a dizer: “Foi só uma mentirinha! Importante mesmo foi derrubar Saddam! Quanto às razões para tal, não importa...” Provavelmente, algum “marketeiro” pediu para ele pedir desculpas para completar aquela cena ridícula. Shakespeare sairia do recinto também indignado – será que nos braços de seguranças? Talvez Wilde dissesse que aquele discurso lhe inspirara a peça “The Importance of Being Earnst”.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel consolidou a dialética como forma de pensar o mundo e a política. A tese, a antítese e a síntese consolidaram o processo de análise a partir das contradições internas dos fatos e da própria vida. Pôde, assim, filosofar sobre a Política e a Sociedade.

É possível que na “nova política” a coisa funcione assim: não existe propriamente uma tese, mas uma “imagem” somada a um interesse de um pequeno grupo. A “antítese” não é o contraditório per se. É apenas a “tese” disfarçada por outra “imagem”. Já a “síntese” seja “O Nada”. Lembrando que este Nada pode ser uma guerra injustificada, uma alteração substancial de política econômica e assim por diante. O Nada é, portanto, a única coisa concreta! (Nada melhor do que filosofar sobre Política nos dias de hoje, hein!?). Todavia, não se iluda! Um cenário como este jamais é “neutro” para a vida das sociedades.
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petros@migalhas.com.br

* Francisco Petros é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduado em finanças (MBA) pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (1ª Turma-1987). Em 1988, ingressou na Brasilpar onde atuou por dez anos nas áreas de corporate finance e administração de recursos (esta foi a primeira empresa independente de gestão de recursos). Em seguida, foi diretor-executivo do Grupo Sul América na área de investimentos. Atualmente exerce a função de consultor de investimentos e de empresas. É membro do Conselho Consultivo do Ethical Fund, fundo de investimento administrado pelo ABN-AMRO. Foi diretor (1992), Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) e membro do Conselho Consultivo e do Comitê de Ética (atual) da APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais - São Paulo). É Certified Financial Planner (CFP®) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) e Analista de Investimento com CNPI (Certificação Nacional de Profissional de Investimento). É colunista da Revista Carta Capital, do Jornal Valor Econômico e consultor da Rede Bandeirantes de Rádio (BAND), além de contribuir esporadicamente para diversas publicações especializadas em mercado de capitais, economia e finanças. Em 2004 foi escolhido o “Profissional de Investimentos do Ano” pelo voto direto dos associados da APIMEC em função da sua contribuição para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.


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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.