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ISSN 1983-392X

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 38

Terça-feira, 3 de fevereiro de 2009 - nº 38

Lula apostou no PMDB

Pelos resultados folgados alcançados pelos peemedebistas Sarney e Teme, pode-se afirmar, com segurança, que, apesar das cirandas e dos tiros em "folha-seca", Lula apostou suas fichas mesmo foi no PMDB. Se alguém foi traído nas disputas pelas presidências da Câmara e do Senado, como se imagina que poderia ocorrer quando a luta nas duas casas ficou acirrada, foi o senador Tião Viana e o deputado Aldo Rebelo. Não faltou o velho pragmatismo, com pitadas ideológicas e políticas de ocasião, que sempre marcou a trajetória política de Lula desde os tempos de líder sindical. Tião Viana e Aldo e seus adeptos são disciplinados, acomodam-se. Duro seria ter o PMDB magoado, como o grupo da dupla Sarney-Renan ou com a turma de Michel Temer. Obviamente, terá o presidente de administrar as insatisfações do PT, que teve definitivamente comprovada a desconfiança de que não é mais o principal comensal do banquete do poder. Os melhores pratos serão oferecidos ao PMDB em primeiro lugar. A dúvida é saber se o PMDB não mudará de refeitório quando chegar a hora decisiva em 2010. Sobre isso vai falar mais o comportamento da economia do que os atrativos de Lula ou da oposição. Por enquanto, tão pragmático quanto Lula, o PMDB quer usufruir as vantagens que sua força política lhe dá. Com um olhar em Lula e outro na oposição.

Olho grande

A pergunta que se fazia em Brasília, depois da "lavada" que o PMDB deu em seus adversários era : e se o bichinho agora morder os peemedebistas ? Aquele da mosca azul. Força no Congresso, nos Estados e nas prefeituras o partido tem, ninguém tem mais do que ele. Ninguém como o PMDB está tão disseminado pelo país inteiro. Por que iria ele resignar-se a um papel secundário em 2010 ? Por que não sair no primeiro turno com um candidato próprio ? Há peemedebistas com essas caraminholas já na cabeça.

O nome não seria o problema

Para os que, tanto no governo quanto na oposição, não acreditam que o PMDB arrisque-se numa aventura dessas, os principais argumentos são de que (i) o partido não tem um nome forte e não teria condições de elaborar um até o fim de 2009 ; (ii) o PMDB é uma federação de interesses nunca se uniria para o lance que tem seus riscos.

Não apostem totalmente nessas objeções : (i) o nome de Aécio está aí, cada vez mais um candidato em busca de uma legenda ; Aécio não embarcou no lance de Serra na candidatura de Tião Viana do PT no Senado ; (ii) o PMDB não perde nada entrando na luta pelo Planalto no primeiro turno : não há governo que possa prescindir dele depois de eleito. Até o momento de uma decisão, o PMDB vai fazer o jogo que mais gosta : não criar muitas dificuldades para o governo no Congresso, mas também não cortejar Lula automaticamente ; adorará Dilma, flertará descaradamente com Serra e fará charminhos nada discretos para Aécio.

Ou seja, não vai assumir nenhum compromisso de noivado antes do tempo.

As razões de Sarney

São insondáveis ainda, para governistas e oposicionistas, os motivos que levaram Sarney, do alto de seus 78 anos, depois de ter negado quase sob juramento não ter a menor intenção, o menor desejo de entrar na disputa, a mergulhar de corpo e alma. Desde que deixou a presidência da República Sarney passou a considerar-se acima do bem e do mal, um ente superior às nossas mesquinhas mumunhas políticas. Não competia, buscava a aclamação. Foi assim quando chegou pela segunda vez à presidência do Senado (a primeira foi no tempo dos militares, pelo partido do governo). E também quando anunciou que corria e depois desistiu quando não conseguiu o tal consenso. Até a opção pelo Senado pelo Amapá em detrimento do seu amado Maranhão teve como mote evitar qualquer ameaça de um fracasso. Por que agora foi para a luta, sabendo que corria riscos ? O que ele corria ficou estampado na tensão que suas faces exibiam na televisão na segunda-feira durante o processo de apuração dos votos de seus colegas. Uma das explicações é a de que o ex-presidente da República precisa do poder federal para manter os espaços políticos e econômicos de seu clã no Maranhão. A outra é a de que ele precisa de força para conter os avanços da PF nos negócios comandados por seu filho Fernando. É muito pouco para tanto sacrifício. Tanto governistas quanto oposicionistas estão intrigados com os propósitos de Sarney.

Muy amigo

Sarney será um fiel aliado de Lula no comando do Congresso. Trará até menos problemas para o presidente do que poderia trazer o companheiro Tião Viana, que teria de dar algumas mostras de independência, de autonomia, para conquistar as simpatias da oposição. Com Sarney não tem nada disso, ele é imperial quando comanda. E tem a vantagem adicional de detestar o governador Serra, ainda mais depois que Serra levou o PSDB para os braços de Tião Viana. Mas Sarney não será um anjo da guarda para Lula de graça. Homem afável, educado, bom conversador, como animal político é um azougue. Der. Jekill e Mr. Hyde.

Cálice

Uma parte do PT é um pote assim de mágoas com o presidente Lula em função do desfecho da sucessão na Câmara e no Senado. Petistas não se conformam com a "submissão" do Planalto aos interesses políticos e outros tais do PMDB. A duras penas o PT está descobrindo a diferença entre petismo e lulismo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa como diria o deputado José Genoino. Porém, o partido nada pode fazer nas atuais circunstâncias, a não ser aceitar a situação, enquadrar-se como puder e "tocar um tango argentino" como no poema "Pneumotórax" de Manuel Bandeira.

De mestres e golpes

Após o (assim classificado por seus adeptos) golpe de mestre em Aécio na disputa pela vaga de candidato do PSDB à sucessão de Lula, com a entrega de uma Secretaria ao adversário-quase desafeto Alckmin, Serra levou seu partido a optar, contra certa lógica política, pelo candidato do PT à presidência do Senado. O DEM estava do outro lado. Mas, segundo certos experts em política, o jogo serviria para espalhar a cizânia nas tropas governistas. O tiro não foi certeiro. Aécio, mineiramente, ficou do outro lado.

Leitura recomendada em Brasília

De uma reportagem da revista alemã "Der Spiegel", útil para autoridades que estão abrindo as burras oficiais sem olhar atentamente as contas públicas :

"Os pacotes de resgate que visam escorar os mercados financeiros na Europa estão ficando cada vez mais caros. Uma preocupante depreciação da moeda é inevitável e falências de Estados não podem mais ser descartadas. Poderia a zona do euro também cair vítima da crise financeira global ?

´Há um rumor circulando de que os Estados não podem falir´, disse recentemente a chanceler alemã, Angela Merkel, em um evento de um banco privado em Frankfurt. ´Este rumor não é verdadeiro.´

É claro que ela está certa. Os países podem falir se permitirem que seus gastos deficitários saiam do controle e não puderem mais arcar com o serviço de suas dívidas. Os comentários de Merkel podem ser interpretados como um alerta de que os países precisam manter seus déficits sob controle. A mensagem é : se os governos forem longe demais na tentativa de resgatar as empresas e a economia, eles próprios poderão enfrentar uma insolvência."

Cuidado com os sofismas

A propósito da nota acima, desconfiem daquelas autoridades e economistas oficiais que dizem que quem cobra cortes no Orçamento federal está na contra-mão do receituário mundial para o combate à crise, que preconiza mais gastos públicos. Estão, propositalmente, confundindo bugalhos com alhos. Mais gastos públicos, sim. Mas em investimentos produtivos e não em custeio da máquina administrativa. Infelizmente, é o que está ocorrendo por aqui. No suspensão preventiva de gastos previstos no Orçamento de 2009, de R$ 32,9 bilhões, anunciados na semana passada pelo ministro Paulo Bernardo, o maior corte proporcional se deu nas verbas para investimentos.

A novela do spread

Há mais de dois meses, a ministra de todos os ministros e candidata à sucessão do presidente Lula, Dilma Roussef, anunciou solenemente que Lula havia ordenado aos presidentes do BB e da CEF a reduzirem suas taxas finais de juros, para forçar os bancos privados a fazerem o mesmo diante de concorrência. Posteriormente, descobriu-se que o BB havia sido uma das instituições financeiras que mais aumentaram o custo do dinheiro que emprestam aos seus clientes. Tivemos então uma reunião entre Lula e os dirigentes dos bancos oficiais para discutir os problemas. E, segundo fontes não identificadas, mas muito bem informadas, Lula teria passado uma carraspana em seus subordinados e exigido providência imediatas. Mais de 15 dias se passaram desde esta última bronca oficial e neste fim de semana ficamos sabendo que os bancos oficiais terão até o dia 13 para reduzirem os juros e os spreads de seus empréstimos. Já é o caso de se perguntar : quem está enganando quem nesta história ? Será que já não passou da hora de discutirmos a questão mais tecnicamente e menos politicamente ?

Capitalismo tupiniquim

A Anac determinou a liberdade de preços das passagens aéreas entre o Brasil e o Exterior. Sem pisos e sem tetos. As companhias estrangeiras que operam aqui, com a queda do número de passageiros, querem fazer ofertas de viagens mais em conta. As companhias nacionais Tam e Gol são contra e conseguiram uma liminar na justiça para suspender as normas da Anac. Nada como viver num país em que o consumidor é levado em conta, em que as autoridades responsáveis pela concorrência não veem (pelo menos não se movem) nenhum problema no duopólio que se instalou no setor aéreo nacional e no qual o ministro da Fazenda (caso Votorantim-Banco do Brasil) e o ministro das Comunicações (caso BrOi) acham que a concentração nesses setores amplia a competição.

E as PPPs ?

Que fim levaram as PPPs nas quais o governo apostava para ampliar os investimentos em infra-estrutura no país ? Se elas eram úteis antes, mais úteis ainda serão nos pacotes anti-crise. Mas estamos falando das verdadeiras PPPs e não das Parcerias Público Privadas "especiais", tais como as estabelecidas entre o Banco do Brasil e famílias Ermírio de Morais (com suporte também do BNDES) e entre o BNDES e os empresários Carlos Jereissati e Sérgio Andrade na BrOi.

Esporte radical

Há algumas modalidades esportivas que são praticadas apenas em Brasília. Pelo menos competitivamente e com alto grau de performance. Uma delas, com maior número de adeptos graduados, é a de "transferência de responsabilidade". O que é bom e certo foi feito por mim. O que é ruim e errado é coisa de outros. O dia que tal modalidade virar esporte olímpico, seremos imbatíveis. Semana passada tivemos uma grande competição desse esporte na capital da República. O "erro monumental" (classificação do presidente da República) de passar a exigir licença prévia para a importação de cerca de 60% (3 mil produtos) da pauta brasileira foi atribuído a funcionários do segundo escalão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. A revogação da "trapalhada" se deu por obra e graça do presidente Lula, com orientação técnica do Ministério da Fazenda. Está bom assim. Vamos deixar aceitar que uma medida tão delicada, de tal alcance, explosiva, veio de um subalterno de um ministério, quando o ministro titular estava viajando. Da próxima vez pode sobrar para o mordomo.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.