Terça-feira, 23 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 10 de março de 2009

Política & Economia NA REAL n° 42

 

Terça-feira, 10 de março de 2009 - nº 42

Sinais negativos

Vejam esta declaração de William Dudley, presidente do FED: "O relatório sobre o emprego era o foco. O que vimos a partir dele é que a economia tem ímpeto para cair." Pois bem: na semana passada, a divulgação do desemprego nos EUA jogou mais pessimismo nos mercados financeiros e de capital. Se estamos a caminhar para uma depressão, não dá para dizer. Todavia, é certo que não dá para descartar esta hipótese. O Banco Mundial, órgão que foi muito silencioso sobre os rumos desastrosos das principais economias nos últimos anos, agora declara em alto e bom som que "desde a 2ª Guerra a economia mundial vai ficar 5% abaixo de seu potencial." A produção industrial mundial deve cair 15% e o comércio internacional terá o pior desempenho em 80 anos. Tudo isto para dizer que não se pode negligenciar minimamente a tragédia instalada mundo afora depois de quase dez anos de especulação financeira. Infelizmente, o Brasil deve ser contaminado por este cenário e seria extremamente interessante que o país articulasse um plano de grande envergadura para enfrentar o que vem lá de fora. Negar a realidade para "sustentar as expectativas" é erro grosseiro, mesmo que seja uma forte tentação política no que tange ao proselitismo.

Números do Brasil

Na semana passada e ontem foram divulgados os indicadores de produção industrial do país. Em apenas quatro meses, entre setembro do ano passado e janeiro deste ano, a indústria brasileira registrou queda de 18,2% na produção. Todos os setores registraram quedas expressivas: bens de capital (-20,4%), bens intermediários (-17,8%), bens de consumo duráveis (-29,7%) e bens de consumo semi e não duráveis (-7,6%). Em janeiro, em comparação com o mesmo período do ano passado, a redução da produção foi significativa: 17,2% - "generalizada" em todos os segmentos. Segundo a CNI, o faturamento do setor industrial registrou em janeiro queda de 13,4% quando comparado com janeiro de 2008. É extremamente difícil traçar o futuro do desempenho da indústria. Do lado positivo, temos uma série de medidas anticíclicas diante do processo recessivo. Destaque-se, a título de ilustração, a redução de IPI para o setor automotivo e a provisão de crédito em moeda forte por parte do BC para diversos setores. Medidas consistentes e que ajudam e muito no processo. Do lado negativo, temos o aumento sistemático do desemprego em setores anteriormente dinâmicos, a queda da confiança dos consumidores e a baixa propensão ao risco por parte dos investidores (do setor real e financeiro). Todos estes itens decorrem diretamente do agravamento externo. Sem que tenhamos pretensões de fazer exercícios de futurologia, acreditamos que pelo menos nos próximos quatro trimestres a queda da atividade será sistemática e significativa. A contaminação externa por aqui está no começo. Lamentavelmente.

COPOM

Desde novembro alertamos nossos leitores sobre o fato de que a autoridade monetária brasileira, o BC, estava praticando uma taxa de juros básica acima daquela que seria estimulante para o processo econômico. Acreditamos que esta situação se mantém. Os dados obtidos do mercado futuro de juros indicam a queda de 1% na taxa Selic na reunião de amanhã do COPOM. Cairia de 12,75% para 11,75% ao ano. De nossa parte acreditamos numa queda superior a este patamar, algo entre 1,5 e 2,0 pontos. Seria um ajuste "natural" diante de números tão fracos da economia real e dos números de inflação que convergem rapidamente para a meta de inflação estabelecida pelo governo. Se o BC não reduzir a Selic em mais de 1%, esta tarefa, a nosso ver, terá de ser realizada com mais riscos na próxima reunião do COPOM, em maio. Assim, apostar nos contratos de juros futuros mais longos, parece uma estratégia consistente com o cenário depressivo e deflacionário que se aproxima.

Contas governamentais

Nesta altura, está visível que o Planalto joga boa parte de suas fichas para manter as contas públicas mais ou menos em ordem este ano na queda acentuada da taxa Selic. Ele pagaria menos pelo serviço da dívida e poderia continuar gastando quase como está, mesmo com a diminuição da receita tributária. Lula não quer – e não deve - cortar investimentos e politicamente não se sente à vontade para diminuir as despesas correntes e mesmo adiar projetos não prioritários do PAC. Seria um tiro no pé na candidatura Dilma e do seu projeto político. Como a arrecadação vai diminuir muito – no mínimo R$ 40 bilhões a menos em relação a 2008 -, e como muitas despesas já foram contratadas e são "incortáveis" como diria o nosso Rogério Magri, o BC passou a ser a salvação. Por isso, as pressões sobre Henrique Meirelles e seu grupo, desta vez, foram mais explícitas e mais violentas do que de costume. Contudo, mesmo que o BC venha a ser, amanhã, mão aberta para os seus padrões, ainda assim é provável que o governo tenha de diminuir o superávit primário de 3,8% do PIB para 2,8%. A mudança, porém, não deverá ser admitida agora, para não assanhar o "mercado". Como se o mercado já não estivesse percebendo a manobra. A grande pergunta é : até que ponto será possível conciliar o jogo eleitoral com a administração da crise ?

China sinaliza e terá de agir

A China ainda é o principal vagão carreado pela locomotiva danificada norte-americana. Acreditava-se há pouco tempo que o gigante asiático era o centro do mundo. Verifica-se agora que em tempos globais tudo está integrado e nada substitui de forma instantânea a economia dos EUA, que representa 25% do PIB mundial. Neste contexto, o país comunista vai ampliando os pacotes de estímulo econômico. Estes começaram tímidos em meados do segundo semestre do ano passado. Diante de uma situação agravada, as autoridades chinesas sinalizaram na semana passada que podem lançar um plano ampliado de estímulo fiscal (de apoio ao consumo doméstico), monetário (redução da taxa de juros) e saneamento do "desconhecido" setor financeiro do país. É aposta muito razoável acreditar que esta "sinalização" vai se tornar efetiva. Talvez em pouquíssimas semanas. Conforme já afirmamos nesta coluna em diversas ocasiões, os maiores riscos para um agravamento ainda mais dramático da situação internacional virão da China. Portanto, acompanhar a conjuntura de lá é dever de ofício prioritário para quem quer saber para onde está indo a economia mundial.

OMC de olho no BNDES

Grave. Gravíssima. Este é o único termo que se pode usar para o "olhar" que a OMC está a dispensar ao financiamento do BNDES às empresas brasileiras. Há uma investigação em curso que começou ao final de 2008. É evidente que o órgão mundial está fazendo o jogo protecionista que as principais economias estão a fomentar. Portanto, as suspeitas da OMC nada mais são que o "jogo pesado" das políticas protecionistas que são a tentação do momento de diversos países para sustentar o emprego doméstico e, por conseguinte, manter a popularidade dos combalidos governos dos países ricos. Não há efeitos imediatos, mas os sintomas são os piores possíveis.

Pacote imobiliário !

Finalmente, está programado para a semana que vem, até o dia 20, o lançamento do pacote imobiliário do governo, com o qual Lula pretende alavancar a construção de um milhão de novas moradias no Brasil em 2009 e 2010. Boa parte são moradias populares. A ministra Dilma Roussef - o pacote será o mais novo bebê do PAC - disse que haverá casas de graça para quem não pode pagar. E boa parte dos novos compradores pagará prestações simbólicas, de R$ 15 e R$ 20. Um projeto ambicioso, socialmente justo – e eleitoralmente oportuno. Há, porém, dois obstáculos antes que ele seja colocado de pé. O primeiro é definir de onde sairá toda a dinheirama necessária para erguer, num espaço de pouco mais de 20 meses, um milhão de novas residências e quem bancará os subsídios embutidos no programa. O segundo é, por assim dizer, uma questão de paternidade. Ou de maternidade. O governo em Brasília quer envolver os governadores e os prefeitos no projeto, seja com contribuições fiscais (cortes de impostos e taxas), seja com financiamentos. A maioria está disposta a colaborar (ninguém seria louco de ir contra), mas não quer deixar as glórias todas para o governo federal. Quer levar também os dividendos. Alguns querem que o dinheiro seja transferido para as companhias habitacionais do município ou do Estado e que elas fiquem responsáveis por tudo. Porém, isso contraria frontalmente os planos palanqueiros de Lula para a ministra Dilma. Do jeito que vai, o pacote imobiliário pode nascer órfão de pais ou capenga. E com problemas de transparências no que se refere às contas públicas.

Com o dinheiro alheio

Há algum tempo prefeitos e governadores – e não são apenas os da oposição – andam se queixando de que o governo federal faz festas com os cofres deles. Lula divide a conta, porém não chama para as comemorações e os abraços. É o caso, citam, do novo piso salarial dos professores que vai ser pago por eles e não pelo governo federal: o reconhecimento foi todo para Lula. Ou ainda, da redução do IPI dos automóveis e do IRPF: parte da renúncia fiscal saiu dos Fundos de Participação dos Estados e o dos Municípios. Mais uma: segundo a Confederação Nacional dos Municípios, o governo repassa R$ 0,22 às prefeituras para cada aluno, mas as prefeituras gastam R$ 1. No entanto, a merenda escolar está listada entre as ações sociais afirmativas do governo federal.
 

Collor, o retorno

Collor teria sido eleito presidente da estratégica Comissão de Infra-Estrutura se o presidente Lula tivesse se empenhado com afinco junto a seus aliados pela candidatura de Idelli Salvatti. Assim como Tião Viana não teria sido derrotado por Sarney na disputa pelo comando do Senado, se o Planalto não tivesse torcido pelo senador maranhense do Amapá. Para tocar seu projeto político com a ministra Dilma Roussef, Lula calcula que precisa mais do PMDB e de alguns aliados do que do PT e a chamada esquerda de outros partidos. Este, como diria o ex-governador Leonel Brizola, é um "sapo barbudo" que o PT terá de engolir várias vezes até 2010. O partido de Berzoini não perde por esperar quando chegar a hora de formar as chapas de candidatos a governador e a senador.

Ciro, o retorno

É por essas e outras que o deputado Ciro Gomes, depois de mais de seis meses de quase silêncio e de abstinência política, voltou em grande estilo. Numa palestra e numa entrevista na semana passada, apontou muito menos para seus alvos prediletos – os tucanos e o governador José Serra – e muito mais para a política econômica (o BC na frente, é lógico) e para a candidatura Dilma (que ele não aceita como consolidada). Ciro percebeu que os "queridinhos" de Lula hoje são outros.
 

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.